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Democracia
1/6/2026 18:00
A juventude brasileira enfrenta uma das maiores crises de representatividade política da história. Segundo dados da pesquisa Juventude Brasil, de 2021, coordenada pelo Observatório da Juventude na Ibero-Americana, 82% dos entrevistados não confiam em partidos políticos, 80% não confiam no Congresso Nacional e 69% não confiam no governo. Em outra pesquisa, realizada pela Fundação Tide Setúbal, o resultado obtido foi que 31% dos jovens não confiam no Governo Federal e 48% confiam pouco. Esses dados revelam lamentavelmente a desconfiança política vivenciada entre os jovens, marcada principalmente pelo desinteresse sobre os assuntos da política e sobre as pautas discutidas no Congresso Nacional.
Ao contrário do que se tem no imaginário popular, o ímpeto da juventude em participar dos debates sobre os mais diversos assuntos que permeiam a sociedade não faz mais parte da realidade brasileira, muito embora a geração atual seja a mais conectada em termos de informação, tanto pelas mídias sociais quanto por jornais televisivos. A educação política nunca foi uma marca característica do Brasil, mas nos dias de hoje se vive um agravamento da falta dela.
O regime democrático deveria ter como principal característica a participação ativa dos jovens eleitores nas pautas e nas discussões sobre os percalços vivenciados por toda a população, mesmo porque são esses mesmos jovens eleitores que se encontram no início de sua trajetória acadêmica e profissional e que, em razão disso, deveriam enxergar nos representantes eleitos uma forma de viabilizar uma participação ativa por parte dos votantes, seja para criar políticas públicas que beneficiem os cidadãos brasileiros no geral, seja para melhorar as já existentes. No entanto, como é possível notar no dia a dia da população brasileira, existe uma restrição dessa participação política, que infelizmente fica limitada tão somente aos representantes eleitos.
Em pleno 2026, ano que carrega como uma das principais marcas uma sociedade cada vez mais informada e conectada virtualmente, sobretudo por meio das redes sociais, a desconexão política nunca foi tão evidente como é agora, mesmo que a cada ano que passe os jovens tenham acesso a aparelhos digitais cada vez mais cedo e com uma idade mais tenra. Esse cenário é absolutamente desolador para o país no geral, pois não há como o jovem eleitor levar suas queixas e pautas políticas ao Congresso se sequer há confiança e interesse em participar do processo político e daquilo que lhe foi conferido pela própria Constituição da República como um direito fundamental: os direitos políticos, previstos no art. 14 da Constituição Federal de 1988.
Portanto, um regime que foi pensado e criado para satisfazer o interesse público e para transformar a vida dos cidadãos para melhor se transformou num regime cujos interesses a serem satisfeitos são, em primeiro lugar, os dos próprios políticos, o que vai de encontro ao histórico de luta do país pelo fim da treva noturna do autoritarismo e pelo amanhecer róseo da liberdade democrática. Nesse viés, a falta de interesse dos mais novos pela política é agravada sobretudo pela falta de educação política nas escolas.
Conforme pesquisa realizada pelo DataSenado, as principais fontes de informação sobre política dos brasileiros são os meios informais, como a televisão (37%) e as redes sociais (24%). Nesse sentido, o ambiente escolar fica alheio à educação política, e uma das principais causas desse problema é a brutal polarização que se vive a cada eleição que o Brasil vivencia, sem esquecer também da falta de o aprendizado político constar no plano de ensino das instituições.
O medo de expressar a opinião sobre assuntos políticos virou uma epidemia sem cura, que transforma cidadãos que possuem o direito de manifestar seu pensamento político em simples eleitores que, a cada 4 anos, devem decidir em guiar a nação para o comando de determinado lado de atores políticos ou de outro, sem mesmo terem a possibilidade de pensar os problemas que o país enfrenta ao longo de mais de 20 anos de um modelo que apenas reverbera os impasses enfrentados pela população em geral, como o elevado tempo de espera de atendimento nos hospitais públicos, a defasagem do transporte público e da mobilidade de vias públicas no geral, a alta taxa inflacionária que oblitera cada vez mais o poder de compra do trabalhador brasileiro e, por fim, o grande problema da segurança pública, que assola o Brasil há tanto tempo que já virou rotina ter nos noticiários sempre casos de roubos, homicídios, feminicídios e furtos.
