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Energia

A corrida verde e o velho mapa da desigualdade

Corrida pelos minerais críticos pode repetir velhas desigualdades se países periféricos continuarem exportando recursos e importando tecnologia.

Reinaldo Dias

Reinaldo Dias

23/6/2026 16:00

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A corrida pelas terras raras e por outros minerais considerados críticos para a transição energética já reorganiza alianças internacionais, mobiliza grandes investimentos e transforma países como o Brasil em territórios estratégicos para as novas cadeias industriais. Grandes potências e conglomerados empresariais procuram assegurar o controle das reservas, das tecnologias de processamento e das etapas mais lucrativas da produção, ampliando a pressão sobre os países e territórios onde esses recursos estão localizados. Apresentada como parte indispensável do enfrentamento da crise climática, essa movimentação recupera uma questão conhecida pelos países do Sul Global: quem controlará as riquezas extraídas de seus territórios, quem ficará com os maiores benefícios econômicos e sobre quais populações recairão os custos sociais e ambientais dessa nova economia.

A substituição progressiva do petróleo, do carvão e do gás por fontes renováveis tornou-se uma exigência diante do agravamento da crise climática, mas a mudança da matriz energética envolve muito mais do que a adoção de novas tecnologias. Turbinas eólicas, painéis solares, baterias, redes elétricas e veículos elétricos dependem de grandes volumes de minerais, infraestrutura, terra, água e capacidade industrial. Embora sejam indispensáveis à descarbonização, esses recursos podem alimentar uma nova etapa de concentração econômica caso sejam apropriados segundo a mesma lógica que organizou os ciclos anteriores de exploração.

A história do desenvolvimento moderno mostra que os benefícios da energia e seus danos nunca foram distribuídos de maneira equilibrada. Os combustíveis fósseis sustentaram a industrialização, a expansão das cidades, o transporte de mercadorias e a formação do poder econômico das grandes potências, enquanto a poluição, as doenças, a degradação ambiental e os conflitos territoriais recaíram com maior intensidade sobre trabalhadores, comunidades empobrecidas e países historicamente explorados. As populações que menos contribuíram para o aquecimento global continuam sendo, em geral, aquelas que dispõem de menos recursos para enfrentar ondas de calor, enchentes, secas, insegurança alimentar e perda de territórios.

A substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis não modifica por si só as estruturas econômicas e sociais responsáveis pela concentração de riqueza e pela distribuição desigual dos danos ambientais. Quando conduzida segundo as mesmas relações de poder que marcaram os ciclos anteriores de desenvolvimento, a transição pode ampliar a concentração de renda, precarizar o trabalho, expulsar comunidades de seus territórios, estimular formas predatórias de mineração e manter tarifas incompatíveis com a renda de grande parte da população. Painéis solares, turbinas eólicas e baterias representam avanços importantes, mas não corrigem automaticamente desigualdades históricas, sobretudo quando sua expansão obedece exclusivamente às prioridades das empresas e dos investidores.

O risco de reprodução do antigo padrão extrativista aparece com clareza na atual corrida mineral. Países que durante séculos forneceram matérias-primas baratas para a industrialização de outras regiões podem voltar a ocupar o mesmo lugar nas cadeias produtivas, agora como exportadores de lítio, cobre, níquel, cobalto, grafita e terras raras. A linguagem da economia verde não modifica essa relação quando a extração permanece nos países periféricos, enquanto o refino, o domínio tecnológico, a fabricação dos equipamentos e a maior parcela dos lucros ficam concentrados nas economias e empresas que controlam as etapas mais valorizadas da produção.

No caso brasileiro, a existência de reservas minerais estratégicas pode representar uma oportunidade econômica, mas também pode reforçar uma especialização produtiva fundada na exploração intensiva dos recursos naturais. A atração de investimentos somente produzirá desenvolvimento duradouro se estiver vinculada à pesquisa, ao processamento interno, à formação tecnológica e à construção de cadeias industriais nacionais. Sem essas condições, o país poderá ampliar a mineração e assumir seus impactos ambientais enquanto exporta recursos pouco processados e importa, por preços elevados, os equipamentos fabricados com as mesmas matérias-primas.

A expansão das fontes renováveis também exige atenção aos conflitos que surgem nos territórios. Grandes parques eólicos e solares são necessários à redução das emissões, mas sua implantação não pode ocorrer sem consulta efetiva às comunidades atingidas, respeito aos modos de vida locais e distribuição adequada dos benefícios. Quando as decisões são tomadas de cima para baixo, a sustentabilidade passa a servir como justificativa para projetos que ocupam terras, alteram atividades econômicas e transformam paisagens sem reconhecer os direitos daqueles que vivem nesses espaços.

