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Brasil

A democracia também adoece pelas ausências

Quando quem tem algo a oferecer se recusa a assumir responsabilidades públicas, o poder não fica vazio. Outros o ocupam — e 2026 deveria nos fazer pensar seriamente sobre isso.

Eduardo Vasconcelos

Eduardo Vasconcelos

17/9/2026 12:00

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Há quase três mil anos, uma pequena parábola política registrou um problema que continua assustadoramente atual.

No livro de Juízes, Jotão conta que as árvores decidiram procurar um rei. Foram primeiro à oliveira. Ela recusou. Por que abandonaria o azeite que produzia para governar as outras árvores? Procuraram então a figueira. Ela também preferiu conservar seus frutos doces. Depois chamaram a videira, que não quis trocar seu vinho pelo trabalho de governar.

Restou o espinheiro.

E o espinheiro aceitou.

Sua primeira providência foi oferecer às árvores uma sombra que dificilmente poderia proporcionar. A segunda foi ameaçá-las: se não aceitassem sua proteção, dele sairia fogo para consumir até os cedros do Líbano.

Não pretendo fazer exegese bíblica nem transformar religião em argumento eleitoral. O Brasil é uma República laica, e deve continuar sendo. Interessa-me a história como aquilo que ela é capaz de ser ainda hoje: uma poderosa alegoria sobre poder, omissão e responsabilidade.

Porque existe uma pergunta que deveríamos fazer antes das eleições de 2026:

por que tanta gente que tem algo a oferecer à vida pública prefere ficar longe dela?

Falamos muito sobre os maus políticos. Talvez esteja na hora de falarmos também sobre a ausência dos bons quadros.

A política não nos abandona.

A política não nos abandona.Magnific

O poder não fica vazio

Conheço a resposta mais imediata.

Política desgasta.

Expõe.

Constrange.

Obriga a negociar.

Coloca pessoas competentes diante de ambientes que frequentemente premiam a simplificação, o conflito e a exposição permanente.

Quem ocupa uma função pública precisa lidar com interesses contraditórios, limitações orçamentárias, burocracia, órgãos de controle, imprensa, redes sociais, partidos, corporações, oposição, situação e expectativas que quase sempre são maiores do que os recursos disponíveis.

É muito mais confortável administrar aquilo que dominamos.

O professor permanece em sua universidade. O pesquisador, em seu laboratório. O médico, em seu consultório. O empresário, em sua empresa. O engenheiro, em seus projetos. O agricultor, em sua atividade. O jurista, em seu escritório. O especialista, entre seus pares.

Cada um produzindo seu azeite, seus figos e seu vinho.

Não há nada de errado nisso.

O problema aparece quando o afastamento da política se transforma em uma espécie de superioridade moral.

"Não me envolvo com política."

"Política é suja."

"Não quero meu nome misturado com isso."

"Tenho minha profissão."

"Não preciso disso."

Compreendo todas essas frases.

Mas elas não encerram o problema.

Porque podemos abandonar a política.

A política não nos abandona.

Enquanto alguém decide que política não é problema seu, outra pessoa decide o orçamento da educação, os investimentos em saúde, as prioridades de infraestrutura, a política econômica, as regras tributárias, a segurança pública, a política ambiental, as relações internacionais e centenas de outras decisões que interferem concretamente na vida de milhões de pessoas.

O poder não desaparece quando as pessoas qualificadas se afastam dele.

A cadeira continua lá.

E alguém se sentará nela.

A democracia também é feita de quem não apareceu

Temos o hábito de explicar governos ruins olhando apenas para aqueles que chegaram ao poder.

Talvez isso seja insuficiente.

Uma democracia também é resultado das pessoas que recusaram participar dela.

Dos quadros que os partidos não conseguiram atrair.

Dos especialistas que preferiram comentar a formular.

Dos gestores que aceitaram reclamar do Estado, mas jamais considerar trabalhar para melhorá-lo.

Dos intelectuais que produziram excelentes diagnósticos sobre o país, mas trataram a política concreta como atividade intelectualmente inferior.

Dos profissionais reconhecidos que poderiam ajudar a construir programas, equipes e políticas públicas, mas preferiram permanecer exclusivamente em seus próprios círculos.

É evidente que ninguém possui obrigação moral de disputar eleição.

Seria absurdo defender isso.

A política democrática não acontece apenas dentro dos mandatos. Ela também ocorre nos partidos, universidades, associações, movimentos sociais, sindicatos, entidades empresariais, conselhos, organizações profissionais, administrações públicas e inúmeras instituições da sociedade civil.

A questão é outra.

