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Eleições 2026
23/10/2026 13:00
Em 1991, enquanto as emissoras de TV transmitiam bombardeios ao vivo, Jean Baudrillard publicou uma série de ensaios com um título que soava como provocação: A Guerra do Golfo não aconteceu. Ele não negava os mortos. Dizia, na verdade, que o acontecimento tinha sido substituído por sua simulação, um espetáculo de desfecho conhecido diante de um público que não participava dele. Trinta e cinco anos depois, o Brasil vive o fenômeno ao contrário: uma eleição tratada, desde o começo, como se já tivesse acontecido. Pesquisas e feeds viraram o mapa de que falava Baudrillard, aquele que antecede o território, e os candidatos fazem campanha guiados por ele, como se ao voto coubesse apenas homologar o que as curvas anunciaram.
Os sinais estão dados. Lula e Flávio Bolsonaro chegaram ao segundo turno separados por menos de três pontos percentuais e só se enfrentaram diante das câmeras no último domingo, a uma semana da votação. O debate da Globo previsto para o primeiro turno naufragou numa guerra de liminares. Ao longo de um ciclo eleitoral inteiro, concluiu-se que o confronto direto oferecia mais risco do que voto, mesmo entre candidatos empatados. No lugar dele, sobrou uma campanha de cortes, selfies e feeds sob medida, em que cada eleitor recebe a confirmação do que já pensava e ninguém é convidado a mudar de ideia. Num país em que, como já apontava Sérgio Buarque de Holanda, o projeto costuma se confundir com a pessoa, disputam-se lealdades, não propostas.
O debate da Band mostrou o preço dessa ausência. Flávio Bolsonaro trocou o argumento pelo deboche: circulou pelo estúdio para aparecer atrás de Lula enquanto ele falava, numa passivo-agressividade vazia de propostas, mas cheia de expressões e gestos de desdém, além de ajudar a transformar as considerações finais em gritaria. Isso é inaceitável. Quem disputa a presidência deve ao adversário, ao mediador e ao eleitor o respeito mínimo que um debate exige, e a provocação pensada para render cortes nas redes desperdiçou o único momento em que o país pôde ver os dois lado a lado.
A falta de civilidade descambou em pregação para convertidos e evidente cansaço do adversário diante da agressividade. Lula, com décadas de vida pública, não conseguiu sustentar a provocação e mordeu a isca inúmeras vezes. Faltou exploração da experiência e das lacunas do adversário, quando o essencial seria conversar com o indeciso, apresentar uma agenda civilizatória diante da algazarra sem contraponto de Flávio. Quem perde o prumo diante de um adversário no estúdio deixa no ar a dúvida sobre a capacidade de sustentar as pressões do cargo e a difícil navegação do cenário de um possível tumulto antidemocrático.
Esse desastre em forma de debate nos leva à tentação de concluir que os debates não funcionam mais, ou que bastaria ou até seria necessário mudar o formato. Discordamos. Acreditamos que o problema está na escassez de debates, não na pulverização da sua importância, sendo o episódio da Band apenas um sintoma do problema geral. Quando há poucos encontros, tão próximos ao dia do tudo ou nada da votação do segundo turno, cada candidato o trata como peça de propaganda, e o vale-tudo compensa. Debates frequentes diluem o espetáculo, cobram coerência de um encontro para o outro e obrigam os candidatos a responder ao que evitaram na semana anterior. Uma evidência disso é que, nos debates para governador pelo país, onde o confronto foi rotina, o cenário foi de normalidade. Ou seja, a saída para melhorar os debates e fortalecer o espaço de ponderação do eleitor sobre as propostas e projetos de governo que cada candidato representa é simplesmente ter mais deles. Ter os candidatos presentes em carne e osso, convivendo com o outro, e não reduzidos a avatares que falam apenas para a própria bolha, importa.
A eleição acontece no dia 25, na urna, e o cenário está aberto. Tratar o pleito como fato consumado, sem discussão pública de propostas, rebaixa o cidadão de juiz a plateia e lhe nega o direito de ser persuadido.
Se pudéssemos fazer uma única pergunta aos dois candidatos na sexta, pediríamos que cada um apontasse a melhor qualidade do adversário e a proposta dele que considera mais acertada. Seria um gesto mínimo de reconhecimento do pluralismo e a prova de que, ao contrário do que muitos parecem supor, a eleição ainda não aconteceu.
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