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Eleições 2026
26/8/2026 15:11
Em períodos eleitorais, a política brasileira parece caber inteira em uma tabela. Candidatos sobem ou descem alguns pontos; alianças são anunciadas ou desfeitas; doadores redirecionam recursos; partidos recalculam estratégias; comentaristas decretam quem "tem viabilidade" e quem "já está fora do jogo". Tudo isso, muitas vezes, em razão de oscilações situadas dentro da própria margem de erro.
As pesquisas eleitorais são instrumentos legítimos e necessários para compreender tendências da opinião pública. O problema começa quando deixam de ser tratadas como fotografias provisórias e passam a circular como antecipações do resultado. Uma fotografia registra determinado enquadramento, sob certa luz e em um momento específico. Ela não mostra tudo o que aconteceu antes, muito menos aquilo que ainda poderá acontecer.
Pesquisa não é urna. Preferência declarada não é voto depositado. Notoriedade não equivale a adesão política. E o eleitor, longe de ser um número imóvel, observa a campanha, compara candidaturas, conversa com familiares, reage a acontecimentos, avalia sua vida cotidiana e pode mudar de posição até o momento de votar.
Por isso, a pergunta democrática mais importante não é apenas quem lidera determinada pesquisa. É também: de que maneira os levantamentos estão sendo produzidos, divulgados e interpretados? Que realidade conseguem captar? O que permanece fora de seu enquadramento? E que efeitos políticos sua divulgação produz?
O número não fala sozinho
Em uma conferência realizada em 1972 e posteriormente publicada com o provocativo título A opinião pública não existe, Pierre Bourdieu questionou pressupostos que sustentam parte das pesquisas de opinião. Entre eles, a ideia de que todas as pessoas possuem uma opinião previamente formada sobre qualquer assunto, de que todas as opiniões têm o mesmo peso e de que existe consenso sobre quais perguntas devem ser feitas.
A provocação de Bourdieu não torna as pesquisas inúteis. Ela nos obriga a lê-las com maior inteligência.
Quando um entrevistador apresenta nomes previamente selecionados, formula uma pergunta em determinada ordem e oferece alternativas fechadas, ele não apenas recolhe uma opinião que estava pronta. Também cria uma situação na qual o entrevistado é convidado a organizar uma resposta. A redação da pergunta, a relação dos nomes apresentados, a sequência do questionário e o meio utilizado para a entrevista podem influenciar o resultado.
Nas eleições de 2026, as pesquisas precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até cinco dias antes de sua divulgação. O registro deve informar, entre outros elementos, quem contratou o levantamento, o valor e a origem dos recursos, a metodologia empregada, o período da coleta, o plano amostral, as ponderações utilizadas, o intervalo de confiança e a margem de erro. Essas exigências ampliam a transparência, mas não dispensam o exame crítico dos resultados.
O registro no sistema da Justiça Eleitoral não constitui um certificado prévio de infalibilidade. A qualidade de uma pesquisa depende da representatividade da amostra, da cobertura alcançada, das ponderações, do questionário, da execução do trabalho de campo e do tratamento estatístico dos dados.
Entrevistas presenciais, telefônicas e digitais não alcançam necessariamente o eleitorado da mesma maneira. Cada modalidade possui vantagens, limitações e possibilidades específicas de viés. Isso não significa que um método seja automaticamente superior aos demais. Significa que comparar resultados exige mais do que colocar percentuais lado a lado.
A margem de erro, por sua vez, não resume todas as incertezas envolvidas. Ela não corrige perguntas mal formuladas, problemas de cobertura, recusas sistemáticas, constrangimento do entrevistado, mudanças ocorridas depois da coleta ou dificuldades de representar adequadamente grupos sociais específicos. A precisão matemática do relatório não elimina as escolhas humanas presentes na construção da pesquisa.
