Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
COPA DO MUNDO
Congresso em Foco
29/6/2026 7:24
Quando Brasil e Japão entrarem em campo nesta segunda-feira (29), pelas oitavas de final da Copa do Mundo, o duelo colocará frente a frente duas formas diferentes de construir uma seleção.
De um lado, o país que fez do futebol uma de suas principais marcas no mundo, sustentado por talento, tradição e uma cultura popular que revelou alguns dos maiores jogadores da história. Do outro, uma seleção que cresceu a partir de planejamento, profissionalização e metas de longo prazo.
O Japão não virou adversário competitivo por acaso. A ascensão do futebol japonês é resultado de uma transformação iniciada há mais de três décadas, com participação direta de brasileiros que ajudaram a formar uma nova cultura esportiva no país.
Um plano para transformar o futebol
No fim dos anos 1980, a Associação Japonesa de Futebol (JFA) concluiu que depender de gerações talentosas não seria suficiente para levar o país à elite do futebol mundial.
A resposta foi a elaboração de um projeto de longo prazo que previa a profissionalização do esporte, a criação de uma liga nacional forte, a formação de treinadores, o fortalecimento das categorias de base e a aproximação entre clubes e comunidades.
Embora liderado pela JFA, o plano foi construído em parceria com governos locais, empresas, escolas e universidades. Cada clube deveria representar sua cidade, desenvolver projetos sociais e formar atletas desde a infância.
A ideia era simples, mas ambiciosa: criar um sistema permanente de desenvolvimento, capaz de produzir jogadores por décadas, e não apenas montar uma seleção competitiva para uma Copa do Mundo.Anos depois, essa visão seria consolidada no documento JFA 100 Year Vision, que estabeleceu metas para transformar o Japão em uma referência mundial do futebol até o centenário da federação, em 2050.
Nasce a J.League
A primeira grande etapa do projeto foi colocada em prática em 1993, com a criação da J.League.
A liga começou com apenas dez clubes, mas nasceu muito diferente de um campeonato tradicional.
Além de disputar partidas, as equipes assumiram compromissos de investimento em categorias de base, desenvolvimento regional, aproximação com torcedores e profissionalização da gestão.
O futebol passou a ser visto como ferramenta de desenvolvimento social e econômico, fortalecendo a identidade das cidades e incentivando a prática esportiva entre crianças e adolescentes.
O brasileiro escolhido para acelerar a transformação
A mudança começou a ganhar forma ainda antes da criação da liga, em 1991, quando Zico chegou ao Sumitomo Metals, equipe que mais tarde se transformaria no Kashima Antlers.
Sua contratação fazia parte da estratégia de elevar rapidamente o nível técnico e profissional do futebol japonês.
Mais do que um reforço de prestígio, o brasileiro tornou-se referência para a profissionalização do esporte local. Métodos de treinamento, hábitos fora de campo e uma nova mentalidade competitiva passaram a fazer parte da rotina do clube.
Zico ajudou a dar credibilidade ao projeto, atraiu patrocinadores, despertou o interesse do público e mostrou que o Japão estava disposto a aprender com uma das maiores escolas de futebol do mundo.
A influência brasileira
O intercâmbio não parou em Zico.
Nos anos seguintes, jogadores como Dunga, César Sampaio e Alcindo passaram pelo futebol japonês. Técnicos, preparadores físicos e profissionais brasileiros também participaram da formação de atletas e da estruturação dos clubes.
O Japão buscava referências em um país reconhecido mundialmente pelo talento dentro de campo, mas fazia isso dentro de um plano cuidadosamente estruturado.
Enquanto importava conhecimento brasileiro, construía uma organização própria, baseada em planejamento, metas e continuidade.
Os resultados apareceram
Os frutos não vieram imediatamente.
O Japão disputou sua primeira Copa do Mundo em 1998. Quatro anos depois, sediou o Mundial ao lado da Coreia do Sul. Entre 2002 e 2006, Zico voltou ao país para comandar a seleção japonesa.
Desde então, a equipe passou a frequentar as Copas com regularidade, exportar jogadores para os principais campeonatos europeus e disputar fases eliminatórias de forma consistente.
O futebol deixou de ser um esporte secundário no país para se tornar uma das principais modalidades nacionais.
E o Brasil?
No Brasil, a formação de jogadores continua concentrada nos clubes, enquanto as políticas públicas para o futebol permanecem fragmentadas.
O debate costuma girar em torno de temas como SAFs, apostas esportivas, violência nos estádios, racismo e calendário das competições. Questões relevantes, mas que não configuram uma estratégia nacional para o desenvolvimento do esporte.
Não existe um plano de longo prazo que articule União, estados, municípios, escolas, federações e clubes em torno de objetivos comuns para a formação de atletas e o fortalecimento da modalidade.
Muito além das quatro linhas
Nesta segunda-feira, Brasil e Japão disputarão uma vaga nas quartas de final da Copa.
Mas o confronto também simboliza dois modelos distintos.
O Brasil continua sendo a maior referência mundial quando o assunto é talento. O Japão escolheu outro caminho: transformar o futebol em um projeto de décadas, baseado em planejamento, investimento e continuidade.
Trinta e cinco anos depois da chegada de Zico e mais de três décadas após a criação da J.League, a seleção japonesa chega novamente ao mata-mata da Copa como resultado de uma estratégia que ultrapassou governos, atravessou gerações e manteve um objetivo claro desde o início.
{ "datacode": "NOTICIAS_LEIA_MAIS", "exhibitionresource": "NOTICIA_LEITURA", "showDelay": false, "articlekey": 120039, "viewed": [ "120039" ], "context": "{\"articlekey\":120039,\"originalarticlekey\":\"120039\"}" }