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Política
2/6/2026 16:45
Poucos conceitos ajudam tanto a compreender a política brasileira quanto o presidencialismo de coalizão, formulado pelo cientista político Sergio Abranches ainda nos anos 1980. A ideia era simples: em um país marcado pelo multipartidarismo, pela diversidade regional e por um sistema eleitoral fragmentado, nenhum presidente conseguiria governar sozinho. Seria necessário construir coalizões amplas no Congresso Nacional para aprovar projetos e garantir estabilidade institucional.
Durante décadas, o modelo funcionou com maior ou menor eficiência. Presidentes negociavam apoio parlamentar, distribuíam espaços políticos e construíam maiorias. Havia tensões, crises e conflitos, mas o centro de gravidade do sistema permanecia no Poder Executivo.
Hoje, porém, a sensação é que esse equilíbrio foi rompido.
O Brasil vive uma espécie de mutação do presidencialismo de coalizão. O que antes era um sistema de cooperação entre os Poderes transformou-se gradualmente em um modelo no qual o Executivo se tornou cada vez mais dependente do Congresso para governar. Não se trata apenas de uma mudança de intensidade. Trata-se de uma mudança de natureza.
O marco dessa transformação pode ser identificado no período em que o então deputado Eduardo Cunha assumiu a presidência da Câmara dos Deputados. A partir dali, o Congresso passou a demonstrar uma capacidade inédita de impor derrotas ao Executivo. O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff consolidou essa nova correlação de forças e revelou que um presidente eleito poderia perder completamente sua capacidade de articulação política.
Nos anos seguintes, o movimento se aprofundou.
Durante a presidência de Arthur Lira na Câmara, o Congresso conquistou um volume sem precedentes de poder orçamentário por meio das chamadas emendas de relator, conhecidas popularmente como emendas secretas. Independentemente do julgamento político sobre seus defensores ou críticos, o fato é que o controle de parcelas cada vez maiores do orçamento federal passou das mãos do Executivo para grupos organizados do Legislativo.
O resultado é um sistema no qual presidentes eleitos pelo voto popular precisam negociar continuamente para garantir condições mínimas de governabilidade.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta exatamente esse dilema. Embora tenha vencido a eleição presidencial, não possui uma maioria parlamentar sólida e homogênea. A cada votação relevante, o Palácio do Planalto precisa reconstruir apoios, negociar recursos e acomodar interesses muitas vezes contraditórios.
Não se trata de uma característica exclusiva do atual governo. Qualquer presidente eleito em 2026 enfrentará o mesmo desafio.
O problema tem raízes mais profundas.
Atualmente, o Brasil possui quase trinta partidos políticos registrados na Justiça Eleitoral. Mesmo após as cláusulas de desempenho e as federações partidárias, o sistema continua altamente fragmentado. O eleitor escolhe diretamente o presidente da República, mas frequentemente dedica pouca atenção à escolha dos deputados federais e senadores que irão definir a governabilidade do país nos quatro anos seguintes.
Essa desconexão produz situações curiosas e frequentes. Um eleitor pode votar em um candidato presidencial comprometido com determinada agenda econômica ou social e, simultaneamente, eleger parlamentares que trabalharão para bloquear exatamente essa agenda. O resultado é um sistema permanentemente tensionado entre a vontade expressa na eleição presidencial e a composição efetiva do Congresso Nacional.
Esse fenômeno revela um problema ainda mais sério: o baixo letramento político da sociedade brasileira.
Grande parte dos eleitores acompanha intensamente a disputa pelo Executivo, mas conhece pouco sobre as atribuições do Legislativo. Muitos sabem o nome do presidente em quem votaram, mas não conseguem identificar os deputados que ajudaram a eleger. A política acaba sendo personalizada em lideranças nacionais, enquanto o Parlamento, responsável por aprovar leis, fiscalizar governos e definir o orçamento, permanece distante da atenção cotidiana da população.
As redes sociais ampliaram esse processo.
Em vez de fortalecer o debate público, muitas plataformas passaram a incentivar a lógica da polarização permanente. Parlamentares são recompensados por falar para sua base mais fiel, produzir conteúdos virais e alimentar conflitos que geram engajamento. O incentivo eleitoral deixou de ser a construção de consensos e passou a ser a manutenção de uma audiência mobilizada.
O debate político transformou-se, em muitos casos, em uma disputa entre torcidas organizadas.
Os dados mais recentes da pesquisa nacional da Indexa Pesquisas ajudam a ilustrar esse cenário. Em diferentes cenários testados para a eleição presidencial de 2026, observa-se um país profundamente dividido entre campos políticos consolidados, com elevados índices de rejeição mútua. O potencial eleitoral de lideranças ligadas ao presidente Lula e à família Bolsonaro continua fortemente condicionado pela identidade ideológica dos eleitores, demonstrando que a polarização segue estruturando o comportamento político brasileiro.
Nesse contexto, chama atenção o fato de que nomes associados à família Bolsonaro continuam apresentando forte capacidade de mobilização eleitoral mesmo após anos de controvérsias, investigações e desgaste público envolvendo diferentes integrantes do grupo político. Ao mesmo tempo, o presidente Lula mantém um núcleo de apoio robusto, mas enfrenta elevados índices de rejeição fora de sua base tradicional. O resultado é um sistema político cada vez mais dividido e menos propenso à construção de consensos duradouros.
O grande risco para a democracia brasileira não é apenas a polarização. É a combinação entre polarização, fragmentação partidária e enfraquecimento da capacidade de coordenação do Executivo.
Quando nenhum presidente consegue formar maiorias estáveis, quando os partidos perdem coerência programática e quando parlamentares respondem prioritariamente aos incentivos das redes sociais, a governabilidade torna-se mais difícil, mais cara e mais instável.
O Brasil precisa discutir reformas institucionais capazes de reduzir a fragmentação partidária, fortalecer os mecanismos de representação e ampliar a educação política da população. Sem isso, continuaremos presos a um ciclo no qual presidentes são eleitos com grandes expectativas, mas encontram enormes obstáculos para transformar promessas em políticas públicas.
A crise atual não é apenas de um governo ou de uma liderança política específica. É uma crise do próprio modelo de funcionamento do sistema político brasileiro.
E quanto mais demorarmos para reconhecer esse problema, maior será a distância entre a vontade expressa nas urnas e a capacidade real do Estado de governar.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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