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Liberdade
1/9/2026 14:58
"A liberdade nasceu na África." Ouvi essa frase em uma palestra do Africa Liberty Forum, em Acra, e ela me acompanhou pelo resto da viagem. Não falava do passado como quem reivindica uma origem remota, mas do presente como quem reivindica o direito de cada sociedade compreender ideias universais a partir da própria história.
Esse foi o tom do encontro em Gana, realizado logo depois do LeaderLab, programa de formação de lideranças da Atlas Network. Entre 23 participantes de 13 países, eu era a única vinda de fora da África. A expectativa de encontrar realidades muito distantes da brasileira, porém, desapareceu nas primeiras conversas. Direito de propriedade mal garantido, leis desconectadas da vida cotidiana, dificuldade de ascensão social e problemas estruturais naturalizados apareciam repetidamente nos relatos. Os contextos eram diferentes, mas havia um desenho de fundo bastante familiar.
Um dos pontos que mais me chamou atenção foi a disposição das organizações africanas de construir as próprias respostas, em vez de apenas importar soluções dos Estados Unidos e da Europa. Algumas produzem cursos, estudos e artigos sobre liberdade e direito de propriedade em suaíli, por exemplo. Em países com centenas de línguas locais, discutir liberdade apenas no idioma herdado do período colonial limita quem participa do debate. Não é apenas uma questão de tradução, mas de ampliar quem se reconhece nessas ideias.
No Brasil, o pensamento liberal ainda costuma ser apresentado principalmente por autores e experiências dos Estados Unidos e da Europa, apesar de termos referências próprias. Não precisamos abandonar contribuições estrangeiras, mas elas não substituem o esforço de recuperar figuras como Luiz Gama e Joaquim Nabuco e de incorporar liberais brasileiros que discutem os efeitos da escravidão, da colonização e das desigualdades que ainda moldam o país.
O desafio é fazer essas ideias conversarem com quem enfrenta, hoje, uma legislação distante da própria realidade e poucas oportunidades de ascensão social. Uma agenda pública não se sustenta apenas por estar tecnicamente correta.
Princípios universais não precisam mudar conforme a geografia, mas isso não significa que devam ser explicados sempre com o mesmo repertório. O argumento que fazia sentido para um comerciante britânico do século XIX não é necessariamente o que dialoga com uma ambulante brasileira ameaçada pelo confisco de sua mercadoria. Tratar referências importadas como neutras cobra um preço em alcance.
A passagem por Gana também mostrou a importância de descentralizar as redes internacionais. África, Ásia e América Latina não são apenas receptoras de conceitos formulados em outros centros. Produzem pensamento, testam soluções em ambientes institucionais difíceis e acumulam experiências relevantes para quem trabalha com políticas públicas no Brasil.
A liberdade pode e deve ser tratada como valor universal. Mas a forma de explicá-la, defendê-la e colocá-la em prática precisa dialogar com a história de cada sociedade. Olhar para a África, nesse sentido, também é uma forma de compreender melhor o Brasil e reconhecer que o trabalho de traduzir a liberdade para a nossa própria experiência ainda precisa ser feito por nós.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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