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Indústria

Acordo Mercosul-UE pode eliminar milhões de empregos na indústria brasileira se nada for feito

Mercosul e União Europeia ampliam mercados, mas a indústria brasileira corre risco de perder competitividade diante da concorrência europeia.

Antônio Augusto de Queiroz

Antônio Augusto de Queiroz

Vagner Roberto Bortoleto

Vagner Roberto Bortoleto

22/6/2026 13:00

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A entrada em vigor do acordo de parceria entre a União Europeia e o Mercosul, em maio de 2026, representa um marco histórico nas relações comerciais entre os dois blocos. Após mais de duas décadas de negociações, o tratado finalmente saiu do papel prometendo eliminar ou reduzir gradualmente as tarifas de importação para cerca de 90% a 95% dos produtos industriais e agrícolas negociados entre as duas regiões. Em tese, trata-se de um movimento virtuoso de integração econômica, que amplia mercados, estimula investimentos e aproxima cadeias produtivas.

O Brasil, sem dúvida, colherá vantagens em diversos setores, especialmente no agroindustrial, onde a competitividade já é reconhecida globalmente. No entanto, um estudo aprofundado da Bortoleto Consulting acende um sinal de alerta vermelho para os segmentos industrial, automotivo, metalúrgico e químico. O diagnóstico é preciso e preocupante: se nada for feito para tornar a indústria nacional competitiva, o acordo significará a eliminação de empresas e a destruição de empregos em grande escala, diante da assimetria competitiva brutal entre a indústria brasileira e a europeia.

Para compreender a gravidade do quadro, é necessário antes entender o que o acordo prevê para o setor industrial. As regras gerais estabelecem que 95% dos produtos do Mercosul terão tarifa zero na União Europeia, enquanto 91% dos produtos europeus terão tarifa zero no Mercosul. O prazo médio de desgravação é de 10 anos para a UE e de 15 anos para o Brasil, com exceções importantes, como veículos e tecnologias sensíveis, que podem levar até 30 anos para zerar suas alíquotas.

Máquinas e equipamentos industriais, que hoje pagam entre 10% e 14% de imposto de importação, terão tarifa zero em até 12 anos. Autopeças, atualmente tributadas entre 14% e 18%, também chegarão à alíquota zero em até 15 anos. Produtos químicos, metalúrgicos, siderúrgicos, plásticos e borrachas industriais seguem o mesmo destino. Em tese, há um cronograma de transição que poderia ser visto como razoável. Mas a pesquisa da Bortoleto Consulting revela que, na prática, a indústria brasileira não tem condições mínimas de concorrer em pé de igualdade com a europeia, mesmo com esse prazo.

O estudo é direto ao ponto ao perguntar: somos competitivos para concorrer em base de custo Ex-Works atualmente no Brasil contra o mercado europeu? A resposta é não. E as razões são estruturais, conhecidas e, o que é mais grave, persistentemente ignoradas. O primeiro fator é a carga tributária elevada, que onera toda a cadeia produtiva e torna qualquer produto nacional mais caro antes mesmo de sair da fábrica. O segundo é o custo elevado de matérias-primas, agravado por um protecionismo que precisa ser revisto. O terceiro fator é a ineficiência produtiva. O quarto ponto é a obsolescência tecnológica de máquinas e equipamentos, que reduz a qualidade e aumenta o custo dos produtos nacionais. Por fim, o chamado Custo Brasil, que inclui gargalos logísticos e de infraestrutura, completa o cenário de desvantagem competitiva.

A pergunta que fica, portanto, é: o que irá ocorrer se nada for feito para melhorar essas condições? A resposta da Bortoleto Consulting é alarmante e baseada em dados concretos. De acordo com levantamento do IBGE e da CNI de 2024, o Brasil contava com cerca de 11,9 milhões de empregos industriais. Desse total, as pequenas empresas respondem por 23,7% da força de trabalho, o que equivale a aproximadamente 2,82 milhões de empregos. As médias empresas, por sua vez, representam outros 23,5%, ou cerca de 2,79 milhões de postos. Somando-se os dois segmentos, as pequenas e médias empresas, as PMEs, empregam nada menos que 47,2% da mão de obra industrial do país, totalizando 5,61 milhões de trabalhadores.

