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LÍDER DO GOVERNO

PF liga Jaques Wagner a imóvel de R$ 2,45 milhões e repasses do Master

Decisão do STF cita apartamento de luxo, repasse de R$ 3,5 milhões a empresa ligada à família do senador, voos em aeronaves privadas e ingressos para show no exterior. Veja a íntegra.

Congresso em Foco

18/6/2026 | Atualizado às 10:07

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A Polícia Federal aponta o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, como possível beneficiário de vantagens econômicas indevidas em uma frente da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master. A apuração mira a relação do parlamentar com Augusto Ferreira Lima, gestor ligado ao banco e descrito como seu principal interlocutor privado.

Segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF identificou indícios de que vantagens teriam sido direcionadas ao senador direta ou indiretamente, por meio de familiares, pessoas de confiança e empresas ligadas ao grupo investigado. Entre os benefícios citados estão:

  • possível aquisição de apartamento de R$ 2,45 milhões no empreendimento Poème Horto, em Salvador;
  • repasse de R$ 3,5 milhões à BN Financeira, empresa associada ao núcleo familiar de Wagner;
  • uso de aeronaves privadas ligadas a Augusto Lima ou ao Banco Master;
  • ingressos para show internacional no exterior, no valor de R$ 63,3 mil, destinados a familiares do senador.

Veja a decisão de André Mendonça.

Líder do governo, Jaques Wagner é alvo da nona fase da Operação Compliance Zero.

Líder do governo, Jaques Wagner é alvo da nona fase da Operação Compliance Zero.Gabriela Biló/Folhapress

A investigação apura, em tese, crimes financeiros, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos conexos. Para a PF, a relação entre Wagner e Augusto seria antiga, próxima e marcada por confiança pessoal, o que teria aberto espaço para tratativas reservadas em favor de interesses do Banco Master.

A decisão afirma que os autos reúnem mensagens, áudios, chamadas de voz, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários, metadados, planilhas de pagamento e comunicações extraídas de celulares apreendidos. O Ministério Público Federal também se manifestou pelo prosseguimento da apuração.

Apartamento de R$ 2,45 milhões

A suspeita considerada mais grave envolve a unidade 1.702 do Poème Horto. Segundo a PF, Wagner teria enviado a Augusto Lima dados do empreendimento, o contato do corretor, a unidade desejada e o preço: R$ 2,45 milhões.

Augusto teria então acionado Valério Marega Júnior, identificado como "Valério Fundos", para operacionalizar a compra. A aquisição formal teria sido feita pela Epítome S.A., representada por Luiz Antônio Lombardi, com recursos de estruturas de fundos vinculadas ao grupo investigado. Para a PF, a dinâmica é compatível com ocultação do real beneficiário do imóvel.

Outro indício citado ocorreu em maio de 2025. Wagner teria encaminhado a Augusto uma mensagem atribuída a filho ou filha pedindo os dados do proprietário formal do apartamento para emissão de Registro de Responsabilidade Técnica, documento necessário para alterações no imóvel. Para os investigadores, o episódio reforça a hipótese de que o bem estaria em nome de terceiro, mas seria destinado ao núcleo do senador.

A decisão registra ainda que as tratativas sobre o apartamento teriam continuado após a primeira fase da Compliance Zero, com reuniões, chamadas, videoconferências, minutas e documentos de cessão de direitos aquisitivos.

Repasse a empresa ligada à família

O segundo eixo envolve a BN Financeira Ltda., apontada como empresa associada ao núcleo familiar de Wagner. A PF cita mensagens em que Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado do senador, teria cobrado Augusto Lima sobre pagamentos pendentes, com menções a boletos, notas fiscais e documentos a assinar.

Segundo a decisão, a PKL One Participações S.A., empresa vinculada ao núcleo de Augusto, transferiu R$ 3,5 milhões à BN Financeira. A PF também menciona planilhas no celular de Daniel Lopes Monteiro com registros de pagamentos a "Dudu", apelido que, segundo a investigação, corresponderia a Eduardo Sodré. Esses valores superariam R$ 2,34 milhões.

Para os investigadores, as empresas podem ter sido usadas para dar aparência legal a repasses sem prestação real de serviços. O STF autorizou a suspensão das atividades econômicas e financeiras da BN Financeira, da BN Representações Tecnológicas e da Epítome S.A.

Atuação parlamentar sob suspeita

A PF também investiga se Wagner atuou no Senado em temas de interesse do Banco Master. A decisão cita três frentes: crédito consignado, Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

No crédito consignado, a PF menciona a atuação do senador na Emenda nº 30 à MP 1.106/2022, convertida na Lei 14.431/2022. A proposta ampliou a margem consignável para trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais.

No caso do FGC, a investigação cita a Emenda nº 11 à PEC 65/2023. No dia da inclusão da emenda, Augusto Lima teria ligado para Wagner e enviado ao parlamentar o link da proposta. Dias depois, após encontro presencial, teria reenviado o material.

A decisão também destaca mensagem de março de 2025, em que Augusto explicou a Wagner os termos da operação de venda do Banco Master ao BRB e afirmou: "Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!". Para André Mendonça, em análise preliminar, a frase sugere que Wagner não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo.

Outro personagem citado é Guilherme Henrique Sodré Martins, o "Tio Guiga", descrito como pessoa próxima e de confiança de Wagner. Segundo a PF, ele teria atuado como articulador entre o núcleo empresarial do Banco Master, o entorno pessoal do senador e interlocuções relacionadas ao gabinete parlamentar, além de aparecer em tratativas sobre o imóvel e a PEC do FGC.

Papel de Augusto

Augusto Lima é apontado como figura central na suposta entrega de vantagens ao senador e a pessoas de seu entorno. A PF atribui a ele a intermediação de voos, ingressos, pagamentos à BN Financeira, contatos com operadores da compra do apartamento e uso de chamadas de voz e mensagens temporárias, interpretado como possível tentativa de reduzir rastros documentais.

Segundo a decisão, Augusto também atuava como canal de interlocução com Wagner em assuntos de interesse do Banco Master, enviando informações sobre rating, estrutura acionária, Will Bank, PEC 65/2023, operação BRB/Master, requerimentos no Senado e CPI do Master.

Por que nova fase foi autorizada

O STF autorizou as medidas por ver risco à investigação: possível alinhamento de versões entre investigados; continuidade das tratativas sobre o apartamento após fases anteriores da operação; e uso de empresas para movimentar, ocultar ou formalizar vantagens indevidas.

Em relação a Wagner, o ministro proibiu contato com outros investigados, salvo familiares específicos, e com pessoas ligadas ao Poème Horto e à construtora Moura Dubeux. O senador também foi proibido de atuar em negócios com empresas vinculadas ao caso. A PF não pediu suspensão do passaporte do parlamentar.

Para Augusto Lima, foram autorizadas medidas mais duras, como monitoração eletrônica, suspensão de passaporte, proibição de contato com investigados e restrição de atividades negociais com empresas citadas na apuração.

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