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Comportamento
6/2/2026 18:00
Em algum momento, quase todo mundo percebeu que se relacionar ficou cansativo demais. Não aquele cansaço bom de quem constrói algo, mas um cansaço seco, repetitivo, que nasce de conversas interrompidas, expectativas frustradas e vínculos que evaporam sem explicação. Amar passou a exigir energia para lidar com silêncio, ausência e indiferença. E, pouco a pouco, ficar só começou a parecer menos desgastante do que insistir. Não foi o amor que acabou, foi a paciência social com o desgaste emocional.
É nesse contexto que passamos a falar em celibato voluntário: o nome que muita gente encontrou para uma decisão silenciosa, menos marcada pela falta de desejo e mais pelo cansaço de se expor a vínculos instáveis, ambíguos e frustrantes. Não é recusa ao amor, é recusa a um modelo de relação que passou a exigir esforço contínuo para sustentar ausência, silêncio e insegurança.
O Brasil apenas transformou esse sentimento difuso em números. Hoje há mais pessoas solteiras do que casadas, segundo dados do IBGE de 2022. Mas ninguém acordou um dia e decidiu, coletivamente, abandonar os relacionamentos. O que houve foi outra coisa: as pessoas começaram a sentir que o custo emocional de se envolver superava o benefício.
No cotidiano, isso se traduz em experiências que quase todo mundo já viveu. Conversas intensas que somem do nada. Encontros promissores que viram silêncio. Pessoas que dizem sentir muito e desaparecem logo depois. Love bombing virou rotina: intensidade no começo, ausência no final. Ghosting virou regra: desaparecer sem explicação. Breadcrumbing virou técnica: migalhas de atenção para manter alguém preso sem nunca se comprometer. O problema é que ninguém mais sabe se está sendo cortejado ou apenas administrado emocionalmente.
Com o tempo, isso vai produzindo um efeito silencioso: sentir começa a parecer erro. Demonstrar afeto vira exposição. Querer vínculo vira sinal de carência. A frase "você é emocionado demais" passa a funcionar como advertência moral. O mundo afetivo contemporâneo não ridiculariza quem some, ridiculariza quem fica. A sociedade passou a tratar a frieza como maturidade e o afeto como fraqueza.
Os aplicativos de relacionamento apenas organizaram tecnicamente essa lógica. Transformaram pessoas em perfis, relações em testes e vínculos em experiências descartáveis. O excesso de opções não ampliou a liberdade emocional; produziu uma sensação permanente de substituibilidade. Sempre há alguém melhor logo ali, a dois cliques de distância. Quando todo mundo é opção, ninguém é escolha.
Para muitas mulheres, isso não é apenas frustrante, é perigoso. Amar deixou de ser só emocionalmente arriscado e passou a ser fisicamente ameaçador. Violência sexual, agressões, perseguições e abusos atravessam encontros rápidos e vínculos frágeis. Onde não há compromisso, não há cuidado. Quando o encontro vira risco, estar só vira estratégia de proteção.
É nesse ponto que Bauman deixa de ser teoria e vira espelho. Ao falar de amor líquido, ele não descreve um estilo de amar, mas denuncia um tempo histórico que passou a tratar vínculos como objetos de uso rápido. Sob a lógica do consumo, amar precisa ser leve, reversível e descartável. Qualquer laço que pese, dure ou exija vira problema. Relações profundas geram obrigação, dependência e responsabilidade, e tudo isso se tornou intolerável em uma sociedade viciada em liberdade sem custo. O amor não enfraqueceu por acaso: ele foi deliberadamente esvaziado por um mundo que prefere conexões fáceis a relações reais.
Diante disso, cresce algo que costuma ser confundido com solidão, mas é outra coisa: a solitude. Solidão é falta. Solitude é escolha. É estar só sem se sentir incompleto, é não aceitar qualquer vínculo apenas para preencher silêncio. Em um cenário de desgaste contínuo, a solitude vira espaço de recomposição subjetiva. Ficar só passa a ser uma forma de preservar inteireza.
O celibato voluntário não é um problema emocional a ser corrigido, é o retrato cru de uma sociedade que aprendeu a consumir pessoas e descartar vínculos. Depois de décadas ensinando que sentir é fraqueza, que compromisso é atraso e que desaparecer é aceitável, amar se tornou um ato de exposição contínua à perda e à violência. Não é que as pessoas tenham parado de amar, é que o mundo tornou o amor perigoso demais para ser praticado sem dano. Diante disso, a solitude não é fuga nem egoísmo: é a última forma de não se mutilar para caber em relações que já nascem falidas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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