Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigos
  1. Home >
  2. Colunas >
  3. Mulheres pretas: a verdade saindo do poço | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News
LEIA TAMBÉM

Helena Theodoro

Saberes ancestrais sobre folhas e flores

Dulce Pereira

A experiência do olhar e de escrever o nosso olhar

Helena Theodoro

Buscando caminhos através da Educação

Helena Theodoro

As muitas Saias Rodadas

Helena Theodoro

Escolas de samba, ancestralidade e protestos

Mulheres pretas: a verdade saindo do poço

Helena Theodoro

Helena Theodoro

25/3/2021 | Atualizado 10/10/2021 às 17:01

A-A+
COMPARTILHE ESTA COLUNA

Dançar tem um papel importante no reagrupamento e memória ancestral africana [fotografo] Mariana Maiara [/fotografo]

Dançar tem um papel importante no reagrupamento e memória ancestral africana [fotografo] Mariana Maiara [/fotografo]
A verdade saindo do poço é uma pintura de Jean Leon Gerôme de 1896, que está ligada a uma parábola do século. Nela a Mentira, num belo dia, convence a Verdade a se banhar sem roupa num poço e, sorrateiramente sai, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade, não querendo usar as roupas da Mentira, corre em sua perseguição, nua pelas ruas. O mundo desvia o olhar, critica a Verdade, que segue andando nua, em busca de suas roupas. Quanto à Mentira, continua abrindo caminhos com as roupas da Verdade, já que a maioria das pessoas fazem opção por ela, em lugar da Verdade nua e crua. Neste mês de março, que marca a luta contra qualquer discriminação, relaciono a Verdade de Gerôme às mulheres pretas, pois tiraram sua história e seus significados, não permitindo sua saída do poço. [caption id="attachment_487960" align="alignleft" width="213"] Pintura de Jean Leon Gerôme [fotografo] Reprodução [/fotografo][/caption]O mundo judaico-cristão criou como ideal a mulher branca dócil, submissa, sempre pronta a ceder aos interesses e necessidades dos homens, caracterizando as mulheres pretas como hipersexualizadas, briguentas, despossuídas de valores éticos e sociais. No entanto, nosso saber cultural, trazido entre os séculos 16 e 19 por mais de quatro milhões de africanos, tem a marca da oralidade e da dança como linguagem não-verbal, que funciona como um verdadeiro arquivo de um saber cultural transmitido nos gestos, atitudes, movimentos, conhecimentos, rituais sagrado e profano, que falam de tempos imemoriais e situam princípios masculino e feminino como equivalentes. É preciso revelar a contribuição histórica desta dança trazida pelas comunidades de base africana que, com seus gestos e movimentos, representam valores culturais, questões estéticas e étnicas. Histórias de ontem A mulher preta foi, nos primeiros tempos de “liberdade”, a viga mestra da família e da comunidade. Neste período inicial de liberdade, as mulheres foram forçadas a arcar com o sustento moral e com a subsistência dos demais. Sem condições de conseguir trabalho conforme as condições acenadas durante a campanha abolicionista, o homem preto ficou sem meios de prover o seu sustento ou o da família. Neste momento, a mulher preta foi a grande batalhadora. Trocou a senzala pelos cortiços das cidades e assumiu, praticamente, as obrigações que possuía na fazenda, dividindo-se entre o quarto que compartilhava em promiscuidade com os seus e as cozinhas das famílias abastadas. Tornou-se escrava de ganho, comprou sua liberdade, criou o seu próprio negócio cozinhando, dançando e cantando. Essa mulher encontrou caminhos e força em seus orixás e ancestrais. Duplicou e ampliou seu trabalho físico e teve de encontrar energias, consciente ou inconscientemente, para enfrentar todo um complexo de situações novas. Passou a servir à patroa ao invés do senhor. Contribuiu, com a humildade de seus serviços, para a emancipação das mulheres brancas, já que a grande indústria e a organização de classes fizeram quase desaparecer o modelo tradicional da mulher caseira e dedicada integralmente à família. A participação destas mulheres nas famílias brasileiras, como amas de leite, merece um destaque, já que ocorreu em condições muito específicas. Segundo a literatura existente no século 19, até a Abolição em 1888, o escravo doméstico e a ama de leite são vistos como elementos corruptores da família branca. Tal posicionamento é decorrente da influência da ama nas relações entre casa grande e senzala, devido à forma de transmissão para as crianças de cantigas em língua africana, bem como de histórias e crenças. A utilização da mulher negra como objeto sexual também não pode ser entendida como resultado da condição da escravidão. Tal fato irá ocorrer com a escrava como decorrência da