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Economia

O Brasil dos meus 52 anos: uma biografia econômica em dez datas

Comparação entre diferentes momentos da economia brasileira revela conquistas como a estabilidade monetária e a democracia, mas também os obstáculos à produtividade e ao crescimento sustentado.

Rafael Favetti

Rafael Favetti

23/7/2026 | Atualizado às 11:19

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Neste 24 de julho eu completo 52 anos. Aniversários costumam provocar um balanço pessoal: o que mudou, o que permaneceu, o que foi conquistado e o que ainda está por fazer. Resolvi aplicar o mesmo exercício ao país em que nasci. Em vez de organizar esta retrospectiva apenas por governos ou décadas, escolhi datas que cruzam a história brasileira com a minha própria biografia.

O fio condutor é o Produto Interno Bruto. O PIB não mede felicidade, justiça social e nem distribuição de renda. O índice registra o fluxo de bens e serviços finais produzidos em determinado período. Ainda assim, continua sendo o indicador mais sintético do tamanho de uma economia e de sua capacidade de gerar renda, financiar políticas públicas e sustentar influência internacional.

Há uma cautela adicional. Comparações internacionais normalmente utilizam o PIB nominal convertido em dólares correntes. Esse ranking é influenciado não apenas pelo crescimento real, mas também pela inflação e pela taxa de câmbio. Uma desvalorização do real pode reduzir o PIB brasileiro em dólares sem que fábricas, fazendas ou escritórios desapareçam de um dia para o outro. Por isso, ao final, também examinarei a paridade do poder de compra, a PPC, que procura medir quanto cada economia efetivamente produz considerando os preços internos.

Trajetória do país é revisitada a partir da evolução da economia, mostrando avanços institucionais, desafios estruturais e a crescente distância em relação a China e Índia.

Trajetória do país é revisitada a partir da evolução da economia, mostrando avanços institucionais, desafios estruturais e a crescente distância em relação a China e Índia.Magnific

Em 1974, quando nasci, o Brasil encerrava o período conhecido como "milagre econômico". O PIB nominal brasileiro era de aproximadamente US$ 110 bilhões, o que colocava o país em torno da décima posição mundial. Os Estados Unidos lideravam com cerca de US$ 1,54 trilhão. Japão e Alemanha Ocidental já formavam o núcleo industrial que reconstruíra sua força no pós-guerra. A China, ainda antes das reformas de Deng Xiaoping, tinha um PIB pouco superior ao brasileiro, próximo de US$ 144 bilhões. A Índia possuía uma economia de dimensão semelhante à nossa.

Essa fotografia é importante. O Brasil não nasceu economicamente irrelevante na minha geração. Já era um país grande, urbanizado em ritmo acelerado, com indústria diversificada e ambição de potência. O problema estava no modelo: crescimento financiado por endividamento externo, concentração de renda, repressão política e relativa dependência de energia importada. O choque do petróleo de 1973 e a mudança das condições financeiras internacionais exporiam progressivamente essa fragilidade. A década seguinte seria marcada por baixo crescimento, inflação ascendente e crise da dívida.

Em 1989, ano das primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura militar e também do nascimento de meu irmão Guilherme, o mundo e o Brasil viviam transições simultâneas. O Muro de Berlim caiu; o bloco soviético começou a desmoronar; o Japão alcançava o auge de sua bolha financeira. Os Estados Unidos tinham um PIB de cerca de US$ 5,64 trilhões, e o Japão ultrapassava US$ 3 trilhões. O Brasil, mesmo submetido à hiperinflação, ainda aparecia aproximadamente na décima posição, com algo em torno de US$ 425 bilhões.

O dado mais revelador talvez seja outro: naquele momento, o PIB nominal brasileiro ainda era superior ao chinês, estimado em aproximadamente US$ 347 bilhões. Enquanto escolhíamos democraticamente um presidente depois de quase três décadas, a China já havia iniciado sua abertura gradual, criado zonas econômicas especiais e começado a reorganizar sua inserção produtiva. O Brasil recuperava a democracia, conquista civilizatória indispensável, mas chegava à nova ordem constitucional sem estabilidade monetária, com baixa capacidade de investimento e um Estado pressionado por demandas sociais legítimas e por uma estrutura fiscal caótica.

