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Eleições 2026

A esquerda precisa disputar o futuro

Lideranças jovens ganham projeção nas urnas e nas redes, mas enfrentam dificuldades para conquistar espaço nas decisões partidárias e construir um projeto político para além de Lula.

Nathália Queiroz

Nathália Queiroz

13/10/2026 16:29

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A esquerda brasileira não sofre exatamente por falta de novos nomes. O desafio é saber se está disposta a transformá-los em protagonistas, conectá-los, dividir poder e construir com eles um projeto capaz de falar mais sobre o futuro do que sobre o passado.

Erika Hilton alcançou uma votação histórica para a Câmara. Ana Elisa, aos 21 anos, ultrapassou meio milhão de votos em Minas Gerais. Fábio Felix teve votação expressiva no Distrito Federal. João Campos segue como um dos personagens jovens de maior projeção nacional desse campo político. Há ainda Pedro Campos, Duda Salabert, Sâmia Bomfim, Jones Manoel e outros nomes com linguagens e públicos distintos.

Portanto, não faltam novas lideranças. O problema é que, comparadas ao ecossistema construído pela direita, elas ainda são poucas, dispersas e, muitas vezes, funcionam como ilhas.

Na direita, um personagem ajuda a construir o outro. Uma liderança projeta um parlamentar, que impulsiona outro nome e transfere público, visibilidade e capital político. Na esquerda, há figuras com enorme capacidade individual de mobilização, mas isso nem sempre se transforma em rede.

A pergunta, portanto, não é apenas onde estão os novos nomes, e sim, o que a esquerda está fazendo com eles? Porque renovação não é colocar alguém jovem em um vídeo. Também não significa substituir toda liderança experiente por alguém de 25 anos.

O problema começa quando são sempre os mesmos círculos que formulam, governam, decidem e falam em nome de um projeto que pretende representar uma sociedade em transformação; quando novos nomes são chamados para mobilizar determinados públicos durante a eleição, mas perdem espaço quando chega a hora de formular e decidir; quando a renovação é desejada para o Instagram, mas encontra resistência na estrutura de poder.

Por isso, talvez o problema da esquerda não seja apenas de comunicação, mas também de poder. E existe uma consequência concreta dessa dificuldade: a esquerda chega a 2026 sem ter construído uma liderança nacional capaz de ocupar, de forma natural, o espaço que Lula inevitavelmente deixará.

Há nomes relevantes. Haddad, Camilo Santana, Rui Costa, Boulos, João Campos, Rafael Fonteles e outros aparecem como possibilidades. Mas nenhum se consolidou até aqui como sucessor político natural de Lula.

O problema não é não existir um novo Lula. O problema é chegar ao fim de um ciclo sem ter construído alguém capaz de conduzir o próximo.

Lideranças desse tamanho não surgem quatro meses antes de uma eleição. Precisam de espaço, exposição, responsabilidade, liberdade para formular e tempo para construir identidade própria.

Conquistas sociais de governos anteriores já não bastam para dialogar com uma geração preocupada com emprego, moradia, tecnologia e oportunidades, enquanto a renovação política avança lentamente.

Conquistas sociais de governos anteriores já não bastam para dialogar com uma geração preocupada com emprego, moradia, tecnologia e oportunidades, enquanto a renovação política avança lentamente.Magnific

A direita tem feito isso de maneira mais sistemática. Transformou parlamentares em influenciadores, influenciadores em candidatos e candidatos em plataformas capazes de projetar outros nomes. Criou personagens, mas, principalmente, conectou esses personagens. A esquerda ainda depende mais de exceções individuais do que de um processo permanente de formação, projeção e conexão.

Não basta revelar lideranças. É preciso construí-las. E construir liderança significa dividir espaço antes que a sucessão se torne uma emergência. E essa dificuldade de renovar quem fala também se conecta à dificuldade de renovar o que se oferece.

A esquerda tem uma história que merece ser defendida. SUS, Prouni, Minha Casa Minha Vida, políticas de transferência de renda, ampliação do acesso ao ensino superior e outras conquistas mudaram a vida de milhões de brasileiros. O problema aparece quando o passado deixa de ser patrimônio e vira argumento suficiente para o futuro.

Para boa parte dos jovens, muitas dessas políticas simplesmente sempre existiram. Quem nasceu em 2006 cresceu com Bolsa Família, Prouni e SUS já fazendo parte da realidade brasileira. É importante contar essa história, mas direito consolidado não vira voto automaticamente.

Uma geração não pode ser convocada permanentemente a votar por gratidão, precisa votar também por expectativa. Quer saber que trabalho existirá daqui a 10 anos, como vai comprar uma casa, como o Brasil vai lidar com inteligência artificial, segurança, renda, educação e novas oportunidades. Quer saber que país está sendo oferecido a ela.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores dificuldades da esquerda hoje. Sua história é muito clara. Seu futuro, nem sempre. Eleição é uma disputa de memória e expectativa. Não é preciso abandonar sua história, mas é preciso parar de acreditar que sua história, sozinha, é um projeto de futuro. Não é preciso copiar a direita, mas é preciso entender como transformar lideranças individuais em rede, visibilidade em capital político e comunicação em organização.

Hoje, seus novos personagens ainda são poucos e dispersos. O desafio é conectá-los, dar-lhes espaço e permitir que também projetem outros nomes. Isso exige comunicação e poder.

Porque uma geração não quer apenas receber uma mensagem diferente; quer participar da construção da mensagem. Não quer apenas ouvir falar sobre o futuro; quer ajudar a decidir qual será esse futuro.

A esquerda precisa aprender a falar com o brasileiro de 2026. Mas, para isso, talvez precise primeiro abrir espaço para que o brasileiro de 2026 também fale por ela.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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