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Eleições 2026

Religião importa, mas não explica tudo

A religião influencia o comportamento eleitoral, mas divide espaço com fatores como renda, região, escolaridade e avaliação do governo na definição do voto.

Arilton Freres

Arilton Freres

1/7/2026 12:00

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A cada nova pesquisa eleitoral, uma pergunta ressurge no debate público: afinal, como votam os evangélicos? A questão não é trivial. Segundo o último Censo Demográfico do IBGE, os evangélicos representam 26,9% da população brasileira (cerca de 47,4 milhões de pessoas) e seguem em crescimento. Os católicos, embora continuem sendo maioria, somam 56,7% da população, aproximadamente 100,2 milhões de brasileiros, o menor percentual já registrado na história do país.

Esses números costumam alimentar uma interpretação apressada: a de que existe um "voto evangélico" homogêneo e determinante das eleições. Mas a realidade é muito mais complexa.

A segunda rodada da pesquisa nacional da Indexa Pesquisas, divulgada no dia 23 de junho, ajuda a compreender esse cenário. Entre os evangélicos, Flávio Bolsonaro aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Lula registra 28%. Entre os católicos, a relação praticamente se inverte: Lula lidera com 44%, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Nos cenários de segundo turno, Lula amplia sua vantagem entre os católicos (50% a 37%), enquanto Flávio cresce entre os evangélicos (54% a 33%).

Os dados revelam diferenças importantes entre segmentos religiosos, mas não autorizam concluir que religião, sozinha, define o voto.

Essa é justamente uma das principais conclusões da cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Em seus estudos sobre comportamento eleitoral, ela argumenta que não existe um único "voto evangélico". Há, na verdade, um universo extremamente heterogêneo, formado por diferentes denominações, níveis de renda, escolaridade, regiões do país, práticas religiosas e orientações políticas. A religião é uma variável importante, mas está longe de ser a única.

Os próprios números do IBGE mostram que a geografia religiosa brasileira continua bastante diversa. O catolicismo permanece mais forte no Nordeste, onde representa 63,9% da população, e no Sul, com 62,4%. Já os evangélicos possuem maior presença proporcional nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde seu crescimento foi mais intenso nas últimas décadas.

Quando cruzamos esse mapa religioso com os resultados eleitorais da Indexa, surgem conexões interessantes. Lula obtém seu melhor desempenho justamente no Nordeste, alcançando 52% das intenções de voto no primeiro turno, além de liderar também no Norte, com 45%. Flávio Bolsonaro, por sua vez, encontra maior competitividade no Sul, onde registra 36%, praticamente empatado com Lula (37%), e apresenta seus melhores desempenhos no Centro-Oeste, região em que lidera os cenários de segundo turno.

Essas coincidências, porém, não significam que a religião explique, isoladamente, o comportamento político dessas regiões. O Nordeste continua sendo uma região majoritariamente católica, mas também é marcado por fatores históricos, econômicos e sociais que ajudam a explicar a força eleitoral de Lula. Da mesma forma, Norte e Centro-Oeste reúnem um eleitorado evangélico proporcionalmente maior, mas também possuem características econômicas, culturais e produtivas próprias, que dialogam com pautas defendidas pela direita.

As pesquisas mostram diferenças entre segmentos religiosos, mas revelam também que identidade, economia e contexto regional continuam decisivos nas eleições brasileiras.

As pesquisas mostram diferenças entre segmentos religiosos, mas revelam também que identidade, economia e contexto regional continuam decisivos nas eleições brasileiras.Magnific

A literatura sobre comportamento eleitoral mostra que o voto resulta da combinação de diferentes fatores. A identidade religiosa convive com renda, escolaridade, idade, gênero, local de residência, memória eleitoral e posicionamento ideológico. É justamente essa interação que torna o eleitor brasileiro muito mais complexo do que qualquer classificação simplificada.

Isso não significa minimizar a importância da religião na política. Ao contrário. Nas últimas três décadas, especialmente a partir dos anos 1990, diversas denominações evangélicas passaram a investir fortemente em organização institucional, comunicação e representação política. Consolidaram bancadas parlamentares, fortaleceram lideranças nacionais e ampliaram sua presença no debate público. Esse movimento contribuiu para aproximar parte significativa do eleitorado evangélico de pautas conservadoras relacionadas à família, costumes, liberdade religiosa e segurança pública.

Mas seria um erro concluir que essas pautas são suficientes para definir uma eleição presidencial.

A própria pesquisa Indexa mostra que Lula continua sendo apontado como o candidato mais preparado para administrar a economia, liderando esse indicador por 35% a 31% sobre Flávio Bolsonaro. Em segurança pública e combate à corrupção, o cenário é muito mais equilibrado, revelando que diferentes temas mobilizam diferentes segmentos do eleitorado.

Outro aspecto relevante é que o crescimento evangélico continua acontecendo, mas em ritmo menor. As projeções demográficas indicam uma desaceleração da transição religiosa. Mantida a tendência atual, uma eventual ultrapassagem dos evangélicos sobre os católicos ocorreria apenas por volta de 2049. Ou seja, o Brasil continuará sendo, por um longo período, um país de maioria católica, embora cada vez mais plural do ponto de vista religioso.

Essa pluralidade impõe um desafio crescente aos candidatos. Nenhum projeto eleitoral consistente poderá falar apenas para um segmento religioso. Será necessário dialogar com um país diverso, em que religião, economia, segurança, valores, identidade política e expectativas de futuro convivem e se influenciam mutuamente.

As pesquisas de opinião cumprem exatamente esse papel: ajudam a desmontar mitos e simplificações. Elas mostram tendências, identificam padrões e revelam mudanças sociais que muitas vezes passam despercebidas no debate político.

A religião continuará sendo uma variável relevante nas eleições brasileiras. Ignorá-la seria um erro analítico. Mas transformá-la na única explicação para o comportamento do eleitor seria um equívoco ainda maior.

O Brasil vota com sua fé, sem dúvida. Mas vota também com sua renda, sua experiência de vida, sua região, suas expectativas econômicas, sua visão sobre o Estado e sua leitura do momento político. É justamente essa combinação de fatores que continuará definindo os rumos das eleições de 2026.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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Comportamento eleitoral religião eleições 2026

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