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Eleições 2026
20/8/2026 12:00
Uma campanha presidencial não começa propriamente quando um candidato pede voto. Ela começa quando consegue convencer parte da sociedade de qual pergunta deve organizar a eleição.
É nesse momento inicial que se escolhem os cenários, as palavras, as companhias, os adversários e as memórias que deverão acompanhar cada candidatura. Um ato político aparentemente simples pode condensar uma estratégia inteira: quem aparece no palanque, quem recebe o primeiro abraço, qual símbolo ocupa o enquadramento, que música toca, qual personagem do passado é lembrado e, sobretudo, qual imagem será reproduzida milhares de vezes depois que a multidão tiver ido embora.
As campanhas contemporâneas descobriram algo importante: o palanque não é apenas um lugar de encontro entre candidato e eleitor. Tornou-se também um estúdio.
O comício precisa funcionar presencialmente, mas também precisa caber na televisão, transformar-se em fotografia, sobreviver em um vídeo de poucos segundos, circular nos aplicativos de mensagens e produzir cortes capazes de disputar atenção nas redes sociais. O acontecimento político já nasce imaginando sua reprodução.
Há muito de Guy Debord nessa transformação. O espetáculo político não significa simplesmente que tudo seja falso ou superficial. Significa que a imagem passa a constituir parte da própria realidade política. O evento não vale apenas pelo que aconteceu nele, mas pela representação que será construída a partir dele.
Por isso, uma fotografia pode ser mais importante do que uma hora de discurso.
Um abraço pode significar uma aliança.
Uma ausência pode revelar um conflito.
Uma multidão pode representar força.
Um palco vazio pode representar isolamento.
Na política contemporânea, não basta existir. É preciso produzir a imagem daquilo que se pretende demonstrar que existe.
Murray Edelman percebeu há décadas que símbolos, ritos e gestos possuem extraordinária capacidade de organizar sentimentos políticos. Eles simplificam uma realidade complexa e oferecem ao cidadão referências fáceis para interpretar conflitos difíceis. Segurança, medo, esperança, pertencimento, indignação e nostalgia podem ser mobilizados com uma eficiência que nenhuma planilha de política pública conseguiria alcançar.
Esse mecanismo não constitui uma anomalia da democracia. A política sempre dependeu de símbolos.
O problema começa quando os símbolos deixam de representar projetos e passam a substituí-los.
É justamente aí que aparece uma característica importante das disputas eleitorais recentes: a crescente dificuldade de algumas candidaturas de construir uma identidade que não dependa do passado.
A política começa, então, a olhar demasiadamente pelo retrovisor.
Quando o candidato precisa de um fiador
Toda eleição possui heranças.
Governos deixam lembranças. Lideranças acumulam capital político. Partidos constroem identidades. Famílias políticas atravessam gerações. Movimentos sociais e experiências de governo formam comunidades de memória.
Nada disso é novo.
Há, porém, uma diferença entre receber apoio político e construir uma candidatura cuja principal credencial seja representar alguém que não está efetivamente disputando aquela eleição.
Podemos chamar esse fenômeno de representação por procuração.
O candidato aparece na urna, mas parte significativa de sua legitimidade depende de outro personagem. Sua tarefa eleitoral passa a incluir uma permanente demonstração de autenticidade: é preciso provar que representa corretamente determinado legado, determinada liderança ou determinada experiência histórica.
A procuração oferece vantagens evidentes.
Ela reduz o custo de apresentação ao eleitor. Transfere reconhecimento. Importa afetos já construídos. Facilita a mobilização de bases organizadas. Permite que uma candidatura relativamente nova seja imediatamente inserida em uma narrativa conhecida.
Mas também cobra seu preço.
Quanto mais uma candidatura depende de demonstrar que é continuadora de alguém, maior sua dificuldade para explicar quem pretende ser por conta própria.
Bernard Manin descreveu a passagem da antiga democracia de partidos para uma "democracia do público", marcada pela crescente personalização da competição política, pelo enfraquecimento das fidelidades partidárias tradicionais e pela centralidade das lideranças construídas perante a opinião pública.
No Brasil, essa personalização pode adquirir uma forma curiosa: até a imagem pessoal do candidato pode depender da imagem de outro.
É como se a candidatura precisasse apresentar dois currículos simultaneamente: o seu e o do fiador.
A estratégia pode funcionar eleitoralmente. Mas uma eleição presidencial possui uma característica incômoda: ela escolhe alguém para governar um país que não é mais exatamente aquele deixado pelo líder que concedeu a procuração.
A sociedade muda.
A economia muda.
O mundo muda.
O mercado de trabalho muda.
A tecnologia muda.
