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Roberto Camilo
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Mercado financeiro
26/10/2026 12:30
O circuit breaker acionado pela B3 nesta segunda-feira, após uma queda de 10% do Ibovespa, produz imagens fortes e, inevitavelmente, manchetes igualmente fortes. A explicação mais fácil já está pronta: o mercado teria entrado em pânico diante da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato.
É uma narrativa conveniente. Mas talvez seja simples demais para explicar o que realmente aconteceu.
Há uma pergunta que precisa ser feita: o que o mercado descobriu sobre Lula neste domingo que já não soubesse na sexta-feira?
Estamos falando de um presidente eleito para o quarto mandato. Independentemente da avaliação política que cada brasileiro faça dele, Lula não é uma incógnita para o mercado financeiro. Sua política econômica, sua relação com as estatais, sua visão sobre privatizações, seu modelo de atuação do Estado, sua relação com o Congresso e até suas dificuldades na área fiscal são amplamente conhecidas.
Portanto, atribuir uma queda dessa magnitude simplesmente à "insegurança com Lula" me parece insuficiente.
Talvez seja necessário olhar para o outro lado da equação: não apenas para quem ganhou a eleição, mas para quem o mercado acreditava que ganharia.
Nas semanas que antecederam o segundo turno, formou-se uma expectativa crescente de vitória de Flávio Bolsonaro. Essa expectativa não ficou restrita às conversas políticas. Ela entrou nos preços.
Antes da eleição, a Bolsa já havia subido quase 7% em relação ao nível anterior ao primeiro turno. O real havia se valorizado quase 5%. Os juros futuros também incorporaram expectativas mais favoráveis.
Ou seja: antes de o brasileiro apertar o botão da urna no segundo turno, parte do mercado já havia colocado dinheiro em um determinado resultado.
E esse resultado não aconteceu. É aqui que talvez esteja uma parte muito importante da explicação para o que vimos nesta segunda-feira. Não é apenas medo. É repricing.
Mercados não esperam os fatos acontecerem para depois reagir. Eles negociam expectativas. Se investidores passam a acreditar que determinado candidato vencerá uma eleição e que seu governo adotará uma política fiscal mais restritiva, promoverá privatizações, ampliará concessões, reduzirá a presença estatal em determinados setores ou criará melhores condições para investimentos privados, esses cenários começam imediatamente a entrar nos preços dos ativos.
O dinheiro chega antes do governo. Da mesma forma, quando a premissa que sustentava essa valorização desaparece, o dinheiro também pode sair antes que qualquer decisão concreta do novo governo seja tomada.
Foi exatamente isso que aconteceu. O mercado não acordou nesta segunda-feira e descobriu quem é Lula. O mercado acordou e descobriu que sua aposta em Flávio estava errada.
Essa diferença é fundamental.
Imagine uma empresa negociada a R$ 100. O mercado começa a acreditar que uma mudança de governo poderá melhorar significativamente suas perspectivas e passa a pagar R$ 115 pela ação.
A eleição acontece e a mudança esperada não ocorre.
Se a ação retorna a R$ 100, isso significa necessariamente que a empresa ficou 13% pior em uma noite? Evidentemente que não.
Parte do movimento representa simplesmente a retirada de um prêmio que havia sido incorporado anteriormente. É o mercado desfazendo uma aposta.
Existe risco fiscal? Existe.
Seria igualmente simplista negar que existem razões econômicas concretas para preocupação. A trajetória da dívida pública, o crescimento das despesas obrigatórias, o resultado fiscal, a escolha do próximo ministro da Fazenda e a capacidade do governo de construir uma relação funcional com o Congresso são questões relevantes.
O mercado tem todo o direito — e, na verdade, a obrigação — de precificar esses riscos.
A dívida pública brasileira supera 82% do PIB, e investidores querem saber qual será a estratégia do próximo governo para estabilizá-la. Esse componente existe e não deve ser ignorado.
O problema é transformar isso na explicação integral para um movimento de mercado tão violento. Se o risco fiscal brasileiro fosse uma informação descoberta neste domingo, a tese faria sentido. Mas não é. Essas informações estavam disponíveis na semana passada, no mês passado e durante toda a campanha eleitoral.