Uma sociedade não pode desprezar coletivamente a política e depois se surpreender com a qualidade daqueles que passam a dominá-la.

Quando as oliveiras, figueiras e videiras se retiram sistematicamente, aumentam as oportunidades dos espinheiros.

A promessa da sombra

Existe um detalhe extraordinário na parábola de Jotão.

O espinheiro oferece sombra.

Pensemos nisso.

Uma árvore frondosa poderia fazer essa promessa com alguma credibilidade.

Um espinheiro, não.

Politicamente, a imagem é quase perfeita.

A política contemporânea está repleta de gente oferecendo aquilo que não possui capacidade de entregar.

Proteção sem capacidade de proteger.

Prosperidade sem projeto econômico.

Eficiência sem gestão.

Desenvolvimento sem planejamento.

Ordem sem política pública.

Transformação sem instituições.

Soluções simples para problemas que levaram décadas para serem construídos.

E quando a sombra prometida não existe, resta uma ferramenta ainda mais poderosa: o medo.

É exatamente o segundo movimento do espinheiro.

Se vocês não se abrigarem debaixo de mim, haverá fogo.

Traduzido para a política contemporânea, o mecanismo é conhecido.

Talvez eu não consiga convencê-lo de que sou bom.

Então tentarei convencê-lo de que o outro é terrível.

Talvez eu não consiga demonstrar que meu projeto funciona.

Então direi que qualquer alternativa produzirá uma catástrofe.

Talvez eu não tenha sombra.

Mas posso fazê-lo acreditar que, sem mim, haverá fogo.

E assim eleições deixam progressivamente de ser disputas entre projetos de futuro para se tornarem disputas entre medos.

O eleitor já não escolhe necessariamente aquilo que deseja.

Escolhe aquilo que acredita ser necessário para impedir aquilo que teme.

É uma transformação profunda da política democrática.

2026 não pode ser apenas uma eleição contra alguém

Esse risco precisa estar no centro do debate brasileiro de 2026.

Uma democracia saudável precisa conseguir responder a uma pergunta elementar:

para onde queremos levar o país?

Isso exige mais do que slogans.

Exige projetos.

Exige prioridades.

Exige capacidade administrativa.

Exige conhecimento do Estado.

Exige compreender que governar 200 milhões de pessoas não é administrar uma rede social.

Precisamos discutir educação básica, formação profissional, produtividade, desigualdade, segurança pública, equilíbrio fiscal, reforma do Estado, infraestrutura, ciência, inteligência artificial, transição energética, saúde, envelhecimento populacional e competitividade econômica.

Esses problemas não cabem em vídeos de trinta segundos.

Também não desaparecem porque determinado candidato conseguiu construir um inimigo suficientemente assustador.

O Brasil precisa recuperar uma ideia quase elementar: governar é uma atividade extremamente difícil.

Talvez tenhamos banalizado isso.

Competência não é tecnocracia

Há, entretanto, uma armadilha no argumento que estou apresentando.

Poderíamos concluir que basta colocar especialistas no governo.

Não basta.

Competência técnica não substitui competência política.

Um extraordinário economista pode ser incapaz de conduzir um ministério. Um excelente professor pode ser péssimo gestor educacional. Um empresário bem-sucedido pode fracassar no Estado. Um médico brilhante pode não compreender a complexidade institucional do SUS.

Governar democraticamente exige uma combinação muito mais difícil.

Conhecimento técnico.

Capacidade administrativa.

Sensibilidade social.

Compreensão institucional.

Habilidade de negociação.

Responsabilidade fiscal.

Capacidade de construir equipes.

Respeito à divergência.

Disposição para prestar contas.

E compromisso inequívoco com as regras democráticas.

Principalmente uma qualidade que raramente aparece nos currículos: capacidade de governar para quem não votou em você.

É isso que separa administração democrática de administração privada.

O cidadão não é funcionário do governante.

O país não é empresa do presidente.

O Estado não pertence ao partido vencedor.

E oposição não é inimiga do Estado.

Por isso, não precisamos substituir políticos por técnicos.

Precisamos formar e recrutar pessoas competentes que compreendam a política como responsabilidade pública.

É muito diferente.

Os partidos também precisam responder

A responsabilidade não pode ser colocada apenas sobre indivíduos.

Os partidos brasileiros precisam olhar para dentro.

Que tipo de pessoa nossas estruturas partidárias conseguem atrair?

Quem consegue sobreviver aos processos internos de seleção?

Estamos escolhendo os mais preparados para governar ou os mais eficientes em produzir votos?

É claro que partido político precisa ganhar eleição. Sem voto, não há democracia representativa.