A inteligência artificial reorganiza profissões e empresas. A população envelhece. A transição climática modifica agendas produtivas. As cidades acumulam novos problemas. As famílias transformam seus padrões de consumo, relacionamento e expectativa.
Nenhum governo recebe o país anterior intacto.
Por isso, toda herança política precisa enfrentar uma pergunta simples: o que será feito com ela diante de problemas novos?
Uma candidatura pode herdar identidade.
Não pode terceirizar o futuro.
Quando o adversário passa a definir quem somos
Há um segundo mecanismo igualmente poderoso.
Muitas campanhas descobriram que é mais fácil organizar a própria identidade a partir da rejeição ao adversário do que por meio da construção de um projeto positivo.
A pergunta deixa de ser:
"Por que devemos governar?"
E passa progressivamente a ser:
"Vocês realmente querem que eles voltem?"
É uma mudança aparentemente pequena, mas de enorme consequência.
O adversário transforma-se no principal ativo mobilizador da candidatura.
Pierre Rosanvallon mostrou como a democracia contemporânea é atravessada não apenas por mecanismos de confiança e representação, mas também por estruturas de vigilância, desconfiança, contestação e impedimento. O cidadão democrático não apenas escolhe. Também fiscaliza, rejeita e bloqueia.
Nas eleições, essa lógica pode assumir sua forma mais elementar: o voto contra.
Milhões de eleitores não precisam necessariamente gostar de uma candidatura. Basta temer suficientemente a outra.
Isso modifica os incentivos das campanhas.
Se a rejeição ao adversário consegue mobilizar a base, propostas detalhadas deixam de ser o único caminho possível para gerar adesão. O medo passa a substituir parcialmente a esperança como combustível político.
Surge então uma espécie de dependência mútua.
Cada polo precisa do outro para justificar sua própria mobilização.
O adversário mais radical produz material para a campanha oposta. Uma declaração excessiva gera cortes, reações, indignação, arrecadação, mobilização e renovação da identidade grupal.
A polarização deixa de ser apenas uma consequência da disputa.
Ela passa a funcionar também como tecnologia de mobilização.
E há uma racionalidade eleitoral nisso.
Projetos criam compromissos.
Compromissos permitem cobrança.
Políticas públicas exigem escolhas.
Escolhas produzem custos.
Custos precisam ser explicados.
É muito mais simples afirmar o que o adversário destruirá do que explicar em detalhes aquilo que o próprio governo pretende construir.
A televisão não morreu. A rede também não venceu
Outra tentação frequente é imaginar que as eleições passaram da televisão para a internet.
É uma leitura confortável, mas insuficiente.
Não houve substituição. Houve integração.
Andrew Chadwick chamou esse ambiente de sistema midiático híbrido. A expressão descreve bem a comunicação política contemporânea porque televisão, rádio, jornais, portais, redes sociais, plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens já não operam como compartimentos isolados.
Um debate televisivo produz dezenas de vídeos para as redes.
Uma declaração numa rede social torna-se pauta jornalística.
Um meme chega à televisão.
Uma entrevista de uma hora é desmontada em cinquenta pequenos conteúdos.
Uma controvérsia iniciada num grupo de mensagens pode terminar na bancada de um telejornal.
O conteúdo circula.
Por isso, talvez seja um erro perguntar se a televisão ainda é importante.
A questão correta é: que função cada meio desempenha dentro da mesma campanha?
As redes possuem extraordinária capacidade de mobilização, segmentação e reação rápida. Elas conectam militâncias, multiplicam interpretações e transformam qualquer episódio em material de disputa instantânea.
Mas carregam um problema eleitoral importante: grande parte das pessoas que consome intensamente política nas redes já possui preferências relativamente definidas.
A campanha pode produzir milhões de interações e continuar falando predominantemente com os convertidos.
Engajamento não é sinônimo de expansão eleitoral.
Curtida não é voto.
Visualização não é persuasão.
A televisão e o rádio, por outro lado, ainda possuem uma característica estratégica: alcançam pessoas que não estavam procurando política naquele momento. Chegam ao eleitor menos mobilizado, menos conectado às bolhas militantes e muitas vezes justamente àquele cuja decisão permanece aberta.
A verdadeira batalha não ocorre, portanto, entre mídia velha e mídia nova.
Ela ocorre pela circulação da mensagem entre ambientes diferentes.
O risco de cada eleitor viver numa eleição diferente
Há uma questão ainda mais profunda nesse novo ecossistema.
Durante parte considerável do século XX, sociedades democráticas possuíam algo semelhante a uma praça pública informacional. Era uma praça imperfeita, controlada por poucos veículos e sujeita a inúmeras distorções, mas grande parte da sociedade ao menos era exposta aos mesmos acontecimentos.
