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Eleições

Política não é concurso de popularidade

Em 2026, talvez devamos perguntar menos quem consegue desagradar a menos pessoas e mais quais convicções cada candidato está disposto a sustentar quando elas custam votos.

Eduardo Vasconcelos

Eduardo Vasconcelos

11/9/2026 17:00

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Há uma pergunta que eu gostaria de fazer a cada candidato à Presidência da República em 2026. Não perguntaria primeiro sobre rejeição, intenção de voto ou possibilidade de chegar ao segundo turno. Perguntaria algo aparentemente mais simples:

Qual posição política o senhor está disposto a defender mesmo sabendo que poderá perder votos por causa dela?

Parece uma pergunta estranha em uma campanha eleitoral. Afinal, candidatos entram numa eleição para ganhar votos, não para perdê-los.

Mas é justamente por isso que considero a pergunta importante.

Porque existe uma diferença fundamental entre tentar convencer o maior número possível de pessoas sobre aquilo em que se acredita e descobrir aquilo em que se deve acreditar para agradar ao maior número possível de pessoas.

As duas coisas podem produzir votos.

Só a primeira, porém, necessariamente produz política.

E talvez este seja um dos problemas silenciosos da eleição presidencial de 2026.

Quais posições um candidato está disposto a defender mesmo sabendo que poderá perder votos por causa delas?

Quais posições um candidato está disposto a defender mesmo sabendo que poderá perder votos por causa delas?Magnific

Quando a rejeição começa a governar a campanha

Vivemos a política da rejeição.

Pesquisas não perguntam apenas em quem o eleitor pretende votar. Perguntam também em quem ele não votaria de maneira alguma. Campanhas acompanham diariamente intenção de voto, rejeição, aprovação, sentimentos nas redes sociais, desempenho por faixa etária, renda, escolaridade, religião, região e inúmeras outras variáveis.

Não há nada de errado nisso.

Seria ingenuidade imaginar uma campanha presidencial moderna funcionando sem pesquisas, estatística, comunicação digital, segmentação eleitoral e estratégia.

O problema começa em outro lugar.

Começa quando esses instrumentos deixam de ajudar o candidato a comunicar suas convicções e passam a ajudar a campanha a escolher suas convicções.

É uma inversão pequena na aparência e enorme nas consequências.

Primeiro, o candidato suaviza uma palavra.

Depois evita determinado assunto.

Em seguida percebe que uma posição produz rejeição em determinado grupo.

Recua um pouco.

Uma segunda posição incomoda outro segmento.

Recua novamente.

A equipe de comunicação recomenda que seja mais genérico.

E então aparecem aquelas palavras extraordinariamente confortáveis da política: união, diálogo, desenvolvimento, responsabilidade, justiça, segurança, prosperidade, equilíbrio, futuro.

Quem seria contra?

Eu também sou a favor de todas elas.

O problema começa quando perguntamos: como?

É nessa pequena palavra que a política reaparece.

A política começa quando aparecem os verbos

Tenho cada vez mais a impressão de que nossas campanhas estão ficando cheias de substantivos e pobres em verbos.

Todos defendem desenvolvimento.

Mas desenvolver como?

Todos querem responsabilidade fiscal.

Mas será necessário aumentar receita, reduzir despesa ou combinar as duas coisas? Onde?

Todos querem educação de qualidade.

Quanto custará? Quem financiará? O que será prioridade? Como serão valorizados os professores?

Todos defendem segurança pública.

Com quais instrumentos? Qual será a responsabilidade da União? Qual política penitenciária? Quanto será destinado à inteligência? Como combinar repressão, prevenção e direitos individuais?

Todos dizem defender justiça social.

Mas justiça social exige decisões distributivas. Quem contribuirá mais? Quem receberá mais? Que política será ampliada? Qual será reduzida?

É por isso que eu diria que a política começa verdadeiramente quando aparecem os verbos.

Tributar. Investir. Cortar. Regulamentar. Desregulamentar. Privatizar. Estatizar. Subsidiar. Revogar. Construir. Proibir. Permitir. Reformar.

Substantivos aproximam.

Verbos dividem.

E governar é conjugar verbos.

Governar para todos não é agradar a todos

Há uma frase que ouviremos muitas vezes até outubro: "Vou governar para todos os brasileiros".

Espero que sim.

É obrigação de qualquer presidente.

Depois de eleito, o presidente não governa apenas para quem votou nele. Governa sob a Constituição para uma sociedade inteira. Deve preservar os direitos daqueles que o apoiaram e daqueles que o rejeitaram. Precisa aceitar oposição, fiscalização, imprensa crítica, manifestações, decisões judiciais e a existência de pessoas que continuarão considerando seu governo ruim.

Mas há uma confusão que precisamos desfazer.

Governar para todos não significa agradar a todos.

Na verdade, é impossível.

Um orçamento público é uma gigantesca máquina de escolhas.

Colocar mais dinheiro em determinada área significa estabelecer uma prioridade. Alterar impostos significa distribuir de maneira diferente o custo do Estado. Modificar a legislação trabalhista altera relações entre capital e trabalho. Endurecer uma regra ambiental produz determinados efeitos econômicos; flexibilizá-la produz outros. Reformar a Previdência redistribui custos entre grupos e gerações.

Até não fazer nada favorece a manutenção de determinada distribuição existente.

Não existe política pública neutra em seus efeitos.

Portanto, um candidato que promete simultaneamente ampliar serviços públicos, reduzir impostos, aumentar investimentos, preservar todos os benefícios, equilibrar as contas e não contrariar nenhum grupo relevante talvez não esteja oferecendo conciliação.

Talvez esteja apenas deixando a conta para depois da eleição.

O direito democrático de desagradar

Chego então a um ponto que considero fundamental: um político democrático precisa aprender a desagradar democraticamente.

Isso não significa hostilizar.

Não significa cultivar inimigos.

Muito menos significa transformar divergência política em ódio pessoal.

Significa reconhecer algo que às vezes parece constranger nossa política contemporânea: pessoas que defendem projetos diferentes têm o direito de discordar profundamente umas das outras.

E isso é saudável.

Chantal Mouffe chamou atenção há muito tempo para a importância de não imaginarmos a democracia como uma máquina destinada a eliminar todo conflito. Uma sociedade plural contém interesses, identidades e projetos que não podem simplesmente ser dissolvidos por consenso. O desafio democrático é transformar inimigos a serem eliminados em adversários legítimos, submetidos às mesmas regras do jogo democrático (Mouffe, 2005).

A distinção é preciosa para o Brasil de 2026.

O adversário não precisa gostar de mim.

Eu não preciso gostar das ideias dele.

Preciso reconhecer seu direito de defendê-las.

E ele, o meu.

Parece pouco. É imenso.

Porque existe um abismo entre dizer "você não deveria existir politicamente" e dizer "considero sua proposta profundamente errada e farei política para derrotá-la".

A primeira afirmação ameaça a democracia.

A segunda é a própria democracia funcionando.

Respeitar o adversário não significa pedir sua aprovação

Esse ponto merece ser levado até suas últimas consequências.

Criamos, em alguns ambientes políticos, uma espécie de fetiche da aprovação adversária.

Se o outro lado elogia determinada posição, isso passa a ser apresentado como prova de equilíbrio.

Às vezes pode ser.

Mas não necessariamente.

Dependendo da posição que se ocupa e dos interesses que se representa, ser criticado pelo adversário pode significar apenas que existe uma divergência política verdadeira.

Se um candidato propõe aumentar a tributação sobre determinado segmento econômico, seria surpreendente exigir que todos os atingidos elogiassem a medida.

Se outro pretende reduzir fortemente determinadas funções do Estado, é natural que grupos que consideram essas políticas indispensáveis se oponham.

Se alguém propõe uma legislação ambiental mais rigorosa, haverá setores contrariados.

Se pretende flexibilizá-la, outros serão.

Por que imaginaríamos que política democrática pudesse ocorrer sem produzir descontentamento?

O problema não é desagradar.

O problema é como se reage ao desagrado.

Um democrata ouve.

Argumenta.

Negocia.

Pode corrigir a proposta.

Pode reconhecer que estava errado.

Pode construir uma solução intermediária.

Mas não precisa transformar cada crítica em ordem para abandonar aquilo em que acredita.

Moderação não é vazio

Faço questão de estabelecer essa diferença porque não estou defendendo radicalismo.

Acredito profundamente na moderação democrática.

Mas moderação não é ausência de posição.

O moderado pode possuir convicções fortes e, ao mesmo tempo, reconhecer limites institucionais, aceitar compromissos e respeitar o adversário.

O pragmático adapta instrumentos à realidade.

O negociador constrói maiorias.

O democrata aceita que ninguém possui monopólio da verdade política.

O oportunista é outra coisa.

Ele adapta as próprias convicções à conveniência do momento.

Essa diferença é decisiva.

Um presidente pode negociar como realizará determinada política sem abandonar necessariamente por que pretende realizá-la.

Pode aceitar gradualidade.