Mas existe uma diferença enorme entre capacidade eleitoral e capacidade de governo.

Uma pessoa pode ser excelente candidata e péssima governante.

Pode compreender perfeitamente os mecanismos de comunicação política e desconhecer completamente os mecanismos do Estado.

Pode mobilizar milhões de seguidores e não conseguir coordenar uma equipe de vinte pessoas.

Pode dominar o discurso da mudança e não saber transformar uma promessa em política pública.

Esse problema deveria preocupar todos os partidos — de esquerda, centro e direita.

Porque a pergunta decisiva não é apenas:

quem consegue ganhar?

Também deveria ser:

quem consegue governar depois de ganhar?

A política cobra o preço das ausências

Existe uma espécie de conforto moral em observar a política de fora.

Quem não decide dificilmente erra.

Quem não administra não precisa explicar resultados.

Quem não governa pode preservar a pureza de suas convicções.

A realidade pública não oferece esse privilégio.

Governar significa escolher.

E escolher significa frustrar interesses.

Recursos são limitados.

Necessidades são praticamente ilimitadas.

Toda decisão orçamentária financia alguma coisa e deixa outra esperando.

Toda política pública produz benefícios, custos, riscos e efeitos imprevistos.

É exatamente por isso que precisamos de gente preparada.

Não porque pessoas competentes nunca errem.

Erram.

Mas porque sociedades complexas precisam aumentar a qualidade de suas decisões.

E aqui chegamos ao ponto que mais me interessa.

Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando por que existem tantos espinheiros na política.

Precisamos começar a perguntar por que tantas boas árvores recusaram o chamado.

Quem tem frutos também tem responsabilidades

Não defendo que todo professor, médico, engenheiro, empresário, pesquisador ou administrador deva disputar eleições em 2026.

Defendo algo mais simples.

Precisamos reconstruir socialmente a dignidade da participação pública.

Precisamos convencer pessoas qualificadas de que servir ao Estado não é diminuir sua trajetória profissional.

Precisamos atrair bons quadros para partidos, governos, equipes técnicas, conselhos e instituições.

Precisamos valorizar quem aceita trocar parte do conforto de sua atividade privada ou profissional pelo desgaste de contribuir com a vida pública.

E precisamos abandonar a ideia de que a política pertence naturalmente aos políticos profissionais.

Política pertence à sociedade.

Quando uma sociedade entrega esse espaço exclusivamente àqueles que mais desejam o poder, não deveria se surpreender quando o desejo de poder se torna uma das principais qualificações para exercê-lo.

A cadeira vazia

Voltemos ao monte Gerizim.

A oliveira tinha azeite.

A figueira tinha frutos.

A videira tinha vinho.

Todas tinham algo a oferecer.

Todas recusaram.

Então chegou o espinheiro.

Talvez exista uma leitura profundamente política dessa sequência.

O espinheiro não criou sozinho a oportunidade de governar.

Encontrou uma cadeira que outros recusaram ocupar.

Isso não absolve o mau governante de absolutamente nada.

Responsabilidade por abuso, incompetência ou autoritarismo pertence a quem os pratica.

Mas uma democracia precisa examinar também as condições que tornam determinados governos possíveis.

Entre elas está a ausência.

Ausência de quadros.

Ausência de participação.

Ausência de responsabilidade.

Ausência de disposição para enfrentar o conflito democrático.

Em outubro de 2026, milhões de brasileiros irão às urnas escolher presidente, governadores, senadores e deputados.

Será importante perguntar quem são os espinheiros.

Mas talvez seja igualmente importante perguntar:

onde estão nossas oliveiras, nossas figueiras e nossas videiras?

Onde estão aqueles que estudaram o país?

Onde estão os que aprenderam a administrar?

Onde estão os que sabem construir equipes?

Onde estão os que possuem conhecimento e experiência, mas continuam considerando a política indigna de seu tempo?

Porque existe uma verdade incômoda sobre a democracia:

ela não sofre apenas quando pessoas despreparadas desejam demais o poder.

Ela também sofre quando pessoas preparadas desejam demais o conforto de permanecer longe dele.

E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que deveríamos levar conosco até 2026.

Quando aqueles que têm frutos se recusam a servir, a necessidade de governo não desaparece.

Apenas aumenta a possibilidade de que, mais cedo ou mais tarde, todos acabemos procurando sombra debaixo de um espinheiro.

Referências

BÍBLIA. Juízes. In: BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. Cap. 9, vers. 7–15.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Calendário Eleitoral: Eleições 2026. Brasília, DF: TSE, 2026.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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