Hoje essa experiência comum está fragmentada.
Dois cidadãos podem morar na mesma rua e acompanhar eleições completamente diferentes.
Um recebe diariamente conteúdos mostrando determinado candidato como ameaça à democracia.
Outro recebe diariamente conteúdos afirmando que aquele candidato é justamente quem poderá salvá-la.
Um enxerga prosperidade.
Outro vê desastre.
Um acompanha escândalos que o outro sequer sabe que existem.
Não estamos apenas discordando sobre os mesmos fatos.
Muitas vezes estamos selecionando fatos diferentes para construir realidades políticas distintas.
É nesse ponto que as preocupações de Jürgen Habermas sobre a esfera pública ganham nova atualidade.
A democracia necessita de conflito. Não existe vida pública democrática sem divergência.
Mas divergência exige algum território compartilhado.
Quando desaparece até mesmo o acordo mínimo sobre aquilo que merece ser discutido, torna-se extremamente difícil produzir deliberação pública. A disputa passa a ocorrer entre comunidades informacionais que possuem seus próprios fatos, especialistas, autoridades, escândalos e certezas.
O algoritmo não precisa possuir ideologia para aprofundar esse fenômeno.
Basta recompensar atenção.
E indignação costuma ser uma mercadoria comunicacional extraordinariamente eficiente.
Brasília não elege presidente sozinha
Se olharmos apenas para redes, imagens e narrativas, porém, perderemos outra parte essencial da política brasileira.
O Brasil continua sendo uma federação.
E presidente não é eleito apenas por seguidores.
Campanhas nacionais dependem de governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, partidos, lideranças regionais e estruturas locais capazes de transformar uma candidatura nacional em presença territorial.
É aqui que a velha — e ainda indispensável — ideia do presidencialismo de coalizão, formulada por Sérgio Abranches, precisa ser lembrada.
Ela não ajuda apenas a compreender como presidentes governam depois da posse. Também ajuda a entender como candidaturas constroem viabilidade antes da eleição.
Um acordo nacional pode parecer muito sólido em Brasília e produzir efeitos completamente distintos nos estados.
Apoio formal não significa necessariamente empenho eleitoral.
Um governador pode declarar apoio e investir pouco nele.
Pode dividir palanque, mas evitar compartilhar sua própria campanha.
Pode apoiar nacionalmente uma candidatura e preservar alianças locais com grupos adversários.
Pode permitir que prefeitos escolham livremente.
A federação produz incentivos próprios.
Fernando Limongi e Argelina Figueiredo demonstraram, em diferentes trabalhos, que a política brasileira não pode ser compreendida apenas pela personalidade dos líderes. Partidos, instituições, mecanismos de coordenação e organização de maiorias continuam importando.
Há aqui um paradoxo interessante.
A eleição parece cada vez mais personalizada na superfície.
Mas continua profundamente organizacional na infraestrutura.
O candidato é a face do aplicativo.
Por baixo dela há uma arquitetura formada por alianças, estruturas partidárias, recursos, candidaturas locais, prefeitos, deputados e governadores.
E essa infraestrutura não desaparece depois da apuração.
Ao contrário.
Muitas das alianças construídas para ganhar votos reaparecerão no dia seguinte à posse como condições para governar.
Muita comunicação, pouco futuro
Talvez esse seja o grande paradoxo de nossa época eleitoral.
Nunca houve tanta capacidade de comunicação política.
Um candidato pode falar diretamente com milhões de cidadãos sem depender de uma emissora. Pode produzir conteúdo diariamente, testar mensagens, responder em minutos a uma acusação, transmitir uma agenda ao vivo, segmentar públicos e acompanhar quase instantaneamente a reação de seus apoiadores.
Temos campanhas com mais dados.
Mais tecnologia.
Mais vídeo.
Mais monitoramento.
Mais segmentação.
Mais comunicação.
Mas isso não significa necessariamente que tenhamos produzido mais discussão sobre o futuro.
Porque existe uma diferença entre comunicar mais e dizer mais.
A disputa pela atenção cria um incentivo permanente à simplificação.
Escândalo circula rapidamente.
Ataque circula rapidamente.
Humilhação do adversário circula rapidamente.
Medo circula rapidamente.
Um projeto consistente para aumentar a produtividade do país, reorganizar a educação, financiar a saúde, enfrentar a transformação do trabalho, modernizar a infraestrutura ou acomodar os impactos da transição demográfica exige outra temporalidade.
Precisa de contexto.
Precisa de números.
Precisa admitir escolhas.
Precisa reconhecer custos.
