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Política

Marcha para Jesus ou marcha para as urnas?

Em ano eleitoral, lideranças da direita transformam símbolos religiosos em instrumentos de pertencimento, visibilidade e engajamento político.

Vanessa Marques

Vanessa Marques

15/6/2026 15:41

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Em ano eleitoral, a presença de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas na Marcha para Jesus revela como o evento pode ser usado como palco político, ao favorecer a produção de imagens, vídeos e discursos voltados à ampliação da visibilidade eleitoral. O ato também permite aos candidatos reforçar laços com o eleitorado evangélico e conservador em um momento de intensa disputa política.

A Marcha oferece uma cena carregada de símbolos religiosos, sentimento de pertencimento e identificação coletiva. A direita entendeu há muito tempo que valores conservadores funcionam como pontos de aproximação entre pessoas que compartilham referências morais, religiosas e familiares. Esses valores produzem pertencimento, segurança e reconhecimento, aspectos que costumam ter forte repercussão nas plataformas digitais.

Essa conexão se intensifica quando um político sobe em um trio elétrico, fala em "guerra espiritual" e se apresenta ao lado de milhares de fiéis. Ele ativa uma memória afetiva e religiosa. Também comunica ao eleitorado evangélico e conservador que compartilha suas referências, suas preocupações e sua visão de mundo.

Essa linguagem produz um dos elementos mais fortes da mobilização política, a construção de um inimigo comum. A política deixa de ser apresentada como disputa entre projetos e passa a ser narrada como confronto moral. De um lado, os que seriam defensores da fé, da família e da ordem. Do outro, aqueles tratados como ameaça a esses valores.

Na lógica das plataformas, essa cena não termina na Marcha. Ela vira vídeo, corte, foto, legenda, postagem e compartilhamento. A multidão presente importa, mas a audiência que receberá essas imagens nas redes importa tanto quanto. A Marcha para Jesus, nesse sentido, deixa de ser apenas um evento religioso e passa a funcionar como grande palanque eleitoral.

Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e Ricardo Nunes na Marcha para Jesus.

Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e Ricardo Nunes na Marcha para Jesus.Eduardo Knapp/Folhapress

Essa não é uma estratégia nova. Jair Bolsonaro já havia compreendido que disputar eleições pela chave dos valores conservadores era uma forma eficiente de transformar religião, família, segurança e costumes em linguagem de mobilização política. Na pesquisa que desenvolvi sobre Trump, Bolsonaro e Milei, esse repertório apareceu como um dos traços recorrentes da nova direita, especialmente no Brasil. A política é apresentada menos como debate programático e mais como defesa de um modo de vida supostamente ameaçado.

O efeito disso é tensionar o debate público, estimular a polarização e reduzir a disputa eleitoral a um confronto moral entre defensores da fé e supostos inimigos dos valores cristãos. Assim, o eleitor não é convocado apenas a escolher um candidato ou um projeto de país. É chamado a defender uma identidade e apoiar aquilo que lhe oferece pertencimento e segurança.

Por isso, a ida de Flávio e Tarcísio à Marcha precisa ser lida para além da dimensão religiosa do evento. Trata-se de uma estratégia de ativação simbólica. Os valores conservadores aparecem como linguagem de mobilização, ajudando a organizar vínculos coletivos e transformar religião, família e moralidade em marcas de identificação política.

Hoje, a disputa eleitoral ocorre também no terreno dos símbolos e dos afetos. Mais do que falar sobre Deus, esses atores políticos disputam pertencimento, autoridade e poder.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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