Há, ainda, uma diferença decisiva entre medir uma preferência e prever um comportamento. Quando uma pessoa responde a uma pesquisa, ela declara uma intenção naquele momento e nas condições criadas pela entrevista. Quando vota, encontra-se em outro contexto: depois de semanas de campanha, debates, propaganda eleitoral, mobilizações, conflitos, notícias e conversas privadas.
Estudos sobre eleições brasileiras mostram que mudanças tardias na decisão do voto ajudam a explicar parte das diferenças entre pesquisas e resultados eleitorais. Esse fenômeno se torna especialmente relevante em disputas proporcionais, caracterizadas pela grande quantidade de candidaturas, pelo menor conhecimento prévio dos concorrentes e pela elevada dispersão das preferências.
Nas eleições para a Câmara dos Deputados e para as assembleias legislativas, muitos eleitores chegam às últimas semanas sem uma escolha consolidada. Até mesmo nas disputas para o Senado, a notoriedade inicial pode ser confundida com apoio eleitoral estável. Quem aparece à frente no começo da campanha pode estar apenas mais presente na memória do entrevistado.
A pesquisa também se torna um acontecimento político
Toda pesquisa nasce como tentativa de medir uma realidade, mas sua divulgação passa a integrar a própria realidade medida. Esse é um dos paradoxos centrais das sondagens eleitorais.
Ao ser publicada, a pesquisa influencia a cobertura jornalística, os partidos, as campanhas, os financiadores e os eleitores. Candidaturas bem posicionadas recebem mais atenção. Candidaturas apresentadas como inviáveis enfrentam dificuldades para conquistar espaço, formar alianças e mobilizar apoiadores. O retrato passa, assim, a interferir na paisagem que pretendia apenas registrar.
Isso não significa que as pesquisas controlem mecanicamente o eleitor. Seus efeitos são variados. Um levantamento pode estimular o chamado voto útil, produzir acomodação entre apoiadores do líder, mobilizar adversários ou fortalecer uma candidatura que se apresenta como perseguida. Não existe uma única reação previsível.
O problema está no circuito formado entre pesquisa, cobertura jornalística e estratégia política. Um resultado provisório recebe tratamento de fato consumado; a imprensa amplia a visibilidade dos primeiros colocados; essa visibilidade aumenta a familiaridade de seus nomes; e a familiaridade pode aparecer nas pesquisas seguintes como crescimento espontâneo.
Nesse processo, a informação corre o risco de se transformar em profecia autorrealizável.
A responsabilidade não pertence exclusivamente aos institutos. Veículos de comunicação, analistas e campanhas também escolhem como apresentar os dados. Uma diferença numericamente pequena pode ser descrita como "disparada". Uma oscilação dentro da margem de erro pode virar "queda acentuada". Um empate técnico pode ser narrado como liderança isolada, dependendo do interesse editorial ou político.
A cobertura responsável deveria informar, com a mesma visibilidade dada aos percentuais, a data da coleta, o tamanho e a composição da amostra, a metodologia, a margem de erro, o contratante, o questionário e o percentual de indecisos. Também deveria evitar projeções incompatíveis com aquilo que os dados efetivamente permitem concluir.
O voto possui história, território e condição social
A fragilidade do fetichismo estatístico se torna ainda mais evidente quando se observa a sociologia do voto. O eleitor não chega à urna como consumidor isolado que escolhe uma candidatura em uma prateleira de marcas políticas. Ele vota a partir de uma trajetória, de relações sociais, de valores, de expectativas e de condições materiais de existência.
Seymour Martin Lipset e Stein Rokkan demonstraram que os sistemas políticos se organizam em torno de clivagens sociais duradouras: capital e trabalho, centro e periferia, Estado e religião, campo e cidade. Essas divisões não determinam automaticamente cada voto, mas ajudam a compreender por que determinadas mensagens encontram acolhimento em alguns grupos e resistência em outros.
No Brasil, essas clivagens se cruzam com uma formação histórica marcada pela escravidão, pelo patriarcado, pela concentração da propriedade e pela desigualdade regional.
