Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Eleições 2026

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosRadarEleições 2026
  1. Home >
  2. Artigos >
  3. O som do abuso: O que a música popular revela sobre a violência | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News

Violência de gênero

O som do abuso: O que a música popular revela sobre a violência

Como a indústria do entretenimento e a leniência intelectual se omitem diante do avanço do feminicídio nas periferias.

Pedro Simão

Pedro Simão

2/6/2026 15:27

A-A+
COMPARTILHE ESTE ARTIGO

Vimos nos últimos meses, a crescente e revoltante estatística de feminicídio no Brasil. É dever de qualquer ser humano se indignar e revoltar - e buscar encontrar os padrões presentes na nossa sociedade que permitem que números tão alarmantes se repitam e perpetuem.

O Brasil sempre desconsiderou promover a igualdade entre seus filhos, inclusive, endossou a segregação por motivos de raça e gênero, isso refletiu fortemente na construção — ao longo dos séculos — uma estrutura violenta destilado às maiorias minorizadas, afinal, o número de mulheres no Brasil é maior que o dos homens (e o de negros, maior que o de brancos). E nesta sociedade, o pensar machista, enraizado do campo a cidade; do norte ao sul; da colônia aos dias atuais, vemos a indiferença em relação a vida das mulheres. Notamos este padrão na literatura, nas manchetes de jornal, nos casos emblemáticos da Justiça, nos quadros e na cultura popular.

E quando tocamos no assunto de música popular, encontramos desde o começo da música brasileira, músicas cuja única letra é promover a raiva e a "afirmação por meio da força" para que os homens não sejam cornos, mantenham "suas mulheres" no cabresto, tal qual um animal.

De clássicos sertanejos a hits contemporâneos, letras que naturalizam violência e controle ajudam a perpetuar desigualdades.

De clássicos sertanejos a hits contemporâneos, letras que naturalizam violência e controle ajudam a perpetuar desigualdades.Magnific

Não se trata aqui de fazer um julgamento estético, moralista ou de atacar as preferências musicais do povo brasileiro. A música popular, em sua imensa riqueza, é o espelho de sua época. O que se propõe é analisar como, sob a superfície do entretenimento de massa — seja nas modas de viola do século passado ou nos palcos do trap atual —, a crônica musical brasileira frequentemente registrou, normalizou e, por vezes, glamorizou a sujeição e a violência contra a mulher.

Com a difusão destas músicas nas rádios, este pensamento redobra a sua força, e aprofunda ainda mais suas raízes no solo da família brasileira. Com o decorrer das décadas, a violência vai se maquiando, seja o olho roxo das esposas, ou as letras com uma agora mais suave violência, nas músicas destinadas a classe média alta brasileira na década de 50, como "Amor de Malandro" originalmente lançada em 1929, por Francisco Alves, mas que foi regravada na década de 50:

"Se ele te bate é porque gosta de ti

Pois bater-se em quem não se gosta

Eu nunca vi."

As mulheres foram condicionadas a acreditar que o amor é violento, e que posse é sinônimo de preocupação, e é lamentável encontrarmos nas músicas versos que sustentam esse pensamento. Como disse antes, a violência sempre encontrou suas brechas, e na década de 60, com a explosão dos novos ideais e novas tecnologias (como o anti-concepcional), as mulheres puderam ter mais autonomia (pelo menos na classe média alta das metrópoles) sobre seus corpos, e as grandes cidades começaram a ter de lidar com um aumento de homens ressentidos, armados e violentos, dispostos a cometer o crime passional, respaldados pela antiga aceitação jurídica da "legítima defesa da honra". Essa "modernidade toda" não chegou ao campo, onde as novelas (as telenovelas e as rádionovelas) ainda promoviam um ideal de mulher do lar, e a música não mudou o modo de cantar sobre as mulheres.

Na cidade, a bossa-nova, de Vinicius de Moraes, compreendeu que a mulher nunca foi um objeto condicionado a fazer filho e cuidar da casa, mas alguém que seria o destinatário de um amor romântico, poético e novo. Na contramão, no interior, fosse no sertanejo ou no forró, aumentava a pressão para zelar a imagem de homem viril, que deveria vingar traições, colocar ordem em casa do jeito que fosse possível, e transferia a culpa dos erros às mulheres:

"Agora já me vinguei

É esse o fim de um amor

Essa cabocla eu matei

É a minha história, doutor."

Cabocla Tereza, de Tonico e Tinoco, um dos clássicos do sertanejo raíz.

