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Eleições
5/11/2026 6:41
Não é para celebrar nem para lamentar que me proponho a esta reflexão, mas sim para falar de quem perdeu, e de por que essa derrota deveria preocupar também quem ganhou.
Na noite de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro saiu das urnas na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, e anunciou o "fim da era PT". Três semanas depois, Lula foi reeleito com 51,79%, alcançou a maior votação nominal da história e tornou-se o primeiro a virar um segundo turno presidencial desde a redemocratização. Quarto mandato, goste-se ou não dele, os números o põem num lugar que nenhum outro político brasileiro ocupou.
Entre o anúncio do fim de uma era e a contagem dos votos, houve três semanas. E, nelas, um carnaval.
Foi na Paulista, no domingo, 18, que dois trios elétricos desfilaram ao som de funk, axé, jingle de refrão grudento, acompanhado de fogos disparados do alto do caminhão e do candidato a presidente da República dançando ao lado do deputado mais votado do país.
A cena repetiu-se em Belo Horizonte, na véspera da eleição, motociata, trio, dancinha. E nenhum discurso, nenhum.
Em cima do trio, porém, nem todos dançavam no mesmo compasso, ao lado do candidato estavam também o governador reeleito Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, políticos que construíram suas carreiras sobre gestão, planilha e negociação. Quem os observava tinha a impressão de ver convidados deslocados numa festa que não era a deles, o corpo ali, o olhar em outro lugar, a apatia de quem cumpre protocolo e algo da aflição de quem percebe, antes dos outros, que aquilo não convence quem precisa ser convencido.
Era a direita que governa, constrangida, fazendo figuração para a direita que dança.
Nada contra a alegria. A política brasileira sempre teve música, e as Diretas Já também foram festa, a maior e mais importante de todas, diga-se de passagem. O problema nunca foi o trio. Foi o trio no lugar da tribuna.
Quem conhece o carnaval da Bahia sabe o que é a pipoca – o folião que fica do lado de fora da corda, sem abadá, sem dever nada a bloco nenhum. Acompanha o trio de longe e só pula se a música o convencer.
Segundo turno é eleição de pipoca, os votos que decidem não estavam dentro da corda, estavam com os mais de 9 milhões de eleitores dos candidatos derrotados e com os mais de 33 milhões que ficaram em casa no primeiro turno.
Enquanto a campanha tocava para quem já tinha comprado o abadá, a pipoca ouvia, comparava e escolhia outro ritmo, e assim, mais de 10 milhões de votos novos foram parar do outro lado da avenida.
A isso dou um nome clássico e antigo: arrogância. Max Weber dizia que o pecado mortal do político é a vaidade, essa ânsia de aparecer que o faz confundir aplauso com consentimento. Foi o que se viu.
Subestimou-se o adversário, logo Lula, que perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a primeira e sabe, como ninguém, que eleição só termina na apuração. Subestimou-se o eleitor, que no segundo turno quer saber do emprego, da aposentadoria, da escola do filho e da segurança da rua, e não do passinho. E subestimou-se o próprio debate democrático pelo qual tanto sangue e suor foi derramado.
A direita brasileira nem sempre foi assim, teve Afonso Arinos, autor da primeira lei contra a discriminação racial no país; Roberto Campos, de quem a esquerda discordou em quase tudo e a quem nunca faltou uma ideia; Marco Maciel, costurando com paciência a transição democrática. Não eram santos: parte daquela direita bateu à porta dos quartéis, e a história não esquece, mas discutiam, escreviam, formavam quadros, construíam partidos.
O caminho que leva do discurso à dancinha, do partido ao sobrenome, da tribuna ao feed, tem nome: retrocesso do pensamento político brasileira
E aqui está o ponto que talvez surpreenda quem esperava apenas um réquiem, essa involução é má notícia para todos, inclusive para os vencedores. Norberto Bobbio ensinou que direita e esquerda não são resquício de outro século, mas a tensão que move a política democrática.
De um lado, o impulso da igualdade, do outro, a defesa da liberdade, da ordem e da prudência, no meio, o centro, que negocia, modera e costura. Tire-se uma dessas vozes, ou deixe-se que ela emudeça em coreografia, e o que sobra não é vitória, é monólogo.
A Constituição de 1988 não pôs o pluralismo político entre os fundamentos da República por enfeite.
A trajetória do próprio vencedor comprova a tese. Lula nunca dançou sozinho, em seus bailes mais memoráveis, teve diante de si concorrentes de peso: Fernando Henrique Cardoso, que o derrotou duas vezes, em 1994 e em 1998; José Serra, em 2002; Geraldo Alckmin, em 2006. Eram adversários de verdade, que discordavam de quase tudo e diziam isso olhando nos olhos, em debates duros, mas sem negar ao outro a condição de competidor legítimo.
O tempo mostrou o valor desse respeito, Fernando Henrique declarou voto em Lula no segundo turno de 2022, em nome da democracia, e Alckmin, o rival de 2006, tornou-se seu vice-presidente.
A dança só tem graça, e só tem sentido, quando há alguém à altura do outro lado do salão.
Há ainda uma conta simples. Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, não são um erro a ser corrigido, são metade do país, com medos, valores e demandas que merecem representação à altura. E há uma conta menos simples, que os vencedores fariam bem em fazer, governo sem oposição séria relaxa.
Governa-se melhor quando se é obrigado a explicar cada passo a um adversário que sabe o que diz.
Aquele desconforto em cima do trio talvez seja, ele próprio, um sinal de que outra direita é possível, pois no mesmo 4 de outubro, Tarcísio de Freitas foi reeleito em São Paulo ainda no primeiro turno, com uma campanha feita sobre o que entregou, e não sobre o que dançou. Não é preciso concordar com ele para reconhecer que políticos desse perfil, que governam, negociam e discutem números, são a melhor esperança de uma direita que queira voltar a ser levada a sério.
Em 2030, pela primeira vez em décadas, nem Lula nem um Bolsonaro precisarão estar na cédula. O campo estará aberto para quem chegar com programa, e fechado para quem chegar com carro de som.
Todo trio, um dia, desliga os motores, o folião volta para casa, o asfalto amanhece coberto de confete e chega a Quarta-feira de Cinzas. Para a direita brasileira, ela caiu numa segunda-feira, 26 de outubro, e cinza, na tradição que tantos de seus eleitores professam, não é humilhação, é penitência e recomeço.
Que recomece, então, que volte à tribuna, que faça oposição de verdade, com ideias, com números, com voz, e não com coreografia. A esquerda precisa disso, o centro precisa disso, o Brasil precisa disso, porque democracia não é dança de um só, e quem decide quando a música acaba é sempre o povo.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.