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Marcus Pestana
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Crise política
14/3/2026 8:00
Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de "velha política". E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente por ser novo.
Agora, a crise envolvendo o Banco Master coloca em xeque novamente a estrutura do poder e as instituições republicanas, com denúncias que alcançam de A a Z nos mais diversos segmentos do espectro ideológico e engolfa setores dos três poderes da República.
Democracia implica em um governo em que o povo exerce a sua soberania através de dirigentes e representantes eleitos pelos cidadãos em eleições livres. O Estado, peça central na vida do país, conduzido pela força política conjunturalmente majoritária, sob o olhar e a ação plural do Congresso, e restringido pelas leis e pela ação do sistema judiciário, precisa de legitimação permanente junto à sociedade. Afinal a vitória eleitoral não concede uma procuração em branco para o governo. São os desafios dessa invenção humana chamada democracia – o melhor caminho descoberto para arbitrar conflitos de ideias e interesses presentes na sociedade. As ditaduras espalhadas pela América Latina, Ásia, África e Oriente Médio não enfrentam estes dilemas.
Ao andarmos pelas ruas e convivermos em ambientes comunitários, fora das bolhas militantes e apaixonadas, é fácil perceber crescente desalento e falta de esperança, em pleno ano eleitoral. Isto sempre ocorre quando o sistema político deixa de gerar respostas eficientes para as angústias e os problemas do povo e a corrupção se alastra.
Max Weber, em seu clássico texto "A política como vocação", demonstra como a legitimidade do poder nasce ou da tradição ou do carisma ou da legalidade. Quando as boas tradições são abandonadas, as lideranças não exercem carisma que seduza a população e a legalidade é vista como mar de interrogações, graças a má conduta de líderes das instituições republicanas, se forma o caldo de cultura da antipolítica, gerando riscos imponderáveis. Weber identifica como qualidades dos líderes políticos a paixão, a responsabilidade e o senso de proporção. Quando elas vão pelo ralo, é natural o aparecimento de um abismo entre cidadãos e elites no poder. Desaparecem tanto a ética da consciência, absoluta em suas intenções puras focadas no salvamento da alma e nos princípios, mas não só ela, também a ética da responsabilidade, centrada nos objetivos e fins pretendidos, ainda que com concessões e relativização parcial do rigor com os meios. Resta um estranhamento dos cidadãos em relação à dinâmica de funcionamento do poder e suas elites.
Com a palavra, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: "A pessoa que gosta muito de dinheiro tem que ser retirada da política. Quer dizer que tem que ser castigada? Não. Tem que ir para o comércio, para a indústria, para onde se multiplica a riqueza, na aventura do risco empresarial. Aí sim. Mas não na política".
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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