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Memória

O legado de Marcolino: da escravidão ao Comando Militar e da Guarda Municipal até a luta antiescravista

Ex-escravizado, combatente dos Zuavos Baianos e líder abolicionista, Marcolino marcou a história do Brasil no campo de batalha e na luta pela liberdade.

Carlos Sacramento

Carlos Sacramento

24/6/2026 16:00

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Nascido no Estado da Bahia na cidade de Salvador em 21 de abril de 1830, foi escravizado pelo casal Manoel José Dias e Maria Angélica Dias e como escravizado, Marcolino José Dias enfrentou diversas privações e violências, assim como os demais membros da população negra do Brasil na época. Ele só obteve sua liberdade em 1838, condicionada à morte de seus senhores. Após o falecimento de Manoel Dias, a viúva abriu mão da liberdade condicionada de seus escravos, tornando Marcolino efetivamente livre em 1845, período que já era um ativo abolicionista brasileiro.

Em meados de 1860, já integrado ao Exército Brasileiro, Marcolino José Dias recebeu uma nomeação importante do presidente da Província da Bahia, sendo escolhido para comandar a 2ª Companhia dos Zuavos Baianos e assistiu à rendição dos Paraguaios em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, onde obteve destaque na tomada do Forte Curuzú, situado na margem esquerda (leste) do Rio Paraguai, durante a Guerra do Paraguai.

Os Zuavos Baianos eram regimentos do Exército Brasileiro, integrado apenas por negros da Bahia que lutaram na Guerra do Paraguai, sendo esses moldados a partir dos Zuavos da França e das Tropas de elite da Argélia.

Os Zuavos da Bahia comandados por Marcolino participaram das Batalhas de Uruguaiana, Batalha do Avaí, a tomada do Forte de Itapiru, na Batalha de Tuiuti e na Batalha de Curupaity e nesta batalha, em 1866, a companhia foi praticamente destruída.

Em 1867, o comandante Marcolino José Dias foi servir no 8º Batalhão de Voluntários da Pátria, sendo o primeiro soldado brasileiro a levantar o Pavilhão Nacional do Império no Forte de Curuzu, enfrentando sozinho dezenas de soldados paraguaios, sendo ferido no braço. Marcolino foi citado pelos comandantes aliados por sua extenuante atuação em batalha e por sua destacada liderança, grande coragem e persistência. Foi também aludido nos registros históricos como herói de guerra e no final da árdua batalha teria declarado a todos os presentes: "está aqui o negro Zuavo Baiano!".

Foi honrosamente mencionado pelo Comandante Geral das Forças Brasileiras General Manuel Luis Osório como o "Herói Negro."

O Decreto Imperial de 15 de junho de 1867 outorgou honras para o posto de Capitão do Exército e Alferes da Guarda Nacional ao heroico Zuavo Baiano, Marcolino José Dias.

Sobrevivendo a Guerra do Paraguai sem grandes ferimentos, Marcolino José Dias foi recebido como Herói na Bahia em 1868 e sua volta foi celebrada bem como registrada no jornal O Alheiro. Na Bahia, passou a exercer a Função de Comandante da Guarda Municipal da Cidade de Salvador.

O Governo Imperial, em 1869, condecorou Marcolino José Dias com a Medalha Imperial Ordem do Cruzeiro, a mais alta honraria concedida a um dos Zuavos Baianos.

Anos mais tarde, já atuando fora das fileiras do Exército Brasileiro e da Guarda Municipal da Cidade de Salvador, Marcolino José Dias, junto de seus companheiros de Guerra, Pamphilo da Santa Cruz, Sérgio Cardoso e Manuel Júlio dos Santos, impediram o envio de escravizados que estavam sendo embarcados para Canavieiras. Neste diapasão e aos gritos de "morte aos escravocratas" e "viva a liberdade", impediram também o envio de escravizados do Barão de Guaíba para sua fazenda em Belmonte e deste momento em diante, Marcolino tornou-se uma figura proeminente na luta pela libertação dos escravos na Bahia, liderando diversas ações de resistência e se tornando um dos principais articuladores do movimento abolicionista no estado e mesmo sendo preso por diversas vezes, nunca deixou de defender essa causa.

Vale ressaltar que tais atividades ocorreram em um contexto de crescimento do sentimento abolicionista na Bahia desde a década anterior, em que a oposição à escravização saiu do campo da contestação judicial para a ação radical nas ruas, especialmente no porto.

Ex-escravizado, combatente dos Zuavos Baianos e líder abolicionista, Marcolino marcou a história do Brasil no campo de batalha e na luta pela liberdade.

Ex-escravizado, combatente dos Zuavos Baianos e líder abolicionista, Marcolino marcou a história do Brasil no campo de batalha e na luta pela liberdade.Magnific

Marcolino José Dias, atuou na Fundação da Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), organização que tinha como objetivo fornecer assistência plena e proteção aos negros pobres e marginalizados da sociedade baiana. Marcolino foi um dos membros fundadores e participou ativamente das atividades da SPD, inclusive sendo responsável por colocar a efígie do Marechal Henrique Dias, um antigo combatente negro dos tempos coloniais, na sala das sessões da desta organização em 1882.

O famoso Zuavo Baiano participou com intensidade plena da Campanha Abolicionista comprando a Alforria de escravizados, colaborando com a imprensa abolicionista da Bahia e sendo um militante contumaz pela liberdade religiosa de culto ao candomblé e igualdade de direitos humanos da população negra durante o período escravista no Brasil, levando sua atuação de combate para a luta da liberdade dos povos escravizados até sua morte.

Seu falecimento foi lamentado por diversos jornais do país, que destacaram sua trajetória marcante que representa a resistência dos trabalhadores negros ao regime escravagista e a luta pelo fim da escravização. Infelizmente o audaz e arrojado Zuavo Baiano e defensor ferrenho da Campanha Abolicionista não viveu o suficiente para ver a lei da abolição.

Nos anos finais do Império, o arrojado integrante do movimento abolicionista foi lembrado pelo poeta e orador abolicionista, Vicente de Souza, em um discurso público na presença do Barão de Cotegipe e da Princesa Isabel, dias antes da Assinatura da Lei Áurea, no seguinte verso: "Em Curuzu, foi um negro, o glorioso Marcolino José Dias, o primeiro a plantar entre os Canhões do Inimigo, a Nossa Gloriosa Bandeira!"

Marcolino José Dias, "Herói Negro", faleceu em 20 de fevereiro de 1888, aos 50 anos, meses antes da Abolição da Escravidão.

A Abolição da Escravidão ainda é vista por muitos como uma ação da elite branca, mas figuras emblemáticas como Marcolino e outros baluartes brasileiros negros foram de extrema importância na construção desta nação, da liberdade, sentimento de protagonismo, pertencimento e conscientização dos negros neste país continental que congrega 5.570 municípios dos quais 800 destes fazem fronteiras com outros países latino-americanos.


Referências

SILVA, Ricardo Tadeu Caires. A sociedade libertadora bahiana e a campanha abolicionista na Bahia (1883-1888). Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis - SC, 2015.

BARROSO, Gustavo. Segredos e revelações da história do Brasil. Revista O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 1948-1960, p.285.

KRAAY, Hendrik. Os companheiros de Dom Obá: Os Zuavos Baianos e outras Companhias Negras na Guerra do Paraguai. Revista Brasileira de História Militar, Ano XII - Nº 30, p. 102 - 132, Novembro 2021.

SANTOS, Carlos Henrique Sacramento dos. Guarda Municipal do Rio de Janeiro para o Brasil. Rio de Janeiro – RJ, p. 186, 2023.


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