O ano de 1994 representou uma das maiores vitórias institucionais da história econômica brasileira. A implementação do Plano Real rompeu a inércia inflacionária, reorganizou preços relativos e devolveu à moeda a função elementar de permitir cálculo e planejamento. Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente. O PIB brasileiro, favorecido também pela valorização cambial do novo real, alcançou aproximadamente US$ 546 bilhões e permaneceu por volta da décima posição mundial.

Naquele ano, Brasil e China ainda estavam muito próximos em dólares correntes: a economia chinesa era estimada em cerca de US$ 564 bilhões. A proximidade, porém, escondia trajetórias que começavam a divergir. O Brasil havia feito a estabilização monetária, uma condição necessária para o desenvolvimento, mas enfrentava baixa poupança doméstica, juros elevados, desequilíbrios fiscais e um processo de abertura produtiva que modernizou setores, mas também expôs fragilidades industriais. A China combinava urbanização maciça, investimento elevado, atração de capital estrangeiro, infraestrutura e política industrial orientada à exportação.

Em 2002, Lula venceu pela primeira vez a eleição presidencial, apoiado por uma frente política mais ampla e por uma mensagem de conciliação simbolizada na Carta ao Povo Brasileiro. O país atravessou forte tensão cambial durante a campanha, e o PIB nominal encerrou o ano em torno de US$ 509 bilhões. No ranking internacional, o Brasil havia descido para perto da décima terceira posição. A China já alcançava aproximadamente US$ 1,47 trilhão, quase três vezes o tamanho da economia brasileira. A Índia, com pouco mais de US$ 500 bilhões, ainda estava próxima de nós.

O ciclo que se abriu depois de 2002 foi favorecido por estabilidade macroeconômica, expansão do crédito, aumento do emprego, políticas de transferência de renda e um ambiente externo extraordinariamente positivo para exportadores de commodities. A demanda chinesa elevou preços de minério de ferro, petróleo e produtos agrícolas. O Brasil acumulou reservas internacionais, reduziu vulnerabilidades externas e ampliou o mercado consumidor. Foi um período em que crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento da posição externa pareceram caminhar na mesma direção.

Em 2008, a quebra do Lehman Brothers transformou a crise do mercado imobiliário norte-americano na maior crise financeira global desde 1929. Os Estados Unidos ainda lideravam o mundo, com PIB próximo de US$ 14,7 trilhões, mas o epicentro do sistema financeiro revelava graves falhas regulatórias. A China já era a terceira maior economia nominal, com cerca de US$ 4,6 trilhões. O Brasil, com aproximadamente US$ 1,7 trilhão, figurava entre a oitava e a décima posições, conforme a fonte e a taxa de câmbio utilizada.

A resposta brasileira à crise foi eficiente. Reservas elevadas, sistema bancário mais regulado e políticas anticíclicas ajudaram a limitar a recessão. Em 2010, a economia cresceria 7,5%, e o país alcançaria a sétima posição no ranking nominal, com mais de US$ 2 trilhões. Aquele resultado, entretanto, foi interpretado com otimismo excessivo. Parte do crescimento derivava da recuperação cíclica, do crédito e dos termos de troca, e não de uma elevação estrutural da produtividade. O desafio seria transformar a bonança em infraestrutura, capital humano, inovação e capacidade fiscal duradoura. Não conseguimos fazê-lo na escala necessária.

Em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita e nasceu Catharina, minha primeira filha. O PIB brasileiro atingiu aproximadamente US$ 2,45 trilhões, novamente na sétima posição mundial. Em dólares, era um dos maiores patamares de nossa história. A fotografia, porém, já não correspondia ao filme. O crescimento real havia praticamente estagnado, as contas públicas se deterioravam, o investimento perdia força e os preços das commodities começavam a cair. A China já ultrapassava US$ 10 trilhões; a Índia passava de US$ 2 trilhões e se aproximava rapidamente do Brasil.

A partir daí, o país entrou em recessão, acompanhada de crise política, perda de confiança, impeachment e intensa polarização. Entre 2015 e 2016, o PIB real acumulou uma contração de magnitude excepcional para uma economia que não estava em guerra. A queda no ranking mundial não foi apenas um efeito contábil do câmbio: refletiu também a perda efetiva de produção, investimento e renda por habitante.

Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito. Ainda não sabíamos, mas aquela seria a última eleição presidencial antes de uma pandemia que paralisaria parte do planeta. O PIB brasileiro era de aproximadamente US$ 1,87 trilhão, e o país ocupava a nona posição no ranking nominal. A economia havia voltado a crescer, mas lentamente: o IBGE registra expansão de 1,8% naquele ano. A recuperação posterior à recessão era insuficiente para recompor rapidamente as perdas anteriores.

A comparação asiática já era contundente. A China alcançava cerca de US$ 13,6 trilhões, enquanto a Índia, com aproximadamente US$ 2,7 trilhões, havia ultrapassado o Brasil e se tornado a sétima maior economia. Em 1974, os três países estavam em uma faixa relativamente próxima. Quarenta e quatro anos depois, a China havia se tornado uma superpotência econômica, e a Índia acelerava sua ascensão. O Brasil continuava grande, mas oscilava dentro de um grupo intermediário, sem sustentar um processo de convergência.

Em 2020 nasceu Helena, minha segunda filha, no ano em que a Covid-19 alterou a vida familiar, a política e a economia mundial. O PIB brasileiro sofreu contração real de 3,3%, segundo a revisão consolidada do IBGE. Em dólares, caiu para algo próximo de US$ 1,5 trilhão, afetado simultaneamente pela recessão e pela desvalorização cambial. Serviços presenciais foram duramente atingidos, empresas fecharam, o emprego recuou e o Estado precisou mobilizar instrumentos emergenciais de renda, crédito e saúde pública.

A pandemia demonstrou que o PIB é também uma medida da capacidade de resistência institucional. Países não enfrentaram apenas um choque sanitário, mas um teste de coordenação federativa, credibilidade científica, proteção social e capacidade administrativa. A economia brasileira recuperou parte das perdas em 2021, mas a crise deixou cicatrizes educacionais, fiscais e produtivas que não aparecem integralmente nos números agregados.

Em 2022, Lula voltou a vencer a eleição presidencial. O PIB nominal brasileiro estava próximo de US$ 1,9 trilhão e o país havia recuado temporariamente para aproximadamente a décima segunda posição mundial. Os Estados Unidos superavam US$ 25 trilhões; a China se aproximava de US$ 18 trilhões; a Índia, com cerca de US$ 3,3 trilhões, consolidava-se na quinta posição. A guerra na Ucrânia, a inflação global e o aperto monetário tornavam o ambiente externo muito diferente daquele observado nos primeiros governos de Lula. No plano interno, boa parte do orçamento discricionario da Uniao foi capturado pelo Legislativo e quase todos os setores relevantes da economia já estavam sob a tutela de agencias reguladoras, quais os diretores possuem mandatos fixos, o que diminuiu drasticamente os poderes do presidente quanto a implementacao de politicas publicas. E, ainda, o risco crescente do fiscal, medido pela relação divida/pib, que acendeu a luz vermelha quanto as contas publicas.

O retorno do Brasil ao crescimento depois da pandemia mostrou resiliência, especialmente no mercado de trabalho, nos serviços e no agronegócio. Mas também recolocou dilemas conhecidos: produtividade baixa, taxa de investimento insuficiente, infraestrutura desigual, complexidade tributária (resolvida com a reforma, mas que só entrará em pleno vigor em 2030), insegurança regulatória e dificuldade de compatibilizar expansão social com sustentabilidade fiscal. O tamanho absoluto do mercado brasileiro continua sendo uma vantagem estratégica; o problema é transformar escala em eficiência e inovação.

Chegamos a 2025, o último ano com resultado anual fechado. O IBGE informa que o PIB cresceu 2,3% e totalizou R$ 12,7 trilhões. Convertido em dólares e comparado internacionalmente, o Brasil ficou em torno de US$ 2,3 trilhões, na fronteira entre a décima e a décima primeira posições, dependendo da base, da revisão e do câmbio utilizado. Essa oscilação ilustra por que rankings nominais devem ser lidos com cautela: pequenas variações cambiais podem trocar a ordem entre Brasil, Canadá, Rússia e Itália sem alterar estruturalmente a capacidade produtiva de cada país.

A paridade do poder de compra oferece outra perspectiva. Pelas estimativas do FMI para 2025, a China liderava com mais de 40 trilhões de dólares internacionais, seguida pelos Estados Unidos, com cerca de 31 trilhões, e pela Índia, com mais de 17 trilhões. O Brasil aparecia por volta da oitava posição, com aproximadamente 5 trilhões de dólares internacionais. A PPC reconhece que bens e serviços custam menos no Brasil do que nos países ricos e, portanto, que a conversão pelo câmbio de mercado subestima o volume de produção e consumo domésticos.

Isso não significa que o brasileiro seja tão rico quanto o cidadão das economias avançadas. O PIB total deve ser dividido por uma população superior a 200 milhões de habitantes, e a renda é distribuída de forma muito desigual. A PPC revela o tamanho interno da economia; não elimina diferenças de produtividade, tecnologia, renda per capita ou capacidade de comprar bens importados. Ainda assim, mostra que o Brasil permanece uma das poucas economias verdadeiramente continentais do mundo.

O contraste de 52 anos é expressivo. Em 1974, China e Índia tinham economias nominais próximas à brasileira. Em 2025, a China era mais de oito vezes maior que o Brasil em dólares correntes, e a Índia quase duas vezes maior. Em PPC, a distância também é ampla: a China supera oito vezes o Brasil, e a Índia é aproximadamente três vezes e meia maior. Não se trata apenas de população. Trata-se de décadas de investimento, urbanização, educação, integração produtiva, infraestrutura e aumento de produtividade.

As projeções do FMI para 2026 oferecem uma nota positiva, mas não autorizam complacência. A atualização de julho prevê crescimento real de 2,4% para o Brasil, enquanto a economia mundial cresceria 3,0%. O Fundo projeta expansão de 4,6% para a China e de 6,4% para a Índia. A estimativa de PIB nominal brasileiro próxima de US$ 2,6 trilhões pode recolocar o país entre as dez maiores economias, mas essa posição continuará dependente do câmbio e do desempenho de competidores próximos.

Ao completar 52 anos, vejo um Brasil que não fracassou em permanecer grande, mas fracassou em crescer de maneira suficientemente contínua. Construímos uma democracia, estabilizamos a moeda, reduzimos vulnerabilidades externas, ampliamos direitos e formamos setores competitivos em agricultura, mineração, energia, aviação, finanças e serviços digitais. Ao mesmo tempo, convivemos com ciclos curtos de entusiasmo e frustração, baixa produtividade, investimento insuficiente e incapacidade de converter vantagens temporárias em transformação estrutural.

A democraria brasileira se mostrou resiliente. Atravessou tentações de toda ordem nos ultimos anos. Por outro lado, a distribuição de renda continua a ser um dos problemas estruturais mais gritantes e urgentes a ser enfrentado.

Minha biografia atravessa esse percurso. Nasci no fim do milagre econômico; votei pela primeira vez em um país que reaprendia a escolher seu presidente; vi o real reorganizar a vida cotidiana; acompanhei a ascensão e as crises de diferentes projetos políticos; tornei-me pai em meio a uma desaceleração e, depois, novamente durante uma pandemia. Os números do PIB não contam toda essa história, mas ajudam a localizar cada experiência em uma transformação maior.

O Brasil de 2026 é mais democrático, complexo e socialmente exigente do que o de 1974. Também é relativamente menor diante da Ásia. O desafio dos próximos 52 anos não é apenas recuperar uma posição no ranking. É elevar produtividade e renda por habitante, investir em crianças como Catharina e Helena, preservar instituições, reduzir desigualdades e criar condições para que crescimento não seja um episódio, mas uma trajetória. Um aniversário serve para celebrar a vida; um balanço econômico deve servir para escolher melhor o futuro.

Nota metodológica e fontes: os valores internacionais são arredondados e utilizam séries históricas do Banco Mundial e do World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional. O resultado brasileiro de 2025 e as taxas reais citadas seguem as Contas Nacionais do IBGE. Rankings em dólares correntes podem variar conforme revisões estatísticas e taxas médias de câmbio. As projeções para 2026 são do World Economic Outlook Update de julho de 2026 e devem ser tratadas como estimativas, não como resultados realizados.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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