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Violência de gênero
2/6/2026 15:27
Vimos nos últimos meses, a crescente e revoltante estatística de feminicídio no Brasil. É dever de qualquer ser humano se indignar e revoltar - e buscar encontrar os padrões presentes na nossa sociedade que permitem que números tão alarmantes se repitam e perpetuem.
O Brasil sempre desconsiderou promover a igualdade entre seus filhos, inclusive, endossou a segregação por motivos de raça e gênero, isso refletiu fortemente na construção — ao longo dos séculos — uma estrutura violenta destilado às maiorias minorizadas, afinal, o número de mulheres no Brasil é maior que o dos homens (e o de negros, maior que o de brancos). E nesta sociedade, o pensar machista, enraizado do campo a cidade; do norte ao sul; da colônia aos dias atuais, vemos a indiferença em relação a vida das mulheres. Notamos este padrão na literatura, nas manchetes de jornal, nos casos emblemáticos da Justiça, nos quadros e na cultura popular.
E quando tocamos no assunto de música popular, encontramos desde o começo da música brasileira, músicas cuja única letra é promover a raiva e a "afirmação por meio da força" para que os homens não sejam cornos, mantenham "suas mulheres" no cabresto, tal qual um animal.
Não se trata aqui de fazer um julgamento estético, moralista ou de atacar as preferências musicais do povo brasileiro. A música popular, em sua imensa riqueza, é o espelho de sua época. O que se propõe é analisar como, sob a superfície do entretenimento de massa — seja nas modas de viola do século passado ou nos palcos do trap atual —, a crônica musical brasileira frequentemente registrou, normalizou e, por vezes, glamorizou a sujeição e a violência contra a mulher.
Com a difusão destas músicas nas rádios, este pensamento redobra a sua força, e aprofunda ainda mais suas raízes no solo da família brasileira. Com o decorrer das décadas, a violência vai se maquiando, seja o olho roxo das esposas, ou as letras com uma agora mais suave violência, nas músicas destinadas a classe média alta brasileira na década de 50, como "Amor de Malandro" originalmente lançada em 1929, por Francisco Alves, mas que foi regravada na década de 50:
"Se ele te bate é porque gosta de ti
Pois bater-se em quem não se gosta
Eu nunca vi."
As mulheres foram condicionadas a acreditar que o amor é violento, e que posse é sinônimo de preocupação, e é lamentável encontrarmos nas músicas versos que sustentam esse pensamento. Como disse antes, a violência sempre encontrou suas brechas, e na década de 60, com a explosão dos novos ideais e novas tecnologias (como o anti-concepcional), as mulheres puderam ter mais autonomia (pelo menos na classe média alta das metrópoles) sobre seus corpos, e as grandes cidades começaram a ter de lidar com um aumento de homens ressentidos, armados e violentos, dispostos a cometer o crime passional, respaldados pela antiga aceitação jurídica da "legítima defesa da honra". Essa "modernidade toda" não chegou ao campo, onde as novelas (as telenovelas e as rádionovelas) ainda promoviam um ideal de mulher do lar, e a música não mudou o modo de cantar sobre as mulheres.
Na cidade, a bossa-nova, de Vinicius de Moraes, compreendeu que a mulher nunca foi um objeto condicionado a fazer filho e cuidar da casa, mas alguém que seria o destinatário de um amor romântico, poético e novo. Na contramão, no interior, fosse no sertanejo ou no forró, aumentava a pressão para zelar a imagem de homem viril, que deveria vingar traições, colocar ordem em casa do jeito que fosse possível, e transferia a culpa dos erros às mulheres:
"Agora já me vinguei
É esse o fim de um amor
Essa cabocla eu matei
É a minha história, doutor."
Cabocla Tereza, de Tonico e Tinoco, um dos clássicos do sertanejo raíz.
Lembro que, não estou criticando os gêneros musicais, inclusive gosto do ritmo do sertanejo e do baião, apenas estou apontando padrões que de modo sútil, as vezes até explícito, sustentam a violência contra a mulher.
Avançando no tempo, temos inúmeros hits de carnaval nos últimos anos que reforçam inclusive a cultura do estupro e do assédio, como o clássico "Pau que nasce torto":
"Tudo o que é perfeito a gente pega pelo braço,
joga lá no meio, mete em cima e mete em baixo...
depois de 9 meses você vê o resultado."