E talvez seja justamente por isso que campanhas olhem tanto pelo retrovisor.
O passado já vem acompanhado de personagens, símbolos, culpados, conquistas, ressentimentos e nostalgias.
O futuro exige explicações.
A eleição que existe fora das bolhas
No final, talvez o eleitor mais importante não seja aquele que aparece todos os dias discutindo política nas redes.
Esse já está mobilizado.
A verdadeira fronteira eleitoral pode estar naquele cidadão que acompanha a política de maneira intermitente porque possui outras urgências.
Ele precisa trabalhar.
Pagar contas.
Comprar comida.
Cuidar dos filhos.
Conseguir atendimento médico.
Pagar aluguel.
Sentir-se seguro.
Organizar uma vida que não cabe na guerra cotidiana das redes.
É justamente esse eleitor que pode olhar para toda a sofisticação das campanhas e fazer uma pergunta profundamente simples:
"E a minha vida?"
Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder.
Porque ela obriga a campanha a abandonar por alguns instantes a disputa sobre personagens e voltar à política pública.
Quanto meu salário poderá comprar?
Meus filhos terão uma escola melhor?
Encontrarei emprego?
A violência diminuirá?
Conseguirei empreender?
Minha aposentadoria será sustentável?
O Estado funcionará quando eu precisar dele?
Essas perguntas não viralizam com facilidade.
Mas governos são julgados por elas.
Existe ainda uma distinção importante entre o eleitor indeciso e o eleitor desencantado.
O indeciso não sabe em quem votar.
O desencantado já não sabe se votar fará diferença.
A primeira condição é eleitoral.
A segunda é democrática.
Quando parcelas crescentes da sociedade passam a considerar a política apenas uma disputa entre grupos que brigam pelo poder enquanto sua vida cotidiana permanece relativamente intocada, o problema deixa de ser de comunicação.
Passa a ser de representação.
E nenhuma estratégia de rede social resolverá sozinha uma crise de representação.
É preciso voltar a disputar o futuro
Toda democracia precisa de memória.
O passado é matéria-prima da política. Governos anteriores deixam conquistas e fracassos. Lideranças constroem identidades. Sociedades precisam interpretar sua própria história.
Não há problema algum em olhar pelo retrovisor.
O perigo está em dirigir olhando apenas para ele.
As campanhas brasileiras estão se tornando extremamente sofisticadas na utilização de símbolos, redes, imagens, rejeições, heranças políticas e alianças territoriais.
Sabem mobilizar.
Sabem atacar.
Sabem reagir.
Sabem enquadrar.
Sabem produzir narrativas.
Talvez precisem reaprender uma tarefa mais difícil: formular horizontes.
Porque a pergunta decisiva de uma eleição presidencial não deveria ser apenas quem representa melhor determinada liderança, quem consegue mobilizar maior rejeição ao adversário ou quem domina com maior competência o novo ecossistema comunicacional.
A pergunta deveria ser outra: que país cada candidatura pretende construir depois que os palanques forem desmontados?
Como aumentar produtividade e renda?
Como educar uma geração que viverá cercada por inteligência artificial?
Como financiar um Estado pressionado pelo envelhecimento populacional?
Como combinar responsabilidade fiscal e capacidade de investimento?
Como enfrentar desigualdades regionais?
Como adaptar cidades às mudanças climáticas?
Como recuperar segurança sem abandonar direitos?
Como construir uma economia capaz de gerar oportunidades para quem hoje observa a política com ceticismo?
Essas perguntas são menos confortáveis do que os antagonismos eleitorais.
Mas governar significa precisamente enfrentar aquilo que não cabe num slogan.
Existe uma contradição que nenhuma campanha conseguirá eliminar.
Para vencer eleições, simplificar pode ser necessário.
Para governar, enfrentar a complexidade será inevitável.
Quanto maior a distância entre essas duas tarefas, maior tende a ser a frustração produzida no dia seguinte à vitória.
Por isso, a disputa mais importante talvez não seja entre televisão e redes sociais, esquerda e direita, continuidade e ruptura ou mesmo entre diferentes lideranças políticas.
Há uma disputa mais profunda em curso.
De um lado, uma política organizada pela memória, pela rejeição e pela administração permanente de identidades.
De outro, uma política capaz de transformar memória em aprendizagem, diferença em escolha e campanha em projeto.
O passado sempre terá lugar numa eleição.
Mas deveria ocupar exatamente o lugar de um espelho retrovisor: permitir compreender de onde viemos sem impedir que vejamos a estrada à frente.
Porque eleições podem ser vencidas pela memória.
Governos, porém, serão julgados pelo futuro que conseguirem produzir.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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