Pessoas que, em teoria, deveriam se ajudar para a consecução do interesse público, por meio de debates funcionais sobre política, tornaram-se, nos últimos anos, verdadeiros rivais, que não mais enxergam aquele que pensa diferente como um outro cidadão usufruindo seu direito de opinião, mas como um inimigo mortal que merece sofrer pela dita escolha errada. Votar errado virou uma espécie de taxação, ou seja, se a pessoa vota a favor de um candidato A ou B, que seja defensor de pautas contrárias às defendidas por outro cidadão, este não mais a aceita.
Portanto, é de se notar que o ambiente escolar tem um papel de extrema importância para mitigar essa problemática, justamente por ser o ambiente em que o jovem desde cedo frequenta com o objetivo, em tese, de aprender, e se há a iniciativa de ensinar uma conduta condizente com os valores republicanos e democráticos de aceitar quem pensa diferente, sem deixar de continuar defendendo seus próprios valores sem gerar uma rivalidade extrema, é nítido que o resultado será uma transformação geral no modus operandi da sociedade brasileira, que tanto sofre atualmente com as consequências da polarização, principalmente entre as próprias famílias, que deveriam ser símbolo e exemplo de união, e não de guerra. Logo, a educação política nas escolas é uma necessidade, menos por uma questão puramente acadêmica do que por uma oportunidade de lapidar os alunos a serem cidadãos verdadeiramente pensantes e que entendem o regime, o governo, a forma e o sistema políticos a que estão submetidos.
Ter como parte do plano de ensino das escolas o funcionamento do processo legislativo, o papel dos senadores e deputados, os direitos políticos assegurados na Constituição Federal e noções básicas do modelo eleitoral brasileiro é de crucial importância para o desenvolvimento do ambiente educacional da nação, já que o entendimento do funcionamento político do próprio país é essencial para a atuação dos eleitores no meio político na medida em que é muito mais simples e prazeroso participar de algo que se entende e em que se confia do que participar de algo que provoca desconfiança, raiva e desinteresse, como a política tem feito com os jovens.
É claro que esse tipo de iniciativa não pode ser implementado sem antes colocar à disposição dos jovens eleitores representantes do povo, e não dos seus próprios interesses. Nessa perspectiva, a mudança de conduta da classe política também é peça-chave na construção de uma nova classe de eleitores esclarecidos e dispostos a participar das políticas do governo. A partir do momento em que a educação política for pautada na verdadeira confiança entre políticos e eleitores, sobretudo os jovens eleitores, a democracia restará fortalecida, visto que é por meio da relação de confiança que se estabelecessem projetos, políticas públicas, metas e objetivos cujo núcleo central seja a melhoria da qualidade de vida do cidadão comum.
O vínculo de confiança entre políticos e jovens eleitores, que atualmente é só um conto de fadas no Brasil, constitui um dos requisitos fundamentais para que a democracia brasileira seja triunfante no futuro. Mais do que isso, a falta de um ambiente escolar no qual as crianças aprendam conceitos fundamentais de política serve inclusive para fortalecer os seus próprios direitos inscritos na Carta Magna – e são muitos, diga-se de passagem.
Combater a falta de educação política nas instituições de ensino deve ser uma das primeiras pautas do governo, porque é a partir dessas instituições que sairão os novos eleitores, os novos profissionais, os novos políticos brasileiros. É por meio de um letramento e de uma instrução de qualidade que esses cidadãos terão ferramentas suficientes e necessárias para participar do debate político no futuro de maneira efetiva, para que os impasses que se enxergam na rotina diária do brasileiro sejam enfrentados pelos representantes do povo e, consequentemente, políticas públicas sejam implementadas com a finalidade de mitigar todos os tipos de sofrimento pelos quais os eleitores brasileiros passam.
Criar e manter uma juventude atuante no cenário político, portanto, é mais do que propiciar um ambiente no qual possam florescer vários tipos de projetos de políticas públicas que atendam aos interesses da população brasileira, é concretizar um antigo projeto fruto de uma luta intensa por vários anos: o projeto de um Brasil verdadeiramente democrático, que olha para os interesses de sua população de forma série e convicta. É tempo de repensar as prioridades que vêm sendo adotadas pelos governantes e as pautas políticas às quais se tem dado prioridade, porque o Brasil não pode mais esperar, dado que as problemáticas que assolam o povo brasileiro não esperam este estar preparado, elas simplesmente acontecem, sem avisar.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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