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Eleições 2026
19/10/2026 | Atualizado às 14:21
Minha impressão é que Flávio Bolsonaro fez um debate mais preparado e controlado. Lula foi mais agressivo e tentou conduzir o confronto pelos ataques. Flávio falou em mudança, repetiu sua proposta de prosperidade e procurou se apresentar como alguém capaz de tirar os brasileiros da pobreza.
O senador Flávio ficou atrás de Lula no enquadramento da câmera. Na minha leitura, isso funcionou a seu favor. Quando Lula dizia algo que Flávio considerava equivocado ou mentira, a câmera mostrava sua reação de negação. Foi uma boa estratégia. Flávio não caiu nas provocações e permaneceu mais tempo visível; Lula, ao sair do enquadramento para retornar ao púlpito e beber água, perdeu espaço, além de demonstrar nervosismo.
O presidente Lula foi mais agressivo e, em certas ocasiões, chamou Flávio de "rapaz" ou "cidadão", o que transmitiu certa arrogância. Por outro lado, Flávio manteve um tom mais calmo e falou com quem ainda pode mudar de voto e com os indecisos. Só foi mais eloquente quando usou o discurso da segurança ao eleitor. Ou seja, Flávio demonstrou estar mais treinado, de acordo com a cartilha do media training.
Na economia, Flávio tentou falar como quem sente o peso das compras e com os pequenos empreendedores. Falou diretamente aos "CEOs de MEIs". Falou em juros e impostos mais baixos, empreendedorismo, tecnologia e aplicativos. Essa estratégia conversa diretamente com setores das classes C e D e também com a geração mais jovem, que já não vê o emprego formal como o único caminho. O uso repetitivo da palavra "prosperidade" aproxima a mensagem aos setores religiosos neopentecostais: a promessa de melhorar de vida, prosperar e sair da pobreza. Flávio apresentou essa proposta como resposta concreta às dificuldades econômicas das famílias.
No mesmo tom, mas sem a mesma veemência, Lula respondeu com a proposta de perdão de dívidas e tentou falar com esses "CEOs de MEIs". Também recorreu a temas conhecidos de sua base, como a defesa das minorias. Na minha leitura, foi mais uma mensagem para "catequizar os convertidos" do que para conquistar novos eleitores.
Na minha avaliação, o destaque ficou com Flávio, que insistiu na violência, nas facções criminosas e na necessidade de devolver segurança à população. No tema do "ladrão de celular", procurou se apresentar como defensor das vítimas e associar Lula à "defesa dos bandidos". Lula, por outro lado, tentou associar Flávio ao entreguismo aos Estados Unidos, citando as terras raras e Eduardo Bolsonaro, além de associá-lo às milícias cariocas.
A corrupção também apareceu como eixo do confronto. Flávio bateu nesse tema e mencionou a prisão de Lula por Sergio Moro e Deltan Dallagnol, que estavam na plateia. Em uma avaliação preliminar, Flávio desviou de perguntas que poderiam afetá-lo diretamente e, ao mesmo tempo, manteve os ataques contra Lula. A combinação pode ser eficaz para seus apoiadores, mas também deixa uma questão em aberto para quem ainda está decidindo o voto.
Ressalta-se que a imagem dos candidatos pesou. Flávio apareceu sem gravata, mais descontraído e informal. Lula usou a gravata conhecida nas cores do Brasil, na tentativa de se desassociar das cores vermelhas do PT, mas não usou o chapéu que vinha usando na campanha. Sem o chapéu, a cabeça careca ficou mais exposta e, ao lado de Flávio, Lula pareceu bem mais velho.
Conforme observa Maurer (2016), no início de uma apresentação, sinais não verbais podem influenciar a avaliação dos candidatos; ao longo do debate, o conteúdo verbal ganha maior peso. Isso ajuda a entender por que postura, expressão e imagem contam, mas não substituem a análise do que cada candidato efetivamente defendeu. [1]
O que mostram as buscas no Google Trends
Estudos da Ciência Política avaliam o impacto do Google Trends nos debates eleitorais e nas campanhas.
Moraes (2018) encontrou associação entre o interesse pelos debates presidenciais e o volume de buscas pelos candidatos no Google. Isso permite usar o Trends como termômetro de atenção, mas não como pesquisa de opinião sobre quem venceu. [2]
Assim, nas capturas do Google Trends feitas durante o debate da Band, entre os nove agrupamentos mais pesquisados, classifiquei quatro como prejudiciais ao senador, por serem associados a acusações de corrupção: "Flávio miliciano" (500 mil+), "Flávio Comando Vermelho" (100 mil+), "Flávio rachadinha" (50 mil+) e "Flávio Vorcaro" (10 mil+). Somente um agrupamento é prejudicial ao candidato à reeleição: "Lulinha, filho do Lula" (10 mil+), associado à família do presidente.
Outros três são ambíguos: "Milei" (5 mil+), "SUS" (5 mil+) e "o que Flávio Bolsonaro fez como senador" (5 mil+). O agrupamento sobre o SUS merece ressalva: o detalhamento inclui buscas como "privatizar o SUS", que pode reforçar um enquadramento desfavorável a Flávio. Por fim, "Ministério da Prosperidade" (2 mil+) é favorável à mensagem de Flávio. Outro tema bastante pesquisado no início do debate foi "Roberta", em referência às acusações de Flávio sobre uma possível associação de Lula a uma lobista.
Essa é uma classificação interpretativa minha, não feita pelo Google. Além disso, o Trends agrupa consultas que considera variantes ou relacionadas. Assim, as buscas desfavoráveis a Flávio somaram mais de 660 mil, contra cerca de 2 mil favoráveis a ele e 10 mil desfavoráveis a Lula. Por esse critério, Lula teve ampla vantagem, mas a estratégia de Flávio em torno do tema da prosperidade também despertou interesse. [3]
Os pesquisadores Schrott e Lanoue mostram que a avaliação do desempenho no debate pode ser influenciada pelas preferências que os espectadores já tinham antes do confronto. Na mesma linha, Antonio Lavareda, ao analisar a avaliação dos debates, também chama atenção para o perfil eleitoral da audiência. Esses trabalhos recomendam cautela: a percepção de vitória não é necessariamente igual para os apoiadores dos dois candidatos. [4][5]
Por fim, se o critério for quem organizou melhor uma mensagem para conquistar indecisos, minha leitura inicial é que Flávio levou vantagem. Se o critério for quem conseguiu impor mais ataques e pautou confronto, Lula também teve seus momentos. As buscas indicam que acusações contra Flávio despertaram forte interesse, mas não provam que o público acreditou nelas.
Referências
[1] MAURER, Marcus. Nonverbal Influence During Televised Debates: Integrating CRM in Experimental Channel Studies. American Behavioral Scientist, v. 60, n. 14, p. 1799–1815, 2016. DOI: 10.1177/0002764216676250.
[2] MORAES, Thiago Perez Bernardes de. Os debates presidenciais no Brasil e as buscas no Google (2006–2010). Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 49, n. 2, p. 501–536, 2018.
[3] GOOGLE. Explore as pesquisas populares atualmente. Ajuda do Google Trends. Consulta em 19 out. 2026.
[4] SCHROTT, Peter R.; LANOUE, David J. The power and limitations of televised presidential debates: Assessing the real impact of candidate performance on public opinion and vote choice. Electoral Studies, v. 32, n. 4, p. 684–692, 2013. DOI: 10.1016/j.electstud.2013.03.006.
[5] LAVAREDA, Antonio. Empate no debate da Band com pool de emissoras. Termômetro da Campanha IPESPE/ABRAPEL: segunda rodada do segundo turno, 18 out. 2022.
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