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Cinema
3/8/2026 12:00
Christopher Nolan levou a Odisseia ao cinema. Imaginemos o filme que ele não fez.
Troia caiu. Ulisses inicia a viagem de volta. Enfrenta tempestades e infortúnios. Perde companheiros, embarcações e quase a própria vida. Depois de anos de mar, chega sozinho à ilha de Calipso.
Até aqui, o caminho conhecido. Agora o desvio: Ulisses decide permanecer na ilha.
Calipso não o mantém sob encantamento nem precisa prometer-lhe a imortalidade. Oferece apenas aquilo que Ítaca já não pode oferecer: a possibilidade de deixar de ser o rei, o guerreiro, o marido esperado. Ulisses não precisa corresponder à história que os outros contam sobre ele.
Os deuses ordenam a Calipso que o liberte. A ordem se revela inútil: não há prisão. Ulisses se recusa a partir.
Enquanto isso, em Ítaca, Telêmaco alcança a idade adulta cercado pelos homens que disputam Penélope e consomem os bens da família. Incapaz de expulsá-los e cansado de ouvir relatos sobre a grandeza do pai, parte em busca de notícias.
Encontra Ulisses com Calipso.
O encontro que deveria restaurar a ordem destrói a imagem que sustentou sua vida. Telêmaco não encontra um herói impedido de retornar, mas um homem que escolheu não fazê-lo. Ulisses diz que voltar significaria representar um papel que deixou de compreender.
Telêmaco não o perdoa. Antes de partir, pergunta o que deverá dizer a Penélope. Ulisses responde que ela está livre.
Telêmaco regressa a Ítaca e anuncia que o pai morreu.
Conta que o encontrara na ilha de Calipso e que retornariam juntos, mas uma tempestade destruíra a embarcação. Ulisses teria salvado o filho. Antes de desaparecer no mar, pedira que Penélope soubesse que tentara voltar. É uma morte perfeita.
Telêmaco não mente apenas para proteger a mãe. Dá ao pai a morte que o herói das histórias mereceria ter tido. Transforma abandono em sacrifício e mata publicamente o homem que escolhera permanecer ausente. Pela primeira vez, deixa de esperar que Ulisses resolva sua vida.
A morte presumida do rei transforma a disputa em Ítaca. Em vez de escolher um dos pretendentes, Penélope reúne as famílias da ilha, expõe o saque praticado em seu palácio e reivindica para si a autoridade soberana para governar.
Alguns pretendentes se retiram. Outros se rebelam. Há uma guerra civil curta, confusa e nada gloriosa. Telêmaco combate ao lado da mãe, mas percebe que a ordem restaurada não será a antiga. Penélope não governa à espera do marido nem em nome do filho. Governa porque assim decidiu.
Anos se passam. Calipso deixa Ulisses, sem explicações. A ilha que oferecia liberdade começa a parecer outra forma de exílio. Envelhecido, ele decide regressar a Ítaca.
Não volta para recuperar o trono. Ao menos é o que diz a si mesmo. Quer apenas rever sua terra. Ocorre que, à medida que se aproxima, antigos desejos reaparecem. Começa a imaginar que poderá explicar sua ausência e ocupar algum lugar no mundo que deixou.
Chega disfarçado de mendigo, como em Homero. Ulisses teme ser reconhecido cedo demais porque sabe que não retorna como vítima das circunstâncias.
Penélope o reconhece quase imediatamente. Não pela cicatriz, pelo arco ou pelo leito construído em torno da oliveira. Reconhece-o por um gesto banal. Ainda assim, finge não saber quem ele é.
Conversa com o estrangeiro no fim da tarde. Conta-lhe que o marido morreu no mar depois de salvar Telêmaco. Antes de desaparecer, teria pedido que ela soubesse que tentara voltar.
Ulisses ouve o relato da própria morte.
Pela manhã, Telêmaco chega. Também reconhece o pai. Diferentemente de Penélope, não consegue esconder a fúria. Ulisses pede que o filho o escute. Telêmaco responde que passou a infância escutando histórias sobre ele.
Os dois lutam. Ulisses hesita no instante decisivo. Telêmaco não.
O grande herói sobrevive a Troia, ao Ciclope, a Circe, às sereias, a Cila, Caríbdis, Poseidon e ao mar. Morre no pátio de sua própria casa, atingido pelo filho que atravessara o mundo para encontrá-lo.
Penélope ordena que seja enterrado sem honras de rei. O homem que atravessou mares para recuperar o próprio nome desce à terra com as roupas de mendigo sob as quais tentou entrar novamente na vida que havia abandonado. Em Ítaca, Ulisses já estava morto. Telêmaco apenas completou a morte que havia inventado.
Seria esse filme uma traição a Homero? Parte da crítica recebeu o filme real de Nolan com essa régua na mão, medindo anacronismos, escalações e liberdades. Mas a palavra traição presume um pacto que não existe. Se estivesse vivo, o poeta talvez passasse a temporada de premiações concedendo entrevistas para explicar que Nolan não compreendera Ulisses, que Penélope jamais permitiria aquele enterro e que o mendigo era um disfarce, não um destino. Stephen King passou anos criticando a versão cinematográfica de O iluminado, enquanto o filme de Kubrick, com a indelicadeza habitual das obras-primas, continuava a não precisar de sua aprovação.
Nada disso provaria que Nolan fez um bom filme. A liberdade de matar Ulisses não transformaria o trabalho em arte: a cena ainda poderia ser pretensiosa, arbitrária ou simplesmente ruim. Nolan teria de responder pela força do que criou, não pela distância que percorreu desde Homero. Dizer "isso não acontece na Odisseia" seria apenas registrar o desvio — não julgar a obra.
O que vale para o filme imaginário vale para o que está nos cinemas. Liberdades pequenas ou grandes — trocar o leito de oliveira por uma estatueta, matar Ulisses — pedem o mesmo julgamento: pela força do que se criou, não pela distância percorrida. Homero poderia reclamar em todas as entrevistas. A história original continua sendo dele. O filme, felizmente, não.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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