Florestan Fernandes mostrou que a modernização brasileira não eliminou as estruturas oligárquicas do passado. Em muitos casos, incorporou-as a novas formas de organização econômica e política. Lélia Gonzalez, por sua vez, evidenciou como racismo e sexismo se articulam na distribuição desigual de reconhecimento, oportunidades, proteção e poder.
Essas estruturas continuam presentes no comportamento eleitoral. Renda, escolaridade, raça, gênero, religião, inserção profissional, região e acesso a políticas públicas influenciam a maneira pela qual os cidadãos interpretam a realidade. Influenciar, contudo, não significa determinar. Nenhum grupo social constitui um bloco político perfeitamente homogêneo.
Esse cuidado é essencial para evitar dois erros opostos. O primeiro é imaginar que o voto resulta apenas de decisões individuais e abstratas, separadas da sociedade. O segundo é supor que a posição social transforma pessoas em eleitores previsíveis, destituídos de autonomia.
O voto é socialmente condicionado, mas politicamente aberto.
Uma mesma dificuldade econômica pode gerar interpretações diferentes. O desemprego, a precarização do trabalho ou a alta do custo de vida podem ser atribuídos ao governo, ao mercado, às elites econômicas, à corrupção, à globalização ou a grupos transformados em inimigos. Entre a experiência material e a decisão eleitoral existe uma disputa de interpretação.
É nesse espaço que atua a política.
Plataformas capazes de relacionar a vida concreta das pessoas a propostas inteligíveis — redução da jornada de trabalho, acesso à saúde, educação pública, proteção da renda, segurança, moradia e combate à carestia — podem ampliar sua base social. Mas isso não ocorre automaticamente. Sofrimento social não se converte sozinho em consciência política. Precisa ser interpretado, organizado e transformado em projeto coletivo.
A política sob o comando das plataformas
A transferência de grande parte do debate público para as redes digitais tornou ainda mais complexa a relação entre opinião, informação e poder.
Jürgen Habermas tem chamado a atenção para a fragmentação da esfera pública em ambientes digitais organizados por plataformas privadas. Nick Srnicek, ao analisar o capitalismo de plataforma, demonstra que essas empresas não oferecem apenas espaços neutros de comunicação. Seu modelo econômico depende da coleta de dados, da permanência dos usuários e da monetização da atenção.
Nesse ambiente, o conteúdo que desperta medo, indignação ou hostilidade pode obter vantagem sobre explicações mais ponderadas. Não porque exista necessariamente uma conspiração centralizada, mas porque os sistemas de recomendação tendem a premiar aquilo que mantém o usuário conectado e estimula reações.
A visibilidade digital também é distribuída de maneira desigual. Produzir conteúdos de forma contínua exige tempo, equipamentos, conhecimento técnico, financiamento, equipes profissionais e capacidade de impulsionamento. A aparência espontânea das redes pode ocultar estruturas organizadas de produção e circulação de mensagens.
Ao mesmo tempo, seria equivocado enxergar os usuários apenas como vítimas passivas dos algoritmos. As plataformas também reduziram barreiras de entrada, permitiram que grupos historicamente invisibilizados construíssem suas próprias redes e ampliaram a capacidade de fiscalização das autoridades e dos meios tradicionais de comunicação.
A questão, portanto, não é escolher entre celebrar ou condenar a tecnologia. É compreender quem controla a infraestrutura da conversação pública, quais interesses orientam seus sistemas de recomendação e quais mecanismos de transparência, responsabilização e contestação estão disponíveis à sociedade.
Soberania democrática, no século XXI, também significa soberania informacional.
Polarização e politização não são sinônimos
Parte da análise política brasileira descreve qualquer conflito mais intenso como "polarização". O conceito é útil, sobretudo quando identifica hostilidade entre grupos, recusa de legitimidade do adversário e transformação da política em confronto entre inimigos.
Entretanto, chamar todo dissenso de polarização pode produzir um efeito despolitizador. Divergências sobre tributação, privatizações, direitos trabalhistas, políticas sociais, meio ambiente, segurança pública e inserção internacional não são ruídos que impedem o consenso. São conflitos legítimos sobre a distribuição de poder, riqueza, reconhecimento e oportunidades.