O que mudou abruptamente foi a probabilidade atribuída pelo mercado a um governo diferente.
Havia também um prêmio econômico embutido em uma eventual mudança de governo
Existe ainda outra dimensão que merece atenção.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia ser interpretada por determinados investidores como oportunidade de retomada ou ampliação de privatizações, concessões, abertura de setores ao capital privado e novos projetos de infraestrutura e mineração.
Isso inclui setores estratégicos nos quais o Brasil possui enorme potencial, como minerais críticos e terras raras, que ganharam importância extraordinária na disputa econômica mundial.
Para grandes investidores internacionais, mudanças regulatórias capazes de facilitar investimentos, concessões ou exploração desses ativos naturalmente têm valor econômico.
Se parte desse cenário estava incorporada aos preços, sua retirada também provoca correções.
Não afirmo que privatizações ou minerais estratégicos expliquem o circuit breaker. Seria exagerado.
Mas é perfeitamente razoável considerar que expectativas relacionadas a uma mudança mais ampla da política econômica tenham feito parte do chamado "trade eleitoral".
O comportamento dos diferentes ativos reforça que estamos diante de algo maior do que uma simples avaliação sobre uma ou outra estatal.
A Bolsa caiu, o dólar disparou, os juros futuros subiram e títulos brasileiros também sofreram.
Isso tem características de uma reprecificação generalizada do risco Brasil e, principalmente, de um grande desmonte de posições construídas anteriormente.
O mercado também especula — e às vezes erra.
Existe certa tendência de tratar qualquer movimento da Bolsa como se fosse um diagnóstico científico e infalível sobre a economia. Não é.
O mercado financeiro é extraordinariamente sofisticado, mas continua sendo formado por pessoas, fundos, algoritmos e instituições tentando antecipar o futuro.
Eles acertam. E também erram.
Quando milhares de investidores fazem apostas semelhantes, o erro coletivo pode produzir movimentos violentos. Há ainda mecanismos que potencializam essas oscilações. Fundos precisam reduzir exposição. Operações alavancadas precisam ser desmontadas. Stops são acionados. Algoritmos vendem automaticamente. Investidores estrangeiros diminuem posições. O câmbio reage. Os juros futuros respondem.
Uma expectativa econômica transforma-se rapidamente em movimento financeiro e o próprio movimento passa a alimentar o movimento seguinte. É exatamente para situações extremas como essa que existe o circuit breaker.
Talvez a pergunta correta seja outra. Em vez de perguntar simplesmente: "Por que o mercado entrou em pânico com Lula?"
Talvez devêssemos perguntar: "Quanto o mercado havia apostado antecipadamente em Flávio Bolsonaro?"
Essa segunda pergunta muda completamente a interpretação do que aconteceu.
Porque, se uma parcela importante da valorização das últimas semanas ocorreu em função da expectativa de mudança de governo, parte importante da queda desta segunda-feira não representa necessariamente destruição de fundamentos econômicos. Representa devolução de valorização antecipada.
Existe risco fiscal? Sim.
Existe preocupação legítima com dívida, gastos públicos e juros? Sim.
Existe diferença entre os modelos econômicos que estavam sendo precificados para os dois candidatos? Evidentemente.
Mas existe também especulação. E muita.
Talvez os próximos pregões sejam mais reveladores do que esta segunda-feira.
Quando o choque eleitoral passar, posições alavancadas forem desmontadas e o mercado voltar a analisar empresas, resultados, commodities, juros, inflação, política fiscal e atividade econômica, começaremos a descobrir qual parcela da queda representava efetivamente uma nova percepção estrutural sobre o Brasil.
E qual parcela era simplesmente o preço de uma aposta eleitoral que deu errado.
Porque há uma diferença enorme entre o Brasil ter ficado 10% pior em uma noite e a Bolsa ter percebido que havia precificado o vencedor errado.
Hoje, essa distinção parece mais importante do que o próprio circuit breaker.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
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