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Comunicação política
26/1/2026 12:00
A eleição presidencial de 2026 tende a marcar uma ruptura definitiva com o modelo tradicional de campanha política no Brasil. O palanque físico, o comício clássico e até o horário eleitoral gratuito seguem existindo, mas já não ocupam o centro da disputa. Esse espaço passou a ser ocupado pelo celular. É ali que se forma opinião, se constrói identidade política e se define, cada vez mais cedo, o voto.
Pesquisas de diferentes institutos mostram que as pessoas se informam sobre política principalmente pelo celular e por conversas com amigos, alimentadas pelo conteúdo visto nas redes sociais e no WhatsApp. A televisão continua sendo importante, mas deixa de ser central. A estratégia eleitoral não pode mais começar pelos comerciais de TV. A linguagem central já não nasce do media training nem de uma direção de cena bem executada.
A ascensão da hipersegmentação digital não representa apenas um avanço tecnológico. Trata-se de uma mudança estrutural na lógica da comunicação de quem está nas redes sociais, independentemente da plataforma. O discurso amplo, pensado para "falar com todos", perde eficácia diante de um eleitorado fragmentado, exposto a fluxos personalizados de informação e cada vez menos disposto a consumir mensagens genéricas. No cotidiano, os algoritmos segmentam as informações conforme as preferências de cada usuário.
Parte relevante dessa transformação passa pela forma de produção e consumo de informação da Geração Z. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são cerca de 47 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos, formados em ambiente digital. Pesquisas recentes indicam que a maioria desse público prefere conteúdos curtos, objetivos e ajustados à sua realidade cotidiana. Por isso, cenas rotineiras da vida de pessoas comuns tendem a gerar mais engajamento do que encenações com atores, direção elaborada, iluminação artificial e produção excessiva.
Esse comportamento pressiona campanhas a abandonarem a comunicação única e a adotarem mensagens múltiplas, ajustadas a interesses, territórios e perfis específicos. A referência histórica costuma ser a campanha de Barack Obama, em 2012, mas a comparação é limitada. Hoje, a inteligência artificial permite mapear comportamentos, testar narrativas em tempo real e ajustar a linguagem conforme a resposta do público, em escala inédita.
Isso significa que, no lugar de um único vídeo repetido exaustivamente no horário eleitoral, a campanha pode operar com diversos conteúdos personalizados para cada grupo. Cada peça aborda aquilo que efetivamente mobiliza determinado segmento. Esse cenário exige também a revisão dos formatos tradicionais de pesquisas quantitativas, que precisam oferecer subsídios mais precisos para a produção de conteúdo.
A repetição constante, com falas próximas à realidade de cada segmento, a presença diária no feed e a familiaridade construída pelo consumo recorrente criam reconhecimento e vínculo. Campanhas recentes em grandes centros urbanos mostram que estruturas digitais bem organizadas conseguem competir e, em alguns casos, superar partidos com amplo tempo de televisão.
Outro elemento que merece atenção é o avanço do consumo político em televisões conectadas. Dados da Kantar apontam que o YouTube já é mais assistido na TV do que no celular. A Geração Z atua como vetor desse hábito dentro de casa, influenciando pais e avós e ampliando o alcance do conteúdo político para além do público jovem. O próprio Instagramp assa por transformações para facilitar o acesso e a navegação em televisores.
Mais do que estética, essa mudança exige conteúdo. O eleitor demonstra cansaço da polarização permanente e busca respostas práticas. Quer saber como as políticas públicas impactam renda, trabalho e rotina. O crescimento do discurso empreendedor reflete esse movimento. Uma parcela expressiva dos jovens deseja empreender e também valoriza pautas ligadas à dignidade, mobilidade social e qualidade de vida.
Há, no entanto, um limite claro. A padronização excessiva dessas estratégias só funciona quando existe uma proposta real por trás da forma. Um público acostumado a influenciadores digitais desenvolveu filtros eficientes para distinguir o que é espontâneo do que é ensaiado. Assim, o histórico de postagens do político passa a funcionar como bônus ou ônus na relação a ser construída com o eleitor em 2026. Sem coerência entre discurso e prática, o engajamento se dissipa rapidamente.
A hipersegmentação impõe, portanto, um desafio que vai além da adaptação tecnológica. Ela exige que o político deixe de ser um personagem genérico e se apresente como solução concreta para problemas específicos. Em 2026, o resultado eleitoral não será definido apenas por quem fala mais alto ou aparece mais vezes, mas por quem consegue transformar atenção digital em pertencimento político e em votos.
O voto continua sendo depositado na urna. Mas a decisão, cada vez mais, é tomada na tela.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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