Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Tecnologia
25/6/2026 10:00
A delegação de decisões do Estado para algoritmos privados converte o cidadão brasileiro em um mero número processável. O vácuo jurídico sobre o tema valida injustiças automatizadas e fragiliza a guarda de informações críticas. A aprovação imediata de um Marco Nacional da Inteligência Artificial blinda a população contra abusos invisíveis. A análise deste cenário expõe como o predomínio do código computacional sobre a legislação destrói a dignidade humana.
O poder público incorpora o aprendizado de máquina para dar agilidade à rotina administrativa. Prefeituras e governos estaduais adotam cálculos preditivos ao alocar vagas escolares e gerenciar o tráfego urbano. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) colhem ganhos operacionais notáveis com os projetos Victor e Sócrates. A automação elimina triagens burocráticas pesadas, mas essa rapidez cobra um preço altíssimo quando ocorre sem auditoria pública.
A modernização avança velozmente sobre um terreno sem regulamentação federal. O projeto de lei nº 2.338/2023 segue em debate no Congresso Nacional. Esse atraso joga a responsabilidade técnica para as gestões locais. O estado de Goiás, por exemplo, sancionou uma legislação própria focada na atração de centros de processamento de dados e corporações globais. Essa fragmentação regulatória corrói a segurança jurídica e afasta investidores responsáveis.
A percepção popular reflete uma tensão evidente nas plataformas digitais. Fóruns no Reddit e vídeos no YouTube denunciam o temor cotidiano de prisões baseadas em falsos positivos. Episódios recentes em São Paulo e Aracaju escancaram o racismo codificado em programas de biometria facial, cuja taxa de erro na identificação de pessoas negras atinge até 81%. A população negra vira o alvo prioritário dessa falha técnica brutal, fazendo com que a tecnologia replique a exclusão histórica de modo implacável.
O controle sobre as bases populacionais define a riqueza e o poder das nações neste século. Empresas emergentes brasileiras criam soluções brilhantes para a saúde e a mobilidade, mas muitas entregam os registros médicos e fiscais da população a provedores estrangeiros em nuvem. O mercado internacional avança de forma agressiva sobre a nossa privacidade. Com isso, o Brasil cede sua inteligência demográfica sem assegurar o mínimo de independência tecnológica.
A inteligência artificial aplicada ao serviço público só alcança legitimidade quando o Estado garante a soberania dos dados. É imperativo impedir que o histórico do cidadão vire matéria-prima destinada a plataformas estrangeiras não auditadas.
O Poder Executivo acelera as análises de risco sem permitir uma verificação transparente. O bloqueio de aposentadorias por sistemas estatísticos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) empurra os cidadãos mais vulneráveis para a margem da sociedade. Um código secreto que corta benefícios sociais contraria o texto constitucional. O contribuintereivindica justificativas compreensíveis para contestar as decisões geradas por processadores.
A omissão legislativa sobre a responsabilidade civil diante de erros algorítmicos beira o absurdo institucional. Quem indeniza a família quando o programa direciona a polícia para a residência errada? A jurisprudência ainda busca respostas definitivas. A inteligência computacional deve operar como uma ferramenta orientada pelo servidor público, uma vez que a substituição integral da mente humana na linha de frente do Estado dissolve o pacto democrático.
O Poder Judiciário percebeu a gravidade do cenário e impôs restrições aos seus próprios processos. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou resoluções sobre a matéria para banir sentenças geradas de forma puramente automatizada. Essa prudência resguarda o direito fundamental à ampla defesa. Paralelamente, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) precisa liderar a orientação dos municípios, pois a agência concentra a capacidadetécnica para impor a justiça algorítmica.
A paralisia do Congresso Nacional condena o país à vulnerabilidade geopolítica e ao colonialismo digital. O salto tecnológico brasileiro exige regras firmes e proporcionais. Uma regulação madura separa a verdadeira inovação da extração predatória de dados. O processamento de informações melhora a prestação de serviços quando atende ao interesse nacional. A tecnologia só atinge seu estágio mais elevado de avanço social quando protege as pessoas reais.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas