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Eleições
16/10/2026 15:03
Há 38 anos trabalho com campanhas eleitorais. Vi a política brasileira atravessar a era dos grandes comícios, o domínio absoluto da televisão, a profissionalização das pesquisas, o nascimento da internet, a explosão das redes sociais e a chegada da inteligência artificial. Durante boa parte desse tempo, minha profissão consistiu em compreender como as pessoas constroem suas opiniões, desenvolvem vínculos emocionais com candidatos e, principalmente, decidem seu voto.
Aprendi também o outro lado dessa equação. Como se desconstrói uma imagem pública, como se produz rejeição, como se desloca a percepção coletiva e como uma narrativa pode se transformar em verdade social mesmo quando seus fundamentos são frágeis.
Mas há algo acontecendo agora que considero qualitativamente diferente de tudo aquilo que testemunhei nessas quase quatro décadas.
Estamos entrando em uma fase na qual a manipulação política pode deixar de depender exclusivamente daquilo que é dito ao eleitor. O novo território de disputa é o próprio ambiente social em que ele acredita estar formando livremente suas convicções.
E isso muda quase tudo.
A mentira está deixando de ser a ferramenta mais sofisticada da manipulação
Durante décadas, nossa principal preocupação esteve concentrada na desinformação. A lógica era relativamente simples: alguém produzia uma informação falsa, disseminava seu conteúdo e tentava convencer uma parcela da sociedade de que aquela mentira correspondia à realidade.
As fake news aperfeiçoaram esse processo, especialmente quando passaram a circular em redes digitais com enorme velocidade. A inteligência artificial generativa, entretanto, introduziu uma possibilidade ainda mais complexa.
Hoje, sistemas automatizados podem produzir comentários, sustentar conversas, formular argumentos, adaptar linguagens, simular indignação, demonstrar entusiasmo e reproduzir manifestações de apoio ou rejeição com uma aparência cada vez mais próxima do comportamento humano.
Imagine um cidadão que abre uma rede social e encontra centenas de comentários criticando determinado candidato. Alguns apresentam argumentos técnicos. Outros demonstram indignação. Há aqueles que relatam experiências pessoais e os que simplesmente afirmam que não suportam mais aquela liderança política.
A informação original pode ser absolutamente verdadeira. O problema surge quando parte das manifestações que a acompanham é artificialmente produzida e apresentada como expressão espontânea da sociedade.
Nesse cenário, não é necessário falsificar um fato. Basta conseguir distorcer a percepção sobre quantas pessoas concordam com ele.
É a passagem da manipulação da informação para a possível manipulação dos referenciais sociais utilizados para interpretá-la.
Em outras palavras, a inteligência artificial não precisa necessariamente convencer você de uma mentira. Pode tentar convencê-lo de que todo mundo pensa da mesma maneira.
O eleitor invisível já está entre nós?
Em setembro, a revista Veja publicou os resultados de uma investigação desenvolvida pelo Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), utilizando a plataforma integrada Sentinela Eleitoral/Polijetro.
O segundo estudo sobre contaminação cognitiva examinou mais de 33 mil contas associadas a diferentes ecossistemas políticos brasileiros. Aproximadamente 24% dos perfis analisados apresentaram características indicativas de provável automação.
O número merece atenção. Mas merece, sobretudo, responsabilidade na interpretação.
Não estamos afirmando que 24% dos brasileiros sejam representados por robôs, tampouco que todas as contas classificadas sejam personagens fictícios. Pessoas e organizações reais também utilizam ferramentas automatizadas. O indicador se refere à amostra examinada e aos critérios empregados pela pesquisa. Não comprova, isoladamente, manipulação eleitoral ou mudança de votos.
A pergunta científica relevante é outra: em que medida a automação identificada participa da circulação de mensagens e da construção de percepções de apoio ou rejeição? Como essas contas operam? Sua natureza automatizada é transparente? Que efeitos produzem sobre o debate público?
São perguntas que precisamos investigar antes de transformar hipóteses em certezas. Entretanto, seria igualmente irresponsável ignorar a dimensão do fenômeno simplesmente porque ainda não conhecemos todos os seus efeitos.
A evolução dos chamados neurobots amplia essa preocupação. Diferentemente dos antigos robôs, que repetiam mensagens mecânicas e facilmente reconhecíveis, agentes baseados em inteligência artificial generativa podem desenvolver interações contextualizadas, adaptar seu comportamento e construir a aparência de uma identidade social.
A sofisticação está justamente na capacidade de parecer humano. E quando um sistema artificial consegue participar de uma conversa política sem que sua verdadeira natureza seja percebida, uma fronteira importante começa a ser atravessada.
Porque a democracia pressupõe que os cidadãos possam discordar entre si. Não pressupõe que precisem disputar suas convicções com uma multidão artificial cuja existência desconhecem.
A política descobriu o poder das comunidades e isso também exige uma nova leitura
O segundo turno presidencial de 2026 trouxe outro elemento importante para essa discussão: a participação de comunidades digitais originalmente organizadas em torno de artistas, celebridades e movimentos culturais.
O fenômeno dos fã-clubes políticos merece atenção justamente porque demonstra que a circulação de mensagens não depende apenas da quantidade de seguidores de um candidato ou do impulsionamento tradicional.
Comunidades de fãs que participam do debate político não devem ser confundidas com operações automatizadas. Pessoas reais podem se organizar legitimamente para apoiar candidatos, compartilhar conteúdos e mobilizar outras pessoas. A existência dessa articulação, por si só, não indica uso de robôs ou fabricação artificial de apoio.
Mas essas comunidades carregam um patrimônio social que a comunicação política tradicional frequentemente subestima.
Um fã-clube pode reunir muito mais do que seguidores: vínculos, identificação emocional, confiança e hábitos de mobilização construídos ao longo do tempo. Quando essa comunidade entra no debate político, ela já possui uma capacidade de articulação que uma campanha pode levar meses, ou até anos, para desenvolver.
Tenho chamado essa hipótese de capital algorítmico herdado: a possibilidade de estruturas construídas fora da política transportarem para o debate eleitoral uma infraestrutura preexistente de audiência, relacionamento e distribuição. Isso não comprova que os algoritmos tenham favorecido suas publicações eleitorais. A eventual vantagem algorítmica depende de investigação específica.
O ponto central é que essas comunidades podem possuir uma capacidade de mobilização prévia que não aparece adequadamente nas métricas tradicionais de alcance.
A psicóloga e pesquisadora Gisele Meter, que desenvolve comigo as investigações do IRIA, chama atenção para uma distinção fundamental: alcançar alguém não significa necessariamente influenciá-lo. Uma mensagem pode atingir milhões de pessoas sem produzir confiança, identificação, participação ou mudança de opinião.
O alcance mostra quantas pessoas receberam uma publicação, mas não explica, sozinho, o que fazem depois. Existe uma enorme diferença entre ser visto e ser levado a sério. Entre compartilhar uma mensagem e acreditar nela. Entre pertencer a uma comunidade e mudar o voto por influência dessa comunidade.
Essa distinção é indispensável tanto para compreender a mobilização política legítima quanto para investigar tentativas artificiais de produzir percepções coletivas.
Quem decide o que a inteligência artificial permite que você diga?
Há ainda uma dimensão dessa transformação que precisa entrar definitivamente na agenda institucional brasileira.
Em 14 de outubro, testes relatados pela imprensa apontaram respostas diferentes da inteligência artificial da Meta a solicitações equivalentes de produção de materiais eleitorais envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro. A empresa informou ter adotado mecanismos de segurança para atender às regras eleitorais brasileiras e realizado correções.
O episódio não é suficiente para demonstrar favorecimento deliberado ou influência sobre o resultado eleitoral. Mas a questão institucional que ele revela é profundamente relevante.
Quem estabelece os critérios pelos quais uma inteligência artificial decide quais manifestações políticas podem ser produzidas? Quem fiscaliza a aplicação desses critérios? Como distinguir uma medida legítima de segurança de uma restrição inconsistente que produz consequências desiguais sobre o debate público?
A preocupação não deve variar de acordo com o candidato eventualmente beneficiado ou prejudicado. Hoje, a inconsistência pode envolver uma candidatura. Amanhã, outra.
Não se trata de defender o direito irrestrito de utilizar inteligência artificial para qualquer finalidade eleitoral. Trata-se de exigir transparência, previsibilidade, critérios verificáveis e mecanismos de responsabilização.
Quando plataformas tecnológicas passam a interferir não apenas na distribuição, mas também na própria produção de manifestações políticas, suas decisões deixam de possuir consequências exclusivamente comerciais ou tecnológicas. Elas passam a integrar as condições concretas em que a liberdade de expressão e a igualdade de participação política são exercidas.
A ciência já oferece sinais, mas ainda precisamos compreender a dimensão do problema
O debate não começa nem termina no Brasil.
Um experimento publicado na Nature, em 2012, envolvendo 61 milhões de usuários do Facebook, identificou a importância das relações sociais na mobilização política. Pesquisas posteriores investigaram como a exposição a posições divergentes pode intensificar a polarização e como sistemas de inteligência artificial podem influenciar preferências declaradas em determinadas condições experimentais.
Um estudo publicado na Nature, em 2025, por exemplo, examinou conversas entre eleitores e sistemas de inteligência artificial que defendiam candidatos nos Estados Unidos, Canadá e Polônia, encontrando efeitos persuasivos estatisticamente significativos.
Esses resultados não autorizam afirmar que neurobots estejam determinando eleições brasileiras.
Também existem pesquisas que impõem limites a interpretações mais alarmistas. Experimentos publicados na Science, em 2023, não identificaram mudanças estatisticamente significativas em importantes indicadores de atitudes políticas após determinadas alterações nos feeds de redes sociais durante o contexto eleitoral norte-americano.
Isso importa porque ciência não pode ser confundida com retórica. O fato de uma tecnologia possuir capacidade de influência não significa que qualquer utilização produza o mesmo efeito. E identificar uma operação automatizada não equivale a demonstrar que ela alterou o comportamento eleitoral de alguém.
Mas os limites atuais das evidências não eliminam a necessidade de investigar um fenômeno que evolui em velocidade extraordinária.
A segunda pesquisa do IRIA, que contou também com a colaboração do jurista Coriolano Almeida Camargo, contribui para esse debate ao examinar a presença de automação nos ecossistemas políticos e propor um aprofundamento sobre aquilo que denominamos contaminação cognitiva.
A questão central não é apenas identificar robôs. É compreender em que condições manifestações digitais artificiais podem interferir nos referenciais sociais que os indivíduos utilizam para interpretar a realidade. E, principalmente, como proteger a autenticidade do debate democrático sem comprometer a liberdade de expressão e a participação política legítima.
O Congresso precisa discutir algo maior do que as fake news
O Brasil avançou na construção de instrumentos para enfrentar a desinformação, regulamentar propaganda eleitoral e estabelecer limites para diferentes aplicações da inteligência artificial.
Mas o debate institucional ainda precisa alcançar uma dimensão mais complexa.
Durante muito tempo, nossa preocupação foi verificar se uma informação era verdadeira ou falsa. Agora precisamos fazer outra pergunta: a manifestação social que acompanha essa informação é autêntica?
A discussão exige critérios transparentes para identificar automação, mecanismos de rastreabilidade compatíveis com os direitos fundamentais e formas proporcionais de responsabilização por operações destinadas a simular artificialmente apoio ou rejeição.
Também exige distinguir ferramentas legítimas de comunicação automatizada de sistemas utilizados para ocultar sua natureza e fabricar a aparência de manifestações humanas espontâneas.
Proibir indiscriminadamente a automação não resolveria o problema. Poderia, inclusive, prejudicar organizações sociais, veículos de comunicação, pesquisadores e cidadãos que utilizam legitimamente essas tecnologias.
O desafio regulatório é mais sofisticado: estabelecer condições para que o espaço democrático continue reconhecível como um ambiente de participação humana, mesmo quando mediado por sistemas inteligentes.
Essa discussão deveria interessar particularmente ao Congresso Nacional. Porque não estamos tratando apenas de regras para campanhas eleitorais. Estamos discutindo as condições de formação da opinião pública, um dos fundamentos de qualquer democracia representativa.
Se a percepção coletiva puder ser distorcida artificialmente em larga escala, a legitimidade das instituições poderá enfrentar um tipo de pressão para o qual os instrumentos tradicionais foram pouco preparados. E não é necessário que um único voto seja comprovadamente alterado para que a questão mereça investigação institucional.
Podemos proteger as urnas e abandonar o eleitor?
Há uma contradição que me parece cada vez mais inquietante.
O Brasil desenvolveu um complexo sistema de proteção do processo eleitoral. Fiscalizamos candidaturas, financiamentos, propaganda, votação, apuração e totalização dos resultados. Evidentemente, tudo isso é indispensável.
Mas existe uma etapa anterior à votação que merece atenção equivalente: a formação das convicções políticas.
De que adianta aperfeiçoarmos continuamente os mecanismos de integridade eleitoral se não compreendermos adequadamente as tecnologias capazes de interferir no ambiente informacional em que o cidadão decide?
Não estou sugerindo que o voto deva ser protegido contra toda forma de influência. Isso seria incompatível com a própria democracia. Convencer, argumentar, mobilizar, emocionar e disputar narrativas fazem parte da política.
O problema surge quando a origem e a natureza de determinadas manifestações são deliberadamente ocultadas para produzir a aparência de uma expressão social que talvez não exista daquela maneira.
É aí que o debate ultrapassa a desinformação e alcança aquilo que considero uma das grandes questões democráticas deste século: a integridade cognitiva.
Não se trata de controlar o pensamento das pessoas. Muito menos de entregar ao Estado o poder de definir quais opiniões são legítimas.
Trata-se de investigar como preservar a autonomia individual diante de ambientes digitais nos quais os sinais sociais podem ser artificialmente produzidos, multiplicados e apresentados como manifestações espontâneas da coletividade.
Depois de 38 anos estudando e praticando comunicação política, cheguei à conclusão de que uma das ameaças mais sofisticadas à liberdade de escolha talvez não esteja na capacidade de fazer alguém acreditar em uma mentira.
Pode estar na possibilidade de fazer alguém acreditar que chegou sozinho a determinada conclusão, quando parte do ambiente em que essa conclusão foi formada havia sido artificialmente construída.
A urna pode registrar corretamente cada voto. A apuração pode ser absolutamente íntegra. O resultado pode corresponder, com precisão, à manifestação de milhões de brasileiros.
Mas isso não encerra todas as perguntas sobre a qualidade do processo democrático.
Afinal, uma democracia não começa no momento em que o eleitor aperta o botão da urna. Começa muito antes, quando ele observa a sociedade, confronta argumentos, estabelece vínculos e constrói suas convicções.
Aprendemos a proteger o voto contra a fraude. Aprendemos a combater informações falsas. Agora precisamos compreender como proteger o eleitor contra a fabricação artificial da aparência da opinião pública.
Porque existe uma pergunta que o Brasil não deveria deixar sem resposta:
De que adianta garantir que cada voto seja contado corretamente se não soubermos distinguir, no ambiente em que ele se forma, a voz de um cidadão da simulação artificial de uma multidão?
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