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Instituições, confiança e o exemplo que vem de cima

A estabilidade institucional depende de regras iguais para todos. Privilégios no topo corroem a confiança democrática na base.

Marcus Pestana

Marcus Pestana

7/2/2026 8:00

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Não precisamos estar de acordo sobre o resultado do campeonato. O consenso necessário é que as regras do jogo sejam permanentes, para todos e respeitadas. A democracia é um sistema político complexo e imperfeito. Mas é o único possível contra autoritarismos nefastos de todos os matizes. Por isso, são erguidas instituições, numa dinâmica de controles e contrapesos cruzados e mútuos, gerando desconcentração do poder. Um jogo em que ninguém tem o mando absoluto sobre o baralho.

A primeira providência de um líder autoritário é tentar minar, esvaziar, anular, confrontar as instituições. Donald Trump tem dado sucessivos exemplos disso. Atropela o Poder Judiciário numa tempestade torrencial de decretos inconstitucionais e ilegais. Tenta desmoralizar a ONU como fórum que reflete o pacto global pós-guerra, obstruindo seu papel de arbitragem. Revive um mercantilismo tardio usando politicamente as tarifas de importação e decretando o fim da OMC e da globalização. Desconhece, vezes seguidas, o Congresso americano. O sequestro ilegal do ditador venezuelano Nicolas Maduro, as escaramuças em relação à Groelândia e o assassinato de Rene Good e Alex Pretti pela polícia americana anti-imigração expõem até onde podem chegar os delírios autoritários do atual presidente dos EUA.

Aqui no Brasil, há rusgas entre os poderes da República, desgastes aqui e ali, mas não há uma confrontação direta contra a ordem institucional. O último risco foi a tentativa de golpe de Estado em 2022. Mas há um incômodo crescente: o abismo existente entre as elites no poder e o cidadão comum. Não basta ancorar a estabilidade institucional na Constituição e nas leis. É preciso haver um ambiente de confiança e credibilidade, se possível, que os cidadãos admirem seus dirigentes a partir de seus exemplos de vida.

O problema não é discordar do resultado político, mas aceitar que regras sejam flexíveis para poucos e rígidas para muitos.

O problema não é discordar do resultado político, mas aceitar que regras sejam flexíveis para poucos e rígidas para muitos.Freepik

A renda média mensal dos brasileiros é em torno de 3.600 reais. Grande parte vive em condições de pobreza ou até miséria. Como pode a sociedade achar normal familiares de um ministro do STF fecharem um inusual contrato de serviços advocatícios de 130 milhões de reais e outro ex-membro da nossa Corte Suprema e ex-ministro do governo um contrato de 6 milhões de reais com o Banco Master, acusado de lesar investidores e investigado por operações fraudulentas? Também um ex-ministro da fazenda vira consultor desse mesmo banco, com salários de 1 milhão de reais por mês. Decisões monocráticas anulam penas de bilhões de reais numa penada, mesmo os réus sendo confessos, por erros processuais cometidos. Privilégios para a elite são ampliados. A liturgia dos cargos é arquivada por relações incestuosas entre agentes públicos e interesses privados.

Como um morador pobre da periferia das cidades ou do campo pode ter esperança e confiança nas instituições? São mundos desconectados.

Nos EUA, as manifestações de Minneapolis e os resultados de eleições isoladas recentes em Minnesota e no Texas anunciam o início de uma reação social. No Brasil, há desencanto e desmobilização. As eleições de 2026 caminham para um perfil tradicional. No entanto, não nos esqueçamos das grandes jornadas de 2013. Elas surpreenderam as elites e representaram uma explosão social espontânea. E que já tivemos, mais de uma vez, outsiders populistas vitoriosos por sua posição antissistema.

Quem semeia vento, colhe tempestade!


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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