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Eleições

A virada histórica de Lula: O que decidiu a eleição de 2026

Redução recorde da abstenção, queda dos votos brancos e nulos e recuperação em Estados estratégicos ajudam a compreender como o presidente reverteu a desvantagem do primeiro turno e conquistou a reeleição.

Arilton Freres

Arilton Freres

29/10/2026 12:00

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A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva entrou para a história política brasileira por um motivo inédito: pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu reverter a desvantagem e vencer a eleição presidencial. Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (PL), ou 48,21%. Uma diferença de 4.430.191 votos que garantiu ao petista seu quarto mandato presidencial.

No primeiro turno, Flávio havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A inversão desse resultado foi consequência de uma combinação de fatores: a redução histórica da abstenção, a queda dos votos brancos e nulos, a mobilização política e digital e a capacidade do presidente de recuperar terreno em regiões estratégicas do país.

O primeiro fator, possivelmente o mais decisivo, foi o comparecimento às urnas. Pela segunda vez desde 1989, o Brasil registrou redução da abstenção entre os turnos de uma eleição presidencial. Desta vez, porém, o movimento teve dimensão inédita.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, diferença de 1,86 ponto percentual. Em números absolutos, aproximadamente 2,96 milhões de eleitores compareceram às urnas no último domingo. Em 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro, essa redução havia sido de apenas 0,36 ponto percentual.

Em entrevista na semana passada, antes da votação, chamei a atenção para a importância da abstenção no desfecho da disputa. Flávio Bolsonaro ainda aparecia como favorito, mas a diferença era suficientemente estreita para que mudanças no comparecimento pudessem modificar o resultado.

A pesquisa Indexa/Broadcast divulgada em 22 de outubro, três dias antes da eleição, mostrava Flávio Bolsonaro com 45,2% das intenções de voto, contra 44,1% de Lula. Em votos válidos, eram 50,6% para Flávio e 49,4% para o presidente, caracterizando empate técnico dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais.

O levantamento também revelou um dado importante: 4,8% dos entrevistados afirmavam que não iriam votar. Esse contingente representava um universo potencialmente decisivo em uma disputa tão equilibrada. A capacidade de mobilizar eleitores que não haviam participado do primeiro turno poderia alterar a correlação de forças.

O segundo fator foi a diminuição dos votos brancos e nulos. No primeiro turno, somaram 5,98 milhões, equivalentes a 4,77% do total. No segundo, foram 4,15 milhões, ou 3,24%. Uma redução de 1,53 ponto percentual, que levou o país ao menor índice de votos brancos e nulos em segundos turnos presidenciais desde a redemocratização.

Esse movimento sugere que parte do eleitorado que anteriormente havia optado por não escolher nenhum candidato decidiu participar efetivamente da disputa. Não se trata apenas de comparecer à urna, mas de transformar a participação em voto válido.

Na pesquisa Indexa/Broadcast de 22 de outubro, 4,3% dos entrevistados declaravam intenção de votar em branco ou nulo. O percentual efetivamente registrado nas urnas foi de 3,24%. Embora pesquisas e resultados eleitorais não sejam diretamente equivalentes, a diferença reforça a importância de observar o comportamento dos eleitores que não manifestavam preferência por nenhum candidato.

Presidente superou uma desvantagem de 2,2 milhões de votos e venceu por mais de 4,4 milhões. Maior participação eleitoral, redução dos votos inválidos e mudanças no mapa da votação ajudam a dimensionar a recuperação.

Presidente superou uma desvantagem de 2,2 milhões de votos e venceu por mais de 4,4 milhões. Maior participação eleitoral, redução dos votos inválidos e mudanças no mapa da votação ajudam a dimensionar a recuperação.Rafaela Araújo/Folhapress

Outro indicador ajuda a compreender a reta final. A pesquisa mostrava que 89,8% dos eleitores consideravam sua escolha definitiva, enquanto 7,3% admitiam a possibilidade de mudar de candidato. Eram aproximadamente 11,5 milhões de brasileiros que ainda poderiam rever sua decisão. Em uma disputa tão apertada, mesmo pequenas mudanças poderiam ser determinantes.

A recuperação de Lula também apareceu no mapa eleitoral. O presidente conseguiu reverter derrotas em importantes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, além de conquistar Minas Gerais, onde havia perdido no primeiro turno. No segundo, venceu no Estado mineiro por 50,43% a 49,57%. A recuperação em colégios eleitorais estratégicos ajudou a construir a vitória nacional.

Outro elemento que merece atenção foi a mobilização organizada pelo deputado federal André Janones. O chamado Exército do Lula, uma rede de mobilização digital que, segundo seus organizadores, reuniu cerca de 10 milhões de seguidores, transformou-se em uma ferramenta de engajamento durante o segundo turno.

Diariamente, os participantes recebiam metas e missões para compartilhar conteúdos, ampliar a circulação de mensagens, disputar espaço nas redes sociais, tentar convencer eleitores e incentivar o comparecimento às urnas. A estratégia procurava transformar simpatizantes em agentes ativos da campanha.

A iniciativa ajudou a criar um ambiente de mobilização que ultrapassou o universo digital e alcançou diferentes regiões do país. É difícil mensurar seu impacto direto sobre os votos, mas seria um erro ignorar a capacidade dessa organização de estimular o engajamento e devolver entusiasmo a uma campanha que havia terminado o primeiro turno em desvantagem.

A pesquisa Indexa/Broadcast também mostrava que 41% dos eleitores temiam a volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 38,6% manifestavam maior receio de um novo mandato de Lula. A polarização, portanto, não se expressava apenas nas preferências eleitorais, mas também na percepção dos riscos associados à vitória do adversário.

Esse ambiente ajuda a compreender a intensidade da mobilização. Para parcelas expressivas do eleitorado, votar não significava apenas escolher um candidato, mas impedir a vitória daquele que representava uma ameaça maior aos seus valores, interesses ou expectativas.

É necessário reconhecer que os dados disponíveis não permitem identificar individualmente como votaram aqueles que se abstiveram no primeiro turno ou que abandonaram o voto branco e nulo. Também não é possível atribuir a vitória exclusivamente à mobilização digital. Mas o conjunto dos indicadores ajuda a compreender os movimentos que antecederam a eleição.

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno em posição competitiva e manteve uma base expressiva de apoio. Lula, porém, conseguiu ampliar seu eleitorado, recuperar terreno em regiões estratégicas e mobilizar apoiadores em um momento decisivo.

A principal lição de 2026 é que, em disputas equilibradas, não basta conquistar a preferência do eleitor. É necessário transformá-la em comparecimento e voto válido. A virada histórica de Lula mostrou que mobilização, participação e capacidade de organização política podem ser tão determinantes quanto a persuasão eleitoral.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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