Pode modificar instrumentos.

Pode incorporar propostas do adversário.

Pode mudar de posição diante de novas evidências — e considero isso sinal de inteligência, não de fraqueza.

Mas precisamos conseguir identificar alguma coisa que permaneça.

Algum princípio.

Alguma prioridade.

Alguma concepção de país.

Se cada pesquisa eleitoral produz uma nova convicção, talvez já não estejamos diante de pragmatismo.

Estamos diante de marketing.

O curioso cenário de 2026

A eleição que estamos vivendo oferece um laboratório particularmente interessante.

O prazo das convenções terminou em 5 de agosto. Entre os partidos e federações com representação no Congresso, seis optaram pela neutralidade presidencial e liberaram suas estruturas estaduais para composições diferentes. Em vários casos, alianças locais não reproduzem uma posição nacional uniforme (Congresso em Foco, 2026a).

Não considero correto concluir automaticamente que isso seja fraqueza.

Pode ser justamente o contrário.

Para algumas legendas, permanecer fora de uma coligação presidencial pode ser uma estratégia eleitoral extremamente racional: preservar alianças estaduais, maximizar bancadas, acomodar interesses regionais e manter abertas as portas para uma relação futura com quem chegar ao Palácio do Planalto.

O próprio mapa dos palanques mostra como a neutralidade nacional convive com escolhas bastante concretas nos estados (Congresso em Foco, 2026b).

Portanto, o problema é mais sofisticado.

Uma estratégia pode ser excelente para o partido e ainda assim levantar uma questão para a democracia.

O que é racional para maximizar o poder de uma legenda é necessariamente bom para a representação do eleitor?

Essa pergunta me interessa muito mais do que simplesmente acusar determinado partido de incoerência.

Se uma legenda consegue eleger grande bancada sem dizer ao eleitor qual projeto presidencial prefere, poderá chegar ao dia seguinte da eleição com enorme capacidade de negociação.

Do ponto de vista do poder, pode ser genial.

Mas o cidadão continua autorizado a perguntar:

qual projeto de país esse partido defende?

Treze candidaturas e uma pergunta

O cenário presidencial também se consolidou.

Foram apresentados ao TSE 13 pedidos de registro de candidatura à Presidência da República. Até 9 de setembro, nove chapas já haviam sido validadas pela Justiça Eleitoral, enquanto quatro registros ainda aguardavam julgamento (TSE, 2026a; TSE, 2026b).

Temos, portanto, pluralidade de candidaturas.

Mas quantidade de candidatos não significa necessariamente pluralidade de projetos claramente compreensíveis.

Essa distinção é importante.

Podemos ter treze nomes e poucas alternativas programáticas inteligíveis.

Ou podemos ter diferenças reais, mas escondidas sob a linguagem publicitária das campanhas.

Daqui até 4 de outubro, data do primeiro turno, deveríamos prestar atenção menos à capacidade dos candidatos de pronunciar palavras agradáveis e mais à capacidade de responder perguntas desagradáveis.

O que farão quando dois objetivos desejáveis forem incompatíveis?

Essa é a pergunta da política real.

Não existe governo sem conflito de prioridades

Queremos gastar mais em saúde e educação.

Ótimo.

Mas com qual receita?

Queremos reduzir impostos.

Ótimo.

Quais despesas diminuirão?

Queremos proteger a indústria nacional.

Como faremos isso sem produzir custos para consumidores ou conflitos comerciais?

Queremos acelerar a transição energética.

Quem financiará os investimentos?

Queremos aumentar a segurança.

Qual será a combinação entre polícia, inteligência, sistema penitenciário e prevenção?

Queremos preservar o meio ambiente e expandir a produção.

O que acontecerá quando os dois objetivos entrarem concretamente em conflito?

A política começa exatamente onde termina a possibilidade de responder "sim" para todo mundo.

Governar é administrar escassez, prioridades, conflitos distributivos e escolhas intertemporais.

Não há inteligência artificial, marqueteiro, pesquisa qualitativa ou algoritmo eleitoral capaz de eliminar essa realidade.

Pode escondê-la durante a campanha.

No governo, ela reaparece.

O candidato que agrada a todos antes da eleição governará para quem depois dela?

Essa talvez seja a pergunta que mais me inquieta.

Quanto maior a ambiguidade utilizada para conquistar o poder, menor pode ser a clareza da autorização democrática para exercê-lo.

O eleitor não escolhe apenas uma pessoa.

Concede poder.

E essa concessão deveria conter algum grau de previsibilidade sobre o uso desse poder.

Se um candidato evita explicar suas posições sobre política fiscal, tributação, previdência, educação, segurança, meio ambiente, relações trabalhistas e papel do Estado porque qualquer resposta clara produziria rejeição, ele pode até realizar uma campanha brilhante.

Mas, se vencer, qual programa exatamente terá sido aprovado?

Depois da posse, a realidade não aceitará slogans como resposta.

O orçamento chegará.

O Congresso pressionará.

Governadores pressionarão.

Empresários pressionarão.

Trabalhadores pressionarão.

Mercados reagirão.

Movimentos sociais cobrarão.

Crises acontecerão.

E então aquele candidato que passou meses evitando escolher será obrigado a escolher.

Só que agora terá a caneta.

Convicção não é extremismo

Talvez parte dessa dificuldade venha de uma confusão produzida pelos últimos anos.

Depois de tanta polarização, começamos às vezes a tratar qualquer convicção forte como extremismo.

É um erro perigoso.

Uma democracia precisa de diferenças.

Pode haver liberais, conservadores, social-democratas, socialistas, desenvolvimentistas, ambientalistas e outras correntes disputando legitimamente o governo.

Podem divergir profundamente sobre impostos, propriedade, Estado, costumes, segurança, trabalho e desenvolvimento.

Nada disso, por si só, ameaça a democracia.

O limite aparece quando alguém deixa de reconhecer direitos ao adversário, pretende destruir as regras que possibilitam a altrnância de poder ou transforma divergência em autorização para violência.

Democracia saudável não significa convicções fracas.

Significa convicções fortes submetidas a regras fortes.

Essa diferença precisa voltar ao centro do debate brasileiro.

A campanha eleitoral como mercado de aprovação

Há outro risco contemporâneo que não podemos ignorar.

As ferramentas de comunicação política estão se tornando extraordinariamente sofisticadas.

Campanhas conseguem testar mensagens, identificar emoções, segmentar públicos e adaptar discursos em velocidade que seria inimaginável poucas eleições atrás.

Isso pode melhorar a comunicação democrática.

Mas também pode criar uma espécie de candidato modular.

Para cada público, uma ênfase.

Para cada segmento, uma palavra.

Para cada medo, uma resposta.

Para cada esperança, uma promessa.

Até que grupos diferentes passem a enxergar projetos diferentes dentro do mesmo candidato.

Não é necessário mentir explicitamente.

Basta selecionar cuidadosamente o que cada público verá.

A política começa então a se comportar como mercado: não se oferece necessariamente aquilo que se considera melhor para a sociedade; oferece-se aquilo que o consumidor político demonstrou maior disposição para comprar.

Mas cidadão não é consumidor.

E presidente não é produto.

Uma eleição não deveria escolher a embalagem mais capaz de agradar ao maior número de clientes.

Estamos entregando poder de Estado.

Cinco perguntas aos candidatos

Por isso, eu mudaria algumas perguntas feitas aos presidenciáveis.

Perguntaria:

Primeira: quais são as três posições que o senhor considera importantes o suficiente para defendê-las mesmo que lhe custem votos?

Segunda: qual medida de seu programa provavelmente desagradará a uma parcela relevante da sociedade?

Terceira: quais princípios são inegociáveis e quais instrumentos o senhor admite negociar?

Quarta: que interesses concretos serão contrariados para que seu programa possa ser executado?

Quinta: qual decisão o senhor tomaria se tivesse convicção de que é necessária ao país, mas uma pesquisa mostrasse que 60% da população momentaneamente se opõe a ela?

Eu gostaria muito de ouvir as respostas.

Não porque espere governantes indiferentes à opinião pública.

Quero exatamente o contrário: governantes que escutem.

Mas escutar não significa obedecer mecanicamente.

Pesquisa é instrumento para conhecer a sociedade.

Não deveria transformar-se em terceirização da consciência política.

Há posições pelas quais vale a pena perder votos?

A pergunta parece contraditória, mas volto a ela.

Há posições pelas quais vale a pena perder votos?

Para um candidato que deseja vencer, talvez a resposta imediata seja não.

Para um político que pretende representar alguma coisa, a resposta precisa ser sim.

Porque existe uma diferença entre querer vencer com um projeto e construir qualquer projeto necessário para vencer.

No primeiro caso, os votos são meios pelos quais determinada proposta de governo busca legitimidade.

No segundo, as propostas tornam-se meios utilizados para conseguir votos.

A inversão muda tudo.

Quando isso acontece, o programa eleitoral deixa de ser compromisso e se aproxima de uma ferramenta de aquisição de eleitor.

Depois nos surpreendemos com a crise de representação.

Talvez não devêssemos.

A coragem de ser desaprovado

Existe uma qualidade política sobre a qual falamos pouco: a capacidade de suportar democraticamente a desaprovação.

Não estou falando de arrogância.

Um governante que não escuta ninguém é perigoso.

Também não defendo teimosia.

Persistir no erro diante de evidências não é convicção; é irresponsabilidade.

Estou falando de algo diferente.

Ouvir argumentos.

Considerar evidências.

Negociar.

Reavaliar.

E, depois disso, tomar uma decisão sabendo que algumas pessoas continuarão discordando.

Essa é uma das solidões inevitáveis do poder.

Governar não é descobrir todos os dias para onde a maioria está caminhando e correr rapidamente para ocupar a frente da fila.

Liderança política também consiste em explicar decisões difíceis.

Convencer.

Assumir custos.

Responder pelas consequências.

E, quatro anos depois, submeter-se novamente ao julgamento popular.

É isso que transforma poder em responsabilidade.

Política não é concurso de popularidade

Não precisamos escolher entre dois extremos igualmente ruins.

De um lado, a política do inimigo, na qual quem pensa diferente precisa ser moralmente destruído, silenciado ou excluído.

Do outro, a política da aprovação universal, na qual ninguém pode ser contrariado e toda convicção precisa ser diluída até caber em qualquer eleitorado.

Existe uma alternativa.

É mais difícil.

Chama-se política democrática.

Nela, respeitamos pessoas e confrontamos ideias.

Negociamos sem comercializar todas as convicções.

Mudamos de opinião quando os fatos exigem, não simplesmente quando uma pesquisa recomenda.

Reconhecemos que o adversário possui direitos, mas não exigimos que ele goste de nós.

Governamos para todos sem fingir que todos possuem os mesmos interesses.

E aceitamos uma verdade que talvez esteja ficando inconveniente demais para a política contemporânea:

quem escolhe inevitavelmente desagrada alguém.

A democracia não precisa de candidatos que odeiem seus adversários.

Mas também não precisa de candidatos desesperados para serem amados por eles.

Precisa de homens e mulheres capazes de dizer ao adversário: reconheço seu direito de discordar de mim; ouvirei seus argumentos; respeitarei seus direitos; negociarei quando houver espaço para negociação; admitirei meus erros quando estiver errado.

Mas não fingirei acreditar no que não acredito apenas para conquistar sua aprovação.

Em 2026, cercados por pesquisas, algoritmos, estratégias de segmentação, métricas de engajamento e cálculos de rejeição, talvez seja hora de recuperar uma ideia elementar.

Política não é concurso de popularidade.

E quem pretende governar o Brasil precisa estar preparado não apenas para receber aplausos.

Precisa aprender a conviver, democraticamente, com as vaias.

Porque o verdadeiro teste de uma convicção política não acontece quando defendê-la rende votos.

Acontece quando defendê-la custa votos — e ainda assim o candidato consegue explicar ao eleitor por que acredita que ela é necessária.

Referências

CONGRESSO EM FOCO. Convenções encerradas: veja o candidato escolhido por cada partido. Congresso em Foco, Brasília, DF, 5 ago. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/121048/convencoes-encerradas-veja-o-candidato-escolhido-por-cada-partido. Acesso em: 10 set. 2026.

CONGRESSO EM FOCO. Mesmo neutros, União-PP e Republicanos dão mais espaço a Flávio. Congresso em Foco, Brasília, DF, 12 ago. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/amp/noticia/121172/mesmo-neutros-uniao-pp-e-republicanos-dao-mais-espaco-a-flavio. Acesso em: 10 set. 2026.

CONGRESSO EM FOCO. Por que o Centrão não escolheu um candidato a presidente? Congresso em Foco, Brasília, DF, 17 ago. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/amp/artigo/121326/por-que-o-centrao-nao-escolheu-um-candidato-a-presidente. Acesso em: 10 set. 2026.

MOUFFE, Chantal. Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, n. 25, p. 11-23, nov. 2005. DOI: 10.1590/S0104-44782005000200003.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). TSE valida seis registros de candidatura à Presidência da República. Brasília, DF: TSE, 2 set. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/tse-valida-seis-registros-de-candidatura-a-presidencia-da-republica. Acesso em: 10 set. 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). TSE valida mais três registros de candidatura à Presidência da República. Brasília, DF: TSE, 9 set. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/tse-valida-mais-tres-registros-de-candidatura-a-presidencia-da-republica. Acesso em: 10 set. 2026.


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