sociedade patriarcal que legitima a dominação do homem sobre a mulher, sendo que a sexualidade da escrava vai ser vista pelo senhor como fora do círculo familiar, sem limites, normas morais ou religiosas, já que a mulher negra é coisa, vista como objeto sexual. Para justificar tais atos criam o culto à sensualidade da mulata, tirando a responsabilidade da sociedade patriarcal pelo abuso sexual da escrava e colocando tal fato em atributos físicos que tornam incontrolável o desejo do senhor branco. Histórias de hoje O simbolismo do princípio feminino na tradição nagô confere um total domínio sobre o corpo, mostrando o que o filósofo Michel Foucault situa como sendo expressão de poderes e saberes que se articulam estrategicamente. As mulheres pretas de terreiro aprendem a gostar do seu corpo, sentir alegria de viver e se entender como inteiras, donas de seu destino. Dança e cultura são conceitos que se relacionam. Princípio masculino e princípio feminino dançam juntos, se referenciam e se comunicam, sem submissão. EXÚ promove a comunicação entre todos, gerando nos territórios o reagrupamento de uma memória ancestral, africanizando a transmissão, propiciando o encontro do ontem com o hoje. Entender uma dança implica dominar o código cultural no qual ela se insere, pois seus movimentos contam histórias e revelam problemas ancestrais, místicos ou da urbanidade contemporânea. A relação do território com a corporeidade criou blocos, ranchos e escolas de samba. O corpo passa a ser entendido como um lugar de memória, tornando-se arma do oprimido e do opressor, por ser suporte da existência, sendo a corporeidade um atravessamento cultural que o veste cultural e socialmente, com falas e silêncios da oralidade. Os sambistas passam a usar terno e gravata com as cores de sua escola, africanizando a vestimenta europeia. Nas comunidades de terreiro de candomblé e de umbanda EXU, orixá da comunicação, do movimento e o rei do corpo, rege os processos de dança. Isso acontece tanto no ritual como nas festas das escolas de samba ou no cotidiano. Dançar tem um papel importante no reagrupamento e memória ancestral africana. Mergulhar no mundo do terreiro é terreirizar o mundo por meio de seus próprios conhecimentos. Importante é receber do solo sagrado a sabedoria dos mais velhos, o vigor dos mais novos e a paciência e o entendimento daqueles que não podem mais contar no tempo – os espíritos do mundo ancestral – que dançam sob as palhas de Omolu, que em seu Olubajé (festa) reúne todos os orixás. As escolas de samba se reúnem e criam sua União das Escolas de Samba, onde todos dialogam e se reforçam. Mercedes Baptista, que estaria completando cem anos neste maio de 2021, convidada por Katherine Dunham, vai para a Companhia de Balé do Harlem, em Nova Iorque. Ao retornar cria o Ballet Folclórico do Brasil, a partir das danças do candomblé, fazendo grande sucesso na Europa e América Latina com a dança afro, além de se tornar coreógrafa da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro em 1963. O simbolismo das danças das escolas de samba se relaciona às representações dos terreiros e nos permitem restituir as roupas da Verdade. As PASSISTAS usam o corpo representando os movimentos do ar, da terra, do fogo, da água – orixás, que representam as energias da natureza. As ALAS representam corpos em harmonia de movimentos e cores, tendo limites de espaço, contando parte da história. As BAIANAS, cabeças coroadas, corpos plenos de experiência vivida e de sabedoria, giram com o planeta e em sintonia com o cosmos. Os MESTRE SALAS e as PORTA BANDEIRAS simbolizam o território, sua gente e suas propostas ancestrais, espargindo seus valores pelo espaço no tremular da bandeira, protegida e reverenciada. Esse casal representa a continuidade histórica do grupo pelo simbolismo do princípio masculino em comunicação com o feminino, sem submissão, tendo papéis definidos, importantes e necessários. Daí voltamos aos nossos parágrafos iniciais, ao falar da Verdade fora do poço, constatando a importância das mulheres pretas no desenvolvimento e preservação da cultura brasileira, referência quase nunca feita. Como vimos aqui, elas estão firmemente presentes em todos esses movimentos de vida e sabedoria. É preciso ver mulheres pretas saindo do poço!!! O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected]. > Leia mais textos da coluna Olhares Negros.
Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

mulher verdade mentira escolas de samba orixás Olhares Negros Helena Theodoro mulher preta preta mulheres brancas tradição nagô

Temas

Colunistas
COLUNAS MAIS LIDAS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES