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Os sonhos não envelhecem, a esperança não se apagou

Depois de cinco décadas de militância, reencontro em Cristovam Buarque a esperança que me levou à política aos 16 anos.

Marcus Pestana

Marcus Pestana

15/8/2026 8:00

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Não tenho dúvidas, o melhor ambiente para a condução dos destinos do mundo é a democracia. Mas ela, humana, carrega as contradições que são próprias de nossa natureza: virtudes e pecados, sentimentos generosos e perversos. Talvez, seja a política a atividade que melhor encarna a complexidade e os mistérios da existência humana. Há um lado nobre convivendo com traços abjetos. Solidariedade ao lado de ambições desmedidas. Fome de liberdade e justiça disputando espaço com a corrupção. Vontade de melhorar a vida de todos, lado a lado, ao egoísmo, ao patrimonialismo e à manipulação.

Quando aos 16 anos, em 1976, em plena ditadura, iniciei minha militância social e política, tudo era sonho. Não havia liberdade. As desigualdades eram alarmantes. A vontade de participar na vida pública surgia a partir de uma utopia, uma visão de mundo, um projeto de sociedade. A política só fazia sentido se abrisse porta para a mudança. Havia teoria, coração, projeto, sonho, esperança.

Minha geração estudantil conquistou todos os seus objetivos políticos: anistia ampla, constituinte livre e soberana, eleições diretas para presidente. Acabamos com a hiperinflação e o estrangulamento externo, construímos o SUS, universalizamos o ensino básico, consolidamos a democracia, tão testada. Mas, 41 anos depois da redemocratização, o Brasil continua um copo meio cheio, meio vazio.

Fracassamos no combate à corrupção, na qualidade da educação, no saneamento, na moradia. Entregamos parcela do nosso território para o crime organizado. O Brasil continua absurdamente desigual e não saltou – como era nossa ideia – do time de países emergentes para padrões de nação desenvolvida. Não superamos a armadilha da renda média. O crescimento da economia, das últimas décadas, parece uma montanha russa. Picos exuberantes, recessões alarmantes.

Quando o pessimismo parecia vencer, descobri que a política ainda pode ser movida por ideias, esperança e sonhos de mudança.

Quando o pessimismo parecia vencer, descobri que a política ainda pode ser movida por ideias, esperança e sonhos de mudança.Magnific

A política mudou. Quando me elegi vereador, aos 22 anos, tudo era sonho e poesia. Minha campanha não tinha dinheiro, era estudante, só ideias e vontade de lutar. Fui depois deputado estadual e federal, secretário de planejamento e de saúde, ministro em exercício de dois ministérios. Tudo só fazia sentido em nome do projeto original. Em 2019, fui convocado a reassumir meu mandato federal. Não quis. Não era mais meu mundo, polarização nas redes, radicalismo ao invés do diálogo, estrutura e dinheiro ao invés de utopias, demagogia e populismo no lugar de formulação e discussão sérias e profundas. Confesso, foi expressão de meu pessimismo, que conservo até hoje.

Vinte dias atrás, marquei um almoço com um grande amigo em Brasília. Não acreditei. Do alto de seus 82 anos e a partir de uma trajetória marcante e reconhecida, o Cristovam me falou que era candidato a deputado federal. Seus olhos brilhavam de esperança. Sonhando com a radicalização da democracia e uma educação universalizada de qualidade, a partir de um sistema nacional de educação. Minha primeira reação: você é louco, o ambiente é hostil para pessoas como nós. E ele, ex-reitor da UNB, ex-governador e ex-senador, ex-ministro da Educação, que tanto fez, só me falava dos sonhos futuros. Aí vi que ali, em um octogenário, estava encarnado aquele menino de 16 anos em Juiz de Fora.

O que Cristovam Buarque estava me dizendo essencialmente é que os sonhos não envelhecem – Ave, Márcio Borges! – e que a esperança ainda está no ar.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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