O estudo projeta que, nos setores automotivo, químico e metalúrgico, há um enorme potencial de desaparecimento de milhões desses empregos caso a abertura comercial ocorra sem que o Brasil promova uma agenda robusta de aumento de produtividade e redução do custo estrutural da produção. Vale destacar que, nesses segmentos, a distribuição da força de trabalho também revela alto peso das PMEs: no setor automotivo, cerca de 35% dos empregos estão em médias e pequenas empresas; no químico, cerca de 45%; no metalúrgico, aproximadamente 60%. Isso significa que o impacto não se restringirá às grandes montadoras e multinacionais, mas atingirá em cheio a cadeia de fornecedores, as oficinas especializadas, as indústrias de componentes e toda a malha de serviços de suporte que depende direta ou indiretamente desses setores.

Estudo aponta que setores como automotivo, químico e metalúrgico podem enfrentar forte perda de mercado sem redução do Custo Brasil.

Estudo aponta que setores como automotivo, químico e metalúrgico podem enfrentar forte perda de mercado sem redução do Custo Brasil.Magnific

Não será diferente com nossos 'hermanos argentinos. Eles também enfrentarão esse mesmo problema e, provavelmente, de forma ainda mais grave, já que é sabido o quão defasados estão os equipamentos das empresas metalúrgicas no país. Há quem se refira ao parque industrial argentino como 'sucateado.

Não se trata de um catastrofismo gratuito. O próprio cronograma de desgravação do acordo já revela que os negociadores estavam cientes dessas dificuldades. Os prazos mais longos para veículos e autopeças — até 30 anos em alguns casos — foram uma concessão para dar fôlego à indústria brasileira. Há ainda mecanismos de salvaguarda que permitem a reintrodução temporária de tarifas caso haja prejuízo comprovado a setores locais. No entanto, esses dispositivos são paliativos. Eles não resolvem a equação estrutural.

O que o estudo da Bortoleto Consulting aponta é que, sem uma mudança radical de rumo, os prazos alongados servirão apenas para adiar um colapso que se tornará inevitável. A experiência internacional mostra que acordos comerciais com assimetrias competitivas tão profundas tendem a beneficiar o parceiro mais produtivo e eficiente, concentrando ganhos em poucos setores e gerando desindustrialização no parceiro mais frágil. O Brasil já viveu episódios semelhantes em outros momentos de abertura comercial, e os custos sociais foram altos.

Há ainda um fator adicional que agrava o cenário: a transição tecnológica global em direção à eletrificação da frota automotiva. A União Europeia já anunciou que não permitirá mais a venda de veículos novos com motor de combustão a partir de 2035. Nesse ambiente, a indústria europeia está na vanguarda do desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos, enquanto o Brasil ainda engatinha nessa área.

As regras de segurança veicular da UE também são mais exigentes, o que pode dificultar a exportação brasileira de veículos completos e até mesmo de componentes. Com a redução tarifária, os veículos europeus, já superiores em tecnologia e eficiência, chegarão ao mercado brasileiro com preços mais competitivos, pressionando ainda mais a indústria local. A consequência previsível é a perda de mercado interno, o fechamento de fábricas e a migração de investimentos para outras regiões.

Não se trata, portanto, de ser contra o acordo. O Brasil tem tudo a ganhar com a abertura de mercados, com a atração de investimentos produtivos e com a integração a cadeias globais de valor. Mas esses benefícios não virão automaticamente. Eles exigem preparação. E a preparação, neste caso, passa por uma agenda nacional que inclui reforma tributária que desonere a produção, políticas industriais que incentivem a inovação e a modernização tecnológica do parque fabril, investimentos em infraestrutura logística para reduzir o custo de transporte e armazenagem, e uma revisão do protecionismo que onera insumos básicos como o aço em benefício de poucos em detrimento de milhões. Também é fundamental atualizar a legislação de segurança veicular e buscar harmonização regulatória com padrões internacionais, para que os produtos brasileiros possam competir não apenas em preço, mas em qualidade e conformidade técnica.

O prazo de transição de até 15 anos, ou mesmo de 30 anos no caso de veículos, pode parecer longo, mas a história mostra que reformas estruturais no Brasil levam décadas para serem implementadas, quando são implementadas. O tempo passa rápido e a janela de oportunidade pode se fechar antes que percebamos. O estudo da Bortoleto Consulting não é um libelo contra o acordo, mas um diagnóstico preciso de uma doença que precisa ser tratada com urgência.

A mensagem que deixamos aqui, como um chamado à razão e à ação, é clara: o Brasil colherá frutos do acordo com a União Europeia, mas não nos setores industrial, automotivo, metalúrgico e químico, a menos que uma mudança radical de rumo seja implementada. Se nada for feito, o risco de uma desindustrialização em larga escala e a perda de milhões de empregos se tornarão uma dolorosa realidade. O futuro da nossa indústria depende das decisões que tomarmos hoje. E o tempo para agir é agora.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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