Sem industrialização, participação social e proteção dos territórios, a transição energética pode concentrar benefícios e ampliar desigualdades.

Sem industrialização, participação social e proteção dos territórios, a transição energética pode concentrar benefícios e ampliar desigualdades.Magnific

As decisões sobre quais fontes de energia serão utilizadas, onde os investimentos serão realizados, quem controlará a infraestrutura e como serão definidas tarifas e subsídios produzem efeitos diretos sobre a distribuição da renda e sobre a vida das populações. Essas escolhas influenciam a localização das atividades econômicas, o custo da eletricidade, o acesso aos serviços públicos, a organização das cidades e as condições de moradia e trabalho. Quando a transição é orientada apenas como oportunidade de negócios, seus benefícios tendem a se concentrar nos grupos que já controlam capital, tecnologia e influência política. Quando integra uma política de justiça socioambiental, pode ampliar direitos, fortalecer economias locais e reduzir desigualdades.

Entre essas desigualdades encontra-se a pobreza energética, que não se limita à ausência de eletricidade. Ela também se manifesta quando a conta de luz compromete uma parcela elevada da renda familiar, quando moradias precárias se tornam insuportáveis durante ondas de calor, quando escolas e unidades de saúde não possuem infraestrutura adequada ou quando comunidades isoladas dependem de sistemas caros e instáveis. Uma transição orientada pelo interesse público precisa priorizar essas situações, evitando que a energia limpa se converta em privilégio de quem pode instalar painéis solares, comprar veículos elétricos ou adaptar sua residência às novas condições climáticas.

As transformações no sistema energético também afetarão trabalhadores e regiões dependentes de atividades intensivas em carbono. Quando esses impactos sociais não são considerados, ganha força a ideia de que a proteção do emprego e a defesa ambiental constituem objetivos incompatíveis. A redução gradual dessas atividades precisa ser acompanhada por políticas de requalificação profissional, proteção social, negociação coletiva e diversificação econômica regional, pois não haverá justiça quando trabalhadores forem abandonados em nome da descarbonização ou quando os novos empregos verdes reproduzirem baixos salários, insegurança e precarização.

A articulação dessas medidas depende de uma presença ativa do Estado, já que os mecanismos de mercado não foram criados para corrigir desigualdades ou garantir direitos. Planejamento público, investimento, regulação e fiscalização precisam integrar políticas energéticas, industriais, sociais e ambientais, combinando inovação tecnológica com transporte público, habitação adequada, adaptação climática e acesso universal à energia. Sem essa coordenação, alguns segmentos econômicos poderão avançar rapidamente na adoção de novas tecnologias, enquanto grande parte da população permanecerá submetida às mesmas condições de vulnerabilidade.

No plano internacional, a transição também não pode impor responsabilidades idênticas a sociedades que tiveram participações profundamente diferentes na formação da crise climática. Os países historicamente responsáveis pela maior parcela das emissões acumularam riqueza e infraestrutura durante séculos de utilização intensiva dos combustíveis fósseis, enquanto muitos países do Sul Global ainda enfrentam carências básicas e dependência tecnológica. A descarbonização precisa avançar em todos os lugares, mas seu financiamento e seus custos devem considerar essas desigualdades, evitando que a política climática se converta em novo instrumento de subordinação econômica.

A transição energética poderá reduzir emissões, melhorar a qualidade do ar, ampliar o acesso à energia e criar novas atividades econômicas, mas esses resultados não decorrerão automaticamente da mudança tecnológica. A velocidade exigida pela crise climática não autoriza o atropelamento de direitos, assim como o caráter renovável de uma fonte não garante que sua implantação seja socialmente justa. O sentido dessa transformação dependerá das escolhas políticas que definirem o controle dos recursos, a distribuição dos benefícios e a proteção das populações atingidas.

A corrida pelos minerais críticos expõe, desde agora, as contradições desse processo. Caso as novas cadeias produtivas mantenham países periféricos como fornecedores de recursos, concentrem a tecnologia nos mesmos centros econômicos e transfiram os impactos para comunidades com menor poder político, a matriz energética poderá mudar sem alterar o mapa histórico da desigualdade. Uma transição efetivamente justa precisará transformar não apenas as fontes que movimentam a economia, mas também as relações sociais e internacionais que determinam quem se beneficia delas.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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Sul Global transição energética desenvolvimento sustentável

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