Os exemplos citados aqui, já são amplamente discutidos pelos acadêmicos nas universidades — parece que, tudo que remete ao Sertanejo, deve ser combatido, é vil. Como mencionei anteriormente, o problema não está apenas no campo, ou na música sertaneja, é um problema que abrange a cidade e o campo, e está presente em todas as vertentes da música popular Brasileira, e não compreendo a razão pela qual, desconsideramos o funk e o recente "trap" como sustentadores desta ideologia.
No funk, a cultura do estupro foi hit do carnaval de 2018, com a música "Surubinha de leve" que incentivava a embebedar a mulher, ter relação sexual com ela e depois, abandonar na rua. Este é o reflexo de uma sociedade na qual 50% das mães são solo , e que só em 2024, tivemos 91 mil crianças registradas sem o nome do pai. A frase "Uma mão no joelho, e outra na consciência" é comumente postada nas redes sociais quando referimos a músicas com esta temática.
"E se você pedir pra 'mim' parar, não vou parar
Porque você que resolveu vir pra base transar."
MC Denny - Faz a Fila (Outro hit dos últimos anos).
É importante sermos incisivos contra a violência de gênero, e isto inclui revermos quais são as músicas que figuram entre as mais ouvidas nacionalmente nos últimos anos.
Não podemos empenhar em punir apenas um dos lados que promove a violência. E reconhecer que, hoje, o funk e o trap desempenham forte papel na objetificação da mulher, na violência e abandono da mulher — bem como o sertanejo, que teve em décadas passadas, um hit que também normalizava o estupro:
"Tô a fim de você
E se não tiver, cê vai ter que ficar...
Vai namorar comigo sim (…)
Se reclamar, cê vai casar também."
Vidinha de Balada, de Henrique e Juliano.
O fato concreto é: por que a academia escolhe quem deve ser punido por sua violência e coloca como inimputável aquele que sofre outras opressões estruturais? Por que desconsiderar a homofobia presente nas comunidades, mas salientar que o interior dos Estados é atrasado? Ou apontar os casos de racismo no Sul, ignorando a visível segregação racial em capitais oligárquicas do Nordeste? Acusar violência de gênero somente quando acontece com mulheres da classe média, enquanto nas comunidades, quase diariamente, mulheres são humilhadas, violentadas e agredidas por suspeita de adultério. Isso para não falar da crescente violência progressista contra as mulheres, que hoje, são presas por recusar que frequentem seus banheiros, acusadas de transfobia.
A violência nestes casos não pode ser menorizada, essas pessoas, esssas comunidades, precisam, com urgência, que o discurso não seja dotado de palavras rebuscadas e teses ultra acadêmicas, mas de ações eficazes de educação, que desde cedo, ensine que seus homens a jamais matar ou violentar uma mulher, e que as penas para estes crimes sejam mais severas do que as penas sociais impostas as mulheres adúlteras nestas comunidades que, detém sua própria justiça, com suas próprias leis e penas.
A Academia promove um racismo e uma aporofobia velada, quando menospreza a capacidade cognitiva — e de evolução — das pessoas pretas e pobres, quando as isenta de culpa. A Academia parece também se esquecer da origem do funk, com letras que pregavam igualdade social, e clamaval por ações sociais que reduzissem o crime na comunidade… Este funk quase não existe mais, agora o funk serve como aparato de endeusamento ao crime, nas mais variadas facetas do mesmo, e além de promover o culto as armas, promove também, a violência contra as mulheres. Ser vítima de outras desigualdades não dá a ninguém o direito de adotar a violência como metódo de correção e de subjulgação.
A política de glamorizar as favelas começou a ganhar espaço desde a redemocratização, e, não podendo nos privar de elogiar a necessidade de afirmar a qualidade de um povo excluido, devemos reconhecer que, essa política fez com que os novos governos negligenciassem ainda mais os problemas reais enfrentados nos morros e comunidades, e desconsiderar os absurdos que são promovidos nessa cultura, como se fosse uma cultura tombada, sendo impossível alterar bases dessa cultura.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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