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Economia verde
10/6/2026 9:00
O Brasil ocupa uma posição paradoxal no debate climático global. Tem matriz energética predominantemente renovável, a maior biodiversidade do planeta, protagonismo crescente nas negociações internacionais e um ecossistema com milhares de organizações dedicadas à inovação climática. Ao mesmo tempo, sua curva de emissões segue fortemente associada ao uso da terra — especialmente desmatamento, degradação florestal e emissões associadas a determinadas práticas agropecuárias. Apesar disso, as florestas, no entanto, recebem apenas 2% do financiamento climático internacional que chega ao país, segundo a Climate Policy Initiative (CPI).
O financiamento climático no Brasil até vem aumentando, mas ainda não encontrou seu alvo perfeito. Esse descompasso não se explica somente por falta de capital ou de soluções. O bloqueio é de outra natureza: governo, mercado e financiadores operam com diagnósticos diferentes, prioridades desconectadas e sem critérios comuns para decidir onde o investimento produz mais resultado. Financiadores recebem projetos relevantes que não "falam a língua" do investimento. Empreendedores com execução consistente operam longe de onde há capital.
O resultado é um sistema com alto custo de decisão e baixa eficiência na alocação. Não por incompetência dos atores, mas por falta de uma camada especializada em estruturação para o mercado. É preciso mapear soluções, traduzir riscos para investidores, padronizar métricas, aproximar empreendedores, aceleradoras, compradores e financiadores de pipelines qualificados e alinhar instrumentos públicos, privados e filantrópicos em torno de prioridades comuns.
É isso o que chamamos de orquestração: fazer diagnósticos, atores e instrumentos convergirem para que projetos deixem de ser casos isolados e passem a formar mercado. Orquestrar não é substituir governos, fundos, empresas, aceleradoras ou organizações territoriais. É reduzir custos de transação, criar linguagem comum, construir confiança e transformar soluções dispersas em oportunidades financiáveis.
Na bioeconomia, o custo da desconexão é evidente. Produtos da biodiversidade amazônica recebem apenas 9% do financiamento destinado ao setor no Brasil, segundo a CPI. Existem empreendedores, conhecimento, produtos de qualidade e demanda crescente. Mas o potencial econômico da floresta ainda depende de ligações mais consistentes entre produção, mercado e capital. A Climate Ventures desenhou o Amazônia em Casa, Floresta em Pé a partir dessa constatação: quando negócios da floresta são conectados a canais de venda, aceleradoras e parceiros capazes de qualificar sua chegada ao mercado, o potencial deixa de ser apenas ambiental e torna-se econômico.
Na agricultura, a pressão regulatória internacional já reorganiza mercados, preços e exigências de rastreabilidade. O Regulamento de Desmatamento da União Europeia pode afetar exportações brasileiras estimadas em US$ 17,5 bilhões, incluindo soja, café, madeira, cacau, borracha, óleo de palma e gado, e exige comprovação de origem livre de desmatamento, o que boa parte das cadeias ainda não oferece de forma consistente. Sem integração entre política agrícola, crédito rural e instrumentos de financiamento climático privado, o Brasil mantém capacidade produtiva, mas perde velocidade para capturar valor nas novas cadeias globais de baixo carbono.
A pressão não vem apenas da regulação. Eventos extremos, risco hídrico, degradação produtiva e vulnerabilidade de infraestrutura já deslocam a adaptação para o centro das decisões de crédito, seguro e investimento. A transição climática deixou de ser uma agenda reputacional. Tornou-se uma questão de competitividade, resiliência e acesso a mercados.
Na Europa, a Climate-KIC mostra o que essa arquitetura produz quando funciona. A iniciativa apoiou mais de 2.300 startups climáticas em pouco mais de uma década, conectando empreendedores, universidades, governos, aceleradoras e capital privado em torno de desafios específicos. Três dessas startups tornaram-se unicórnios avaliados acima de US$ 1 bilhão. O dado relevante não é apenas a contagem, mas o método: aceleração contínua, acesso a redes, mentoria, qualificação de modelos de negócio, conexão com demanda e aproximação com capital.
No Brasil, o Nature Investment Lab - secretariado pela Climate Ventures - opera com lógica semelhante. Cinco empresas de soluções baseadas na natureza estão em processo de captação de US$ 73 milhões. O caso sugere que, muitas vezes, o que falta não é a solução em si, mas a arquitetura que a torna legível, financiável e replicável. O protagonismo brasileiro nas negociações climáticas criou uma abertura real. Converter visibilidade política em fluxo de capital e execução coordenada é o que ainda precisa ser feito. Isso exige que municípios, estados, governo federal e financiadores internacionais operem a partir de critérios comuns, com instrumentos adequados a cada fase e disposição para coordenar o que hoje cada um faz sozinho.
Enquanto essa arquitetura não existir, o Brasil seguirá como um país que tem iniciativas de qualidade com alcance restrito.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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