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Representação política

Voto em paraquedista não tem volta

Cada voto cooptado por deputado Copa do Mundo é "tijolo" a menos na construção da autonomia regional.

Paulo Guedes

Paulo Guedes

6/2/2026 19:00

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Começou a revoada de paraquedistas que sobrevoam nossa região a cada ciclo eleitoral. De quatro em quatro anos temos a repetição desse movimento que só atrapalha os interesses legítimos do nosso povo: a invasão de figuras que nunca pisaram em nossa poeira, mas que, bancados por estruturas financeiras milionárias, aparecem do nada para tentar comprar a esperança do nosso eleitor com promessas que jamais serão honradas, ainda que saiam vitoriosos no pleito.

Desde que iniciei minha vida pública, participei de pelo menos 13 eleições — oito delas na condição de candidato — posso dizer que aprendi algo importante sobre política: essencialmente ela é uma atividade que só se justifica pela proximidade e o pertencimento.

Nenhum deputado vai representar dignamente aquilo que não conhece. Sem os laços de pertencimento e presença, nenhum deputado "Copa do Mundo" saberá ecoar a voz do povo norte-mineiro nos fóruns de interesse. Até porque, apurada a última urna, eles vão prestar contas aos seus verdadeiros patrões — os grupos de interesse que patrocinaram suas campanhas.

O voto em candidatos sem pertencimento regional gera orfandade política e dificulta recursos para municípios do Norte de Minas.

O voto em candidatos sem pertencimento regional gera orfandade política e dificulta recursos para municípios do Norte de Minas.Tânia Rêgo/Agência Brasil

Curral eleitoral digital

O caso que melhor ilustra o dano que a figura do paraquedista causa para as demandas região é o do deputado Nikolas Ferreira nas eleições de 2022. Sem nenhum trabalho prévio em favor de Montes Claros, Nikolas levou 22,6 mil votos do município naquela eleição.

Como era previsível, o deputado bolsonarista tem pouco a mostrar e dizer a esses eleitores dos Gerais. A agenda dele é outra e extrapola Minas. O voto do norte-mineiro serviu apenas de escada para a sua o infinito particular da sua ambição sem limite pelo poder.

Nikolas representa um novo tipo do coronel na política: o dono do curral eleitoral eletrônico, que conquista o cidadão desatento com mentiras e posições extremistas que nada têm em comum com as carências e as dores do povo norte-mineiro.

Mas não é só ele. O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, de triste memória, escolheu o Norte de Minas como base eleitoral para voltar a Brasília. O que o ex-deputado tem a oferecer ao eleitor da região: conversa fiada e falsas promessas. Milionário, ele banca clube de futebol e virou arroz de festa em leilões de gado e comícios nas igrejas evangélicas.

Orfandade representativa

Os cerca de 150 municípios que compõem as regiões Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha lutam bravamente contra a escassez de recursos e o esquecimento secular por parte dos governos estadual e federal. Não podemos mais servir apenas de curral eleitoral para aventureiros que nada têm a oferecer.

Essa prática é, acima de tudo, nefasta para o desenvolvimento regional. Quando a eleição termina, esse político retorna para suas bases, para as capitais ou para suas regiões de origem — os nossos municípios ficam desamparados.

É fácil entender que, muitas vezes pressionado pelas carências do dia a dia, o eleitor se torna presa fácil para os forasteiros sorridentes e os capangas que compram a preço de ouro para negociar os votos regionais. Suas promessas vãs são embrulhadas em benefícios imediatistas.

O que muitos não percebem é que o voto dado a candidato de fora é o caminho mais curto para que o eleitor se torne um cidadão órfão, sem representação na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional.

Com o fortalecimento das emendas parlamentares e o poder direto de envio de recursos, o orçamento de um município pequeno muitas vezes só consegue fôlego extra através da caneta do deputado comprometido com as suas causas e conhecedor das dores do seu povo.

O cálculo é simples e cruel: município que não tem representante "da terra" para chamar de seu, terá imensa dificuldade em garantir uma ambulância nova, o custeio da UBS ou hospital, apoio à agricultura familiar e manutenção da malha vicinal, e por aí vai.

Não é bairrismo, é sobrevivência

A representação política não se encerra no aperto de mão ou no santinho entregue na feira. Ela acontece já no dia seguinte, na capacidade que o cidadão tem de bater à porta do escritório do deputado e cobrar o que foi prometido.

Como é possível cobrar de quem você não conhece e só viu uma única vez na vida? Ou nem isso. Como exigir compromisso de quem não tem raízes com a nossa cultura e nada sabe sobre nossa história e lutas?

Priorizar candidatos da nossa região não é uma questão de bairrismo, é uma questão de estratégia e sobrevivência. É escolher alguém que compartilha do mesmo destino que o seu. Vamos começar mais um momento decisivo de disputa eleitoral e cada um de nós é responsável para impedir que a sub-representação no Congresso e na Assembleia Legislativa se perpetue.

Cada voto desviado para candidato "estrangeiro" é tijolo e argamassa a menos nas obras que tanto precisamos.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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