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Eleições
23/9/2026 17:00
Há uma imagem antiga que atravessou séculos e permaneceu no imaginário ocidental: a de alguém que, diante de uma decisão difícil, lava as mãos.
O gesto pretende dizer: isso não é mais problema meu.
Talvez poucas imagens sejam tão adequadas para pensarmos o comportamento do eleitor brasileiro às vésperas das eleições de 2026.
Estamos acostumados a discutir a responsabilidade dos políticos. E devemos continuar fazendo isso. Cobramos dos candidatos aquilo que prometem, dos partidos aqueles que apresentam à sociedade, da Justiça Eleitoral a integridade do processo, da imprensa a qualidade da informação e das plataformas digitais responsabilidade sobre ambientes capazes de amplificar conteúdos em escala extraordinária.
Mas existe uma pergunta que fazemos com muito menos frequência:
e a responsabilidade de quem escolhe?
No próximo dia 4 de outubro, 158.745.463 brasileiros estarão aptos a votar. Serão escolhidos presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais. Na eleição para o Senado, estarão em disputa dois terços das cadeiras da Casa. Não se trata, portanto, apenas da escolha de um presidente. O eleitor brasileiro participará da definição de uma parcela enorme da estrutura política que governará o país e os estados nos próximos anos.
A dimensão dessa escolha deveria nos obrigar a discutir não apenas quem deseja receber o voto, mas também como aquele que possui o voto está decidindo entregá-lo.
É uma conversa mais desconfortável.
Porque olhar para os políticos é relativamente fácil.
Olhar para o eleitor significa, em alguma medida, olhar para nós mesmos.
A democracia distribui poder — e também responsabilidade
Existe um cuidado indispensável nesta discussão.
O eleitor não pode ser responsabilizado por tudo aquilo que o candidato fará depois de eleito. Governantes podem descumprir promessas, mudar posições, formar alianças inesperadas, praticar atos que seus próprios eleitores rejeitariam ou enfrentar circunstâncias que simplesmente não existiam no momento da eleição.
Seria absurdo estabelecer uma espécie de responsabilidade retroativa segundo a qual cada eleitor responderia moralmente por todos os atos futuros daquele em quem votou.
Não é disso que estou falando.
A distinção necessária é outra:
o eleitor não responde por tudo o que um governante fará depois de eleito. Mas não pode lavar as mãos dos critérios que utilizou para ajudá-lo a chegar ao poder.
Essa diferença é fundamental.
Democracia não significa apenas o direito de escolher. Significa receber uma parcela do poder de decidir quem exercerá o poder público.
E poder, por menor que seja a parcela individual, implica responsabilidade.
Um voto isolado parece pequeno diante de quase 159 milhões de eleitores. Mas a democracia não conhece um personagem chamado "eleitorado" que aparece misteriosamente no dia da eleição e toma decisões sozinho.
O eleitorado somos nós.
Milhões de decisões individuais tornam-se uma decisão coletiva.
É por isso que existe algo intelectualmente confortável — e politicamente perigoso — na frase que ouvimos tantas vezes depois das eleições:
"Eu não tenho nada a ver com isso."
Tem, sim.
Não necessariamente com tudo aquilo que aconteceu depois. Mas certamente com a parte da decisão que lhe coube.
Antes de perguntar em quem votar, talvez devêssemos perguntar como estamos escolhendo
As campanhas eleitorais são construídas para responder a uma pergunta:
em quem você vai votar?
Talvez a democracia precise que façamos outra antes:
por que você vai votar nessa pessoa?
Parece uma diferença pequena. Não é.
A primeira pergunta procura um nome.
A segunda procura um critério.
E eleições democráticas dependem dos dois.
Uma pessoa pode votar porque concorda com determinada política econômica. Outra pode priorizar educação. Segurança pública. Saúde. Combate à desigualdade. Responsabilidade fiscal. Direitos individuais. Meio ambiente. Desenvolvimento regional. Valores morais. Capacidade administrativa. Experiência. Renovação.
Essas diferenças fazem parte da democracia.
Não precisamos pensar da mesma maneira para escolher responsavelmente.
O problema aparece quando o critério deixa de ser aquilo que acreditamos sobre o país e passa a ser simplesmente a identidade do grupo ao qual sentimos pertencer.
Nesse momento, o candidato deixa de ser representante.
Transforma-se em extensão de nós mesmos.
E então acontece algo perigoso: criticar o político passa a ser percebido como criticar o eleitor que votou nele.
A política vira identidade.
E identidade, quando ameaçada, costuma reagir antes de raciocinar.
Quando o eleitor vira torcedor
Talvez uma das maiores deformações do comportamento político contemporâneo seja a transformação do eleitor em torcedor.
O torcedor não avalia seu time como avalia o adversário.
Ele não precisa fazê-lo. Futebol é paixão.
Democracia não pode funcionar segundo a mesma lógica.
Quando meu candidato erra e eu imediatamente procuro uma justificativa, mas quando o adversário comete comportamento semelhante eu o considero imperdoável, talvez eu já não esteja utilizando um critério político.
Estou utilizando uma camisa.
A pergunta deixou de ser:
"Isso é aceitável?"
E passou a ser:
"Quem fez?"
Esse mecanismo é particularmente destrutivo porque dissolve o próprio significado de princípio.
Um princípio só merece esse nome quando continua valendo mesmo quando sua aplicação contraria nossos interesses.
Se corrupção é errada, precisa ser errada quando envolve adversários e aliados.
Se mentira é condenável, não pode tornar-se aceitável porque favorece meu candidato.
Se abuso de poder é perigoso, continua perigoso quando quem ocupa o poder pertence ao campo político com o qual simpatizo.
Se as instituições merecem respeito quando produzem decisões das quais gosto, não podem automaticamente perder legitimidade sempre que produzem decisões das quais não gosto.
Isso não exige neutralidade política.
Ninguém precisa ser neutro.
Exige apenas coerência.
O eleitor democrático pode ter lado. O que ele não deveria perder é o critério.
Seu candidato não precisa ser seu herói
Talvez precisemos recuperar uma ideia simples: políticos são representantes, não objetos de devoção.
Você pode votar em alguém sem considerá-lo extraordinário.
Pode apoiar determinadas propostas e rejeitar outras.
Pode votar e, no dia seguinte, começar a fiscalizar.
Pode reconhecer um acerto de quem jamais receberia seu voto.
Pode reconhecer um erro de quem recebeu.
Nada disso representa traição.
Ao contrário.
Talvez seja exatamente isso que diferencia o cidadão do seguidor.
A democracia representativa não exige fidelidade pessoal ao representante. Ela pressupõe que o mandato recebido continuará sujeito ao escrutínio de quem concedeu temporariamente o poder.
O voto não é um casamento.
Muito menos uma procuração em branco.
É uma autorização temporária para exercer poder público.
Quando esquecemos isso, uma inversão curiosa acontece: em vez de o político precisar justificar seus atos ao eleitor, o eleitor começa a justificar os atos do político perante os outros.
Nesse momento, já não sabemos muito bem quem está representando quem.
Compartilhar também é participar da eleição
Em 2026, existe ainda uma dimensão que nossos avós não precisavam enfrentar na mesma escala.
O eleitor não é apenas receptor da campanha.
Também se tornou distribuidor dela.
Um cidadão recebe um vídeo no WhatsApp e encaminha.
Vê uma acusação em uma rede social e compartilha.
Recebe uma imagem, uma gravação, uma estatística ou uma frase atribuída a alguém e a distribui para dezenas de pessoas.
Em poucos segundos, cada indivíduo pode tornar-se um pequeno veículo de comunicação.
Isso amplia nossa liberdade de expressão.
Mas amplia também nossa responsabilidade.
As próprias normas eleitorais de 2026 precisaram incorporar novas medidas relacionadas à desinformação e ao uso de inteligência artificial. Conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou significativamente alterados por IA estão sujeitos a regras específicas de identificação, e determinadas utilizações envolvendo candidatos ou pessoas públicas recebem restrições adicionais nas proximidades da votação.
A tecnologia tornou sofisticada a possibilidade de fabricação.
Mas nenhuma tecnologia apertará sozinha o botão "encaminhar" em nosso telefone.
Existe uma responsabilidade que continua humana.
Antes de compartilhar algo politicamente devastador sobre alguém, talvez uma pergunta devesse tornar-se hábito:
eu sei que isso é verdadeiro ou apenas quero que seja?
A diferença é gigantesca.
Porque uma informação falsa que confirma aquilo que já pensamos costuma encontrar muito menos resistência dentro de nós.
É fácil desconfiar da mentira que beneficia o adversário.
Difícil é desconfiar daquela que beneficia o nosso lado.
Por isso, responsabilidade informacional também é responsabilidade democrática.
E há aqueles que simplesmente desistiram
Existe, porém, outro tipo de eleitor.
Ele não grita.
Não compartilha notícias falsas.
Não transforma político em herói.
Não passa o dia brigando nas redes sociais.
Ele simplesmente desistiu.
"Não quero saber de política."
"São todos iguais."
"Não discuto política."
"Não adianta nada."
"Vou decidir na hora."
Talvez seja justamente aqui que precisemos recuperar uma reflexão frequentemente associada a Martin Luther King Jr.: a preocupação não estaria apenas no barulho produzido por quem pratica injustiças, mas também na omissão daqueles que poderiam reagir a elas.
A formulação popular costuma aparecer como "o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons". É prudente não tratá-la como transcrição literal de King. Mas a ideia que ela sintetiza permanece poderosa.
O espaço público não fica vazio.
Quando alguém razoável decide abandoná-lo porque está cansado do conflito, outra pessoa continuará ocupando esse espaço.
Quando cidadãos informados decidem que política é desagradável demais para merecer sua atenção, os mais mobilizados não tomam a mesma decisão.
Quando pessoas capazes de ponderar diferenças, examinar argumentos e tolerar divergências se retiram da conversa, a conversa não termina.
Ela apenas passa a ocorrer sem elas.
Esse talvez seja um dos paradoxos mais perigosos da moderação política: quando os moderados confundem moderação com ausência, deixam de moderar qualquer coisa.
Não estou defendendo que todos se tornem militantes.
Uma democracia saudável não precisa transformar cada cidadão em ativista permanente.
Mas existe enorme distância entre militância e indiferença.
A democracia não exige que o eleitor ame a política.
Exige apenas que compreenda que sua indiferença também produz consequências políticas.
O candidato perfeito não existe
Há ainda outra maneira de lavar as mãos: exigir da democracia aquilo que nenhuma democracia pode entregar.
O candidato perfeito.
Aquele que pensa exatamente como pensamos.
Que possui nossa visão econômica, nossos valores sociais, nossas prioridades administrativas, nossa compreensão moral, nossa leitura internacional e ainda apresenta o temperamento que gostaríamos.
Provavelmente essa pessoa não existe.
E, se existir, talvez sejamos nós mesmos.
Democracia representativa não é um sistema para encontrar nossa reprodução política.
É um mecanismo para escolher entre alternativas reais.
Isso significa comparar.
Significa estabelecer prioridades.
Significa reconhecer defeitos.
Significa avaliar trajetórias.
Significa perguntar quais divergências considero toleráveis e quais considero fundamentais.
Significa, sobretudo, abandonar a fantasia confortável de que somente seríamos responsáveis por uma escolha se todas as opções fossem exatamente como gostaríamos.
A política acontece no território da imperfeição.
É justamente por isso que exige julgamento.
Em 2026, serão seis escolhas
Esse ponto merece atenção especial.
No dia 4 de outubro, o eleitor não escolherá apenas o presidente da República.
A urna apresentará escolhas para deputado federal, deputado estadual ou distrital, duas escolhas para senador, governador e presidente.
Serão seis votos.
Ainda assim, grande parte da conversa pública continuará concentrada na Presidência.
Isso cria uma distorção importante.
O Congresso Nacional não é cenário da política presidencial. É parte do poder político brasileiro.
Deputados votam leis, fiscalizam o Executivo, participam das decisões orçamentárias e deliberam sobre mudanças que podem afetar gerações.
Senadores exercem competências constitucionais próprias e, em 2026, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado.
Governadores administrarão estados inteiros.
As assembleias legislativas continuarão tomando decisões que afetam diretamente a vida de milhões de pessoas.
Escolher cuidadosamente um candidato a presidente e tratar os demais votos como detalhes é compreender apenas uma parte da democracia brasileira.
Talvez uma das perguntas mais simples que cada eleitor pudesse fazer antes de outubro fosse:
eu sei em quem pretendo votar para todos os cargos?
Não é uma pergunta sofisticada.
Mas talvez seja profundamente democrática.
O voto por raiva continua sendo um voto
Sentimentos fazem parte da política.
Seria ingênuo imaginar um eleitor puramente racional calculando propostas como quem resolve uma equação.
Votamos também movidos por esperança, medo, confiança, identificação, indignação, frustração e memória.
O problema não está em sentir.
Está em permitir que um sentimento dispense o julgamento.
A raiva pode indicar que alguma coisa está errada.
Mas ela não diz automaticamente qual solução está certa.
O ressentimento pode explicar uma escolha.
Não necessariamente justificá-la.
O medo pode alertar para um risco real.
Também pode ser fabricado e explorado eleitoralmente.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes de 2026 seja:
estou escolhendo alguém ou apenas tentando derrotar alguém?
As duas coisas podem coexistir.
Mas não são iguais.
Uma democracia permanentemente organizada apenas pela rejeição corre o risco de produzir eleitores que sabem perfeitamente quem odeiam, mas já não conseguem explicar claramente o que desejam construir.
A urna não absolve ninguém
No dia da eleição, haverá um instante profundamente individual.
Apesar dos comícios, debates, vídeos, pesquisas, influenciadores, familiares, amigos, igrejas, sindicatos, empresas, partidos, algoritmos e grupos de WhatsApp, cada pessoa estará sozinha diante da urna.
É uma imagem poderosa.
Porque naquele instante ninguém poderá apertar "confirma" por ela.
A democracia entrega ao cidadão alguns segundos de soberania política.
Mas seria um erro imaginar que a responsabilidade termina ali.
O botão "confirma" encerra o voto.
Não encerra a cidadania.
Depois da eleição, começa outra responsabilidade: acompanhar.
Cobrar.
Fiscalizar.
Reconhecer acertos.
Apontar erros.
E, principalmente, não utilizar dois padrões morais diferentes — um para quem recebeu nosso voto e outro para quem recebeu o voto do vizinho.
O eleitor que fiscaliza apenas o adversário e perdoa automaticamente aquele em quem votou deixa de funcionar como fiscal do poder.
Transforma-se em defensor dele.
Antes de olhar para os candidatos, olhe para os seus critérios
As próximas semanas serão tomadas pela disputa eleitoral.
Candidatos tentarão convencer.
Partidos tentarão mobilizar.
Pesquisas serão divulgadas.
Acusações aparecerão.
Vídeos circularão.
Debates produzirão frases de efeito.
Algoritmos continuarão selecionando aquilo que provavelmente manterá nossa atenção.
E haverá cada vez mais barulho.
Talvez, justamente por isso, seja necessário algum silêncio.
Não o silêncio da omissão.
O silêncio da reflexão.
Aquele pequeno intervalo entre receber uma informação e compartilhá-la.
Entre sentir indignação e transformá-la em julgamento.
Entre gostar de um candidato e justificar tudo o que ele faz.
Entre odiar outro e acreditar imediatamente em tudo o que dizem contra ele.
Entre ouvir alguém dizer em quem devemos votar e perguntar a nós mesmos por quê.
Em 2026, cobraremos muito dos candidatos.
Devemos cobrar.
Cobraremos dos partidos.
Devemos cobrar.
Cobraremos da Justiça Eleitoral, da imprensa, das plataformas digitais e das instituições.
Também devemos cobrar.
Mas talvez esteja chegando a hora de acrescentarmos mais um personagem à lista de responsáveis pela qualidade da democracia brasileira.
Nós mesmos.
Porque democracia não é apenas o direito de colocar alguém no poder.
É a responsabilidade de pensar antes de fazê-lo.
O eleitor não responde por tudo aquilo que o eleito fará.
Não pode prever o futuro.
Não controla todas as circunstâncias.
Não conhece todas as decisões que serão tomadas.
Mas pode escolher seus critérios.
Pode verificar antes de compartilhar.
Pode exigir de seus aliados aquilo que exige de seus adversários.
Pode recusar a transformação de políticos em ídolos.
Pode conhecer os candidatos aos diferentes cargos.
Pode reconsiderar.
Pode fiscalizar.
Pode admitir que errou.
E pode mudar o voto na eleição seguinte.
É pouco diante da complexidade do Brasil?
Talvez.
Mas é exatamente a parcela de poder que a democracia colocou em nossas mãos.
E quem recebeu uma parcela do poder de escolher não pode, depois, simplesmente lavar as mãos de sua responsabilidade democrática.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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