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Política
5/11/2026 14:00
O que está acontecendo com as principais lideranças populistas de direita no mundo?
Flávio Bolsonaro perdeu a eleição presidencial no Brasil, Benjamin Netanyahu perdeu sua maioria parlamentar em Israel, Donald Trump sofreu uma derrota expressiva nas midterms e Javier Milei, na Argentina, enfrenta índices elevados de desaprovação.
São quatro situações distintas, mas que levantam uma pergunta: estamos diante de um enfraquecimento do populismo de direita?
Não acredito que seja possível responder a essa pergunta apenas observando os resultados eleitorais. Afinal, a derrota de uma liderança não significa a rejeição das ideias que ela representa.
De tal modo, levanto algumas hipóteses que podem ajudar a compreender esse fenômeno.
Na Ciência Política, existe um conceito chamado voto retrospectivo. Em linhas gerais, o eleitor avalia o desempenho de quem governa e pode recompensá-lo ou puni-lo nas urnas. Isso está relacionado ao chamado custo de governar, isto é, ao desgaste político que partidos e lideranças podem enfrentar pelo exercício do poder.
No estudo de Bergh e Kärnä (2026), verificou-se que o populismo não possui necessariamente uma vulnerabilidade eleitoral maior, inclusive em comparação com partidos tradicionais. Sendo assim, governar, por si só, pode representar um custo político, independentemente da orientação ideológica.
A primeira hipótese que levanto é econômica: inflação, perda do poder de compra e dificuldades no mercado de trabalho podem contribuir para o desgaste dessas lideranças. O eleitor pode concordar com determinadas posições ideológicas, mas o peso de dificuldades econômicas, passa a avaliar negativamente quem está no poder.
A segunda hipótese envolve o desgaste do próprio discurso antissistema.
Uma característica importante do populismo, conforme a definição do cientista político Cas Mudde, é a divisão da sociedade entre um povo considerado legítimo e uma elite apresentada como corrupta. O discurso populista reivindica a representação da vontade popular contra essas elites.
O problema é que lideranças que chegam ao poder prometendo combater o sistema e acabam por fazer parte do próprio sistema. E, consequentemente, começam a ser cobradas pelos resultados de suas próprias decisões.
Isso não significa que o discurso antissistema necessariamente desapareça quando seus representantes assumem o governo. Essas lideranças de direita continuam atribuindo dificuldades e problemas ao Judiciário, ao Legislativo, aos adversários e a todos os grupos que identificam como integrantes do sistema: "os inimigos do povo e de seu líder". A questão que levanto é até que ponto essa estratégia permanece eleitoralmente eficaz?
A terceira hipótese envolve as guerras, os conflitos internacionais e uma possível rejeição de parte da população à radicalização política.
Hipótese que afeta diretamente Trump e Netanyahu. A Guerra contra o Irã e seus custos econômicos podem ter contribuído para o desgaste dessas lideranças.
A principal hipótese que considero importante investigar: a associação internacional entre as lideranças populistas de direita pode produzir custos políticos?
Trump, Milei, Netanyahu e o bolsonarismo estão em países diferentes, mas compartilham determinadas características, como a personalização da liderança, a mobilização de eleitores conservadores e o confronto contra os "inimigos do povo de bem".
A proximidade política entre essas lideranças pode fortalecer suas respectivas bases eleitorais, contudo, tende a ampliar a rejeição entre setores moderados.
Existe um ponto muito importante: perder uma eleição não significa que as ideias defendidas por determinada liderança perderam apoio.
O eleitor pode até deixar de apoiar essas lideranças e continuar conservador nos costumes, liberal na economia, contrário à imigração irregular, favorável a políticas mais duras de segurança pública e crítico às elites políticas tradicionais.
Em outras palavras, ele pode continuar se identificando com a direita, mas não necessariamente com os políticos que a representam.
Minha hipótese é que estamos diante de um desgaste das lideranças populistas de direita, sem que isso represente necessariamente o enfraquecimento das ideias que sustentam esses movimentos.
Para um futuro próximo, acredito que ocorrerá a renovação dessas lideranças de direita.
Por isso, considero precipitado anunciar uma crise mundial do populismo de direita apenas com base nos acontecimentos recentes.
Por fim, estamos diante de uma crise do populismo de direita ou apenas de um desgaste de suas lideranças?
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