Chantal Mouffe recorda que a democracia não elimina o conflito. Ela cria instituições e regras para que adversários disputem projetos sem se converterem em inimigos a serem destruídos. O desafio democrático não consiste em abolir o antagonismo, mas em transformá-lo em confronto político compatível com o reconhecimento da legitimidade do outro.
Por isso, politização e polarização podem coexistir, mas não significam a mesma coisa.
Há politização quando interesses, escolhas e consequências são explicitados. Há polarização destrutiva quando identidades políticas se tornam impermeáveis aos fatos, quando qualquer concessão é tratada como traição e quando o adversário deixa de ser reconhecido como participante legítimo da comunidade democrática.
O Brasil não está dividido em apenas dois campos perfeitamente coerentes. Dentro de cada força política existem contradições, interesses regionais, disputas internas e alianças pragmáticas. Ainda assim, há conflitos programáticos reais: maior ou menor capacidade de coordenação do Estado; expansão ou restrição de direitos sociais; primazia do investimento público ou da austeridade; fortalecimento da indústria nacional ou aprofundamento da dependência; universalização de políticas ou focalização seletiva; autonomia internacional ou alinhamento subordinado.
Reconhecer esses conflitos é mais honesto do que escondê-los sob a fantasia de um centro supostamente neutro. Toda escolha econômica distribui custos e benefícios. Toda reforma fortalece alguns atores e enfraquece outros. Até mesmo a decisão de não mudar determinada política preserva uma correlação de forças.
Como ensinou Antonio Gramsci, a política envolve uma disputa por hegemonia: a capacidade de transformar interesses particulares em uma visão de mundo reconhecida como universal. Nas eleições, essa disputa aparece na tentativa de articular demandas fragmentadas em um projeto nacional capaz de produzir identificação, esperança e direção.
A soberania pertence ao eleitor
Pesquisas eleitorais são indispensáveis para conhecer tendências, avaliar estratégias e compreender movimentos da opinião pública. O equívoco está em exigir delas aquilo que não podem oferecer: a antecipação infalível de uma decisão coletiva que ainda está em formação.
Nenhum modelo estatístico substitui o trabalho político. Nenhum algoritmo alcança sozinho a complexidade das conversas familiares, das experiências de trabalho, das relações comunitárias, das igrejas, das escolas, dos sindicatos, das associações e dos territórios. É nesses espaços que as interpretações do mundo são produzidas, negociadas e transformadas.
A democracia se enfraquece quando candidatos são julgados apenas por sua posição momentânea nos levantamentos. Nesse cenário, ideias deixam de ser debatidas porque quem as apresenta foi previamente classificado como inviável. A pesquisa, que deveria informar a escolha, passa a limitar o campo das escolhas consideradas possíveis.
É preciso inverter essa lógica. Em vez de perguntar somente quem está na frente, devemos perguntar que projeto cada candidatura oferece, quais interesses representa, como pretende enfrentar as desigualdades e que posição reserva ao Brasil no mundo.
À Justiça Eleitoral cabe assegurar transparência, regularidade e possibilidade de fiscalização. Aos institutos, cabe explicitar métodos, limitações e incertezas. À imprensa, cabe evitar o espetáculo das oscilações e contextualizar os números. Aos partidos e candidaturas, cabe disputar a sociedade com propostas, organização e presença territorial. Ao eleitor, cabe a palavra definitiva.
Pesquisas respondem, com todas as suas limitações, em quem uma parcela da população declara que votaria se a eleição fosse realizada no momento da entrevista. A democracia formula uma pergunta muito maior: depois do debate, da campanha, da mobilização e do confronto entre projetos, que país a maioria decidirá construir?
Essa resposta não pertence aos institutos, aos algoritmos, aos mercados nem aos comentaristas. Pertence às urnas. E preservar essa primazia é preservar a própria soberania popular.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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