Lembro que, não estou criticando os gêneros musicais, inclusive gosto do ritmo do sertanejo e do baião, apenas estou apontando padrões que de modo sútil, as vezes até explícito, sustentam a violência contra a mulher.

Avançando no tempo, temos inúmeros hits de carnaval nos últimos anos que reforçam inclusive a cultura do estupro e do assédio, como o clássico "Pau que nasce torto":

"Tudo o que é perfeito a gente pega pelo braço,

joga lá no meio, mete em cima e mete em baixo...

depois de 9 meses você vê o resultado."

Os exemplos citados aqui, já são amplamente discutidos pelos acadêmicos nas universidades — parece que, tudo que remete ao Sertanejo, deve ser combatido, é vil. Como mencionei anteriormente, o problema não está apenas no campo, ou na música sertaneja, é um problema que abrange a cidade e o campo, e está presente em todas as vertentes da música popular Brasileira, e não compreendo a razão pela qual, desconsideramos o funk e o recente "trap" como sustentadores desta ideologia.

No funk, a cultura do estupro foi hit do carnaval de 2018, com a música "Surubinha de leve" que incentivava a embebedar a mulher, ter relação sexual com ela e depois, abandonar na rua. Este é o reflexo de uma sociedade na qual 50% das mães são solo , e que só em 2024, tivemos 91 mil crianças registradas sem o nome do pai. A frase "Uma mão no joelho, e outra na consciência" é comumente postada nas redes sociais quando referimos a músicas com esta temática.

"E se você pedir pra 'mim' parar, não vou parar

Porque você que resolveu vir pra base transar."

MC Denny - Faz a Fila (Outro hit dos últimos anos).

É importante sermos incisivos contra a violência de gênero, e isto inclui revermos quais são as músicas que figuram entre as mais ouvidas nacionalmente nos últimos anos.

Não podemos empenhar em punir apenas um dos lados que promove a violência. E reconhecer que, hoje, o funk e o trap desempenham forte papel na objetificação da mulher, na violência e abandono da mulher — bem como o sertanejo, que teve em décadas passadas, um hit que também normalizava o estupro:

"Tô a fim de você

E se não tiver, cê vai ter que ficar...

Vai namorar comigo sim (…)

Se reclamar, cê vai casar também."

Vidinha de Balada, de Henrique e Juliano.

O fato concreto é: por que a academia escolhe quem deve ser punido por sua violência e coloca como inimputável aquele que sofre outras opressões estruturais? Por que desconsiderar a homofobia presente nas comunidades, mas salientar que o interior dos Estados é atrasado? Ou apontar os casos de racismo no Sul, ignorando a visível segregação racial em capitais oligárquicas do Nordeste? Acusar violência de gênero somente quando acontece com mulheres da classe média, enquanto nas comunidades, quase diariamente, mulheres são humilhadas, violentadas e agredidas por suspeita de adultério. Isso para não falar da crescente violência progressista contra as mulheres, que hoje, são presas por recusar que frequentem seus banheiros, acusadas de transfobia.

A violência nestes casos não pode ser menorizada, essas pessoas, esssas comunidades, precisam, com urgência, que o discurso não seja dotado de palavras rebuscadas e teses ultra acadêmicas, mas de ações eficazes de educação, que desde cedo, ensine que seus homens a jamais matar ou violentar uma mulher, e que as penas para estes crimes sejam mais severas do que as penas sociais impostas as mulheres adúlteras nestas comunidades que, detém sua própria justiça, com suas próprias leis e penas.

A Academia promove um racismo e uma aporofobia velada, quando menospreza a capacidade cognitiva — e de evolução — das pessoas pretas e pobres, quando as isenta de culpa. A Academia parece também se esquecer da origem do funk, com letras que pregavam igualdade social, e clamaval por ações sociais que reduzissem o crime na comunidade… Este funk quase não existe mais, agora o funk serve como aparato de endeusamento ao crime, nas mais variadas facetas do mesmo, e além de promover o culto as armas, promove também, a violência contra as mulheres. Ser vítima de outras desigualdades não dá a ninguém o direito de adotar a violência como metódo de correção e de subjulgação.

A política de glamorizar as favelas começou a ganhar espaço desde a redemocratização, e, não podendo nos privar de elogiar a necessidade de afirmar a qualidade de um povo excluido, devemos reconhecer que, essa política fez com que os novos governos negligenciassem ainda mais os problemas reais enfrentados nos morros e comunidades, e desconsiderar os absurdos que são promovidos nessa cultura, como se fosse uma cultura tombada, sendo impossível alterar bases dessa cultura.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

sociedade machismo cultura

Temas

violência de gênero
ARTIGOS MAIS LIDOS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES