Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Sustentabilidade
6/11/2026 14:00
O debate sobre transição ecológica, sustentabilidade e gestão de resíduos atingiu um ponto de inflexão no Brasil e no mundo. Durante anos, grande parte dessa discussão esteve concentrada na capacidade técnica de produtos e embalagens serem recicladas. Esse é um atributo importante, mas já não suficiente. Diante da necessidade de avançarmos na gestão de resíduos e no uso mais eficiente dos recursos naturais, precisamos acrescentar uma nova pergunta: quanto daquilo que colocamos no mercado efetivamente retorna ao ciclo produtivo?
Essa mudança parece simples, mas altera significativamente a forma como avaliamos a circularidade. Não basta saber se um material pode ser reciclado. É preciso medir quanto é de fato recuperado, quanto efetivamente é revalorizado, em quanto tempo retorna à cadeia produtiva, se existe rastreabilidade nesse processo e quais resultados ambientais, econômicos e sociais são gerados ao longo do caminho.
Circularidade, portanto, não deveria ser tratada como uma promessa, mas como um resultado capaz de ser mensurado, acompanhado e comprovado. E mensura não pode ser apenas um exercício de transparência. Se queremos acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, os resultados efetivamente entregues pelas diferentes cadeias precisam ser considerados nas decisões empresariais, regulatórias e de políticas públicas.
Isso exige uma mudança de perspectiva. Reciclabilidade e reciclagem efetiva não são sinônimos. Um material pode apresentar condições técnicas para ser reciclado e, ainda assim, não retornar ao processo produtivo na escala esperada. Da mesma forma, metas anunciadas não equivalem a resultados alcançados. Quanto mais públicos, objetivos, verificáveis e isonômicos forem os critérios utilizados para fazer essa distinção, mais qualificada será a tomada de decisão de empresas, governos e da própria sociedade.
A indústria brasileira de latas de alumínio para bebidas oferece um exemplo concreto dessa lógica. Há mais de 15 anos o Brasil mantém índices de reciclagem superiores a 95%. O ciclo ocorre, geralmente, em aproximadamente 60 dias, período em que a lata consumida é coletada, reciclada e transformada novamente em matéria-prima. A reciclagem do metal também demanda até 95% menos energia do que sua produção a partir do alumínio primário. O ciclo de reciclagem da lata de alumínio é infinito e mantém as características originais do material, sem qualquer perda de qualidade.
Esses dados são relevantes não apenas pelo desempenho de uma embalagem, mas porque mostram que circularidade deve ser acompanhada por resultados concretos. Quando sabemos quanto material retorna, como retorna e em quanto tempo, deixamos o terreno das intenções e passamos a discutir eficiência. E eficiência ambiental também é uma questão econômica: significa preservar matéria-prima, reduzir desperdícios e manter recursos circulando dentro da própria cadeia produtiva.
Talvez o aspecto mais importante dessa experiência seja justamente aquilo que ela pode ensinar para além da lata. Uma economia verdadeiramente circular depende de cadeias capazes de funcionar depois que o produto deixa as mãos do consumidor. Isso significa conectar indústria, sistemas de coleta, recicladores, cooperativas e trabalhadores da reciclagem e garantir que o material tenha condições reais de retornar ao processo produtivo.
Essa engrenagem também tem uma dimensão social que não pode ser dissociada da ambiental. No Brasil, os catadores e catadoras de materiais recicláveis exercem papel fundamental para que diferentes materiais retornem às cadeias produtivas. Reconhecer essa participação e fortalecer os sistemas de coleta, triagem e logística reversa é parte essencial de qualquer estratégia que pretenda transformar circularidade em resultado.
O desafio agora é fazer com que aquilo que conseguimos medir também seja reconhecido. Políticas públicas, compromissos ambientais e decisões empresariais podem avançar ao incorporar critérios capazes de diferenciar intenção de resultado e reciclabilidade potencial de reciclagem efetiva. Isso não significa privilegiar um material ou outro, mas estabelecer parâmetros transparentes e aplicáveis a todos, capazes de reconhecer o desempenho ambiental efetivamente entregue por cada cadeia.
Em um momento em que empresas e países estabelecem metas ambientais cada vez mais ambiciosas, essa distinção se torna ainda mais importante. A circularidade precisa deixar de ser apenas um atributo declarado para se tornar também um indicador de eficiência, competitividade e capacidade de reduzir impactos ambientais na prática.
O Brasil já construiu experiências capazes de demonstrar que circularidade pode deixar de ser conceito e se transformar em prática. Temos agora a oportunidade de avançar uma etapa: usar evidências para orientar escolhas, reconhecer os sistemas que efetivamente recuperam materiais e estimular aqueles que ainda precisam evoluir.
Circularidade não se promete. Mede-se. E aquilo que conseguimos medir com transparência e critérios comuns pode, finalmente, ocupar o espaço que merece nas decisões sobre o futuro da economia de baixo carbono.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
Temas