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CASO MASTER
Congresso em Foco
25/9/2026 | Atualizado às 9:18
Davi Alcolumbre era amigo de Daniel Vorcaro. Pronto. Isso as mensagens reveladas nesta semana, com ares de estardalhaço, demonstram com bastante clareza.
O presidente do Senado chamava o então banqueiro de amigo, irmão, "meu amor". Havia intimidade, encontros e convivência. Vorcaro, por sua vez, respondia no mesmo tom. As conversas divulgadas pela Veja não deixam grande espaço para dúvida quanto à proximidade entre os dois.
Mas daí a concluir que Alcolumbre estava "capturado", que atuava em benefício do Banco Master ou que sua resistência à CPI decorria dessa amizade existe uma distância considerável.
E distância, em jornalismo, não se percorre com adjetivos.
O banqueiro que conhecia todo mundo
Há um aspecto básico dessa história que começa a desaparecer em meio à enxurrada de mensagens retiradas do celular de Daniel Vorcaro.
Antes de virar personagem central de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país, Vorcaro era controlador de um banco que funcionava regularmente dentro do Sistema Financeiro Nacional.
Não aparecia nos salões de Brasília com uma placa pendurada no pescoço anunciando o que viria depois.
O Banco Master era uma instituição submetida à supervisão do Banco Central. Sua liquidação extrajudicial somente seria decretada em 18 de novembro de 2025, quando o BC apontou grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e graves violações às normas do sistema financeiro.
Até então, Vorcaro circulava. E circulava muito. Relacionava-se com empresários, políticos, jornalistas, advogados, ministros de Estado e integrantes dos Tribunais Superiores. Reportagens baseadas no material apreendido pela Polícia Federal vêm mostrando justamente a extensão dessa rede de contatos - inclusive relações profissionais e comerciais com pessoas conhecidas do mundo jurídico e financeiro.
Isso importa, porque o conhecimento que temos hoje não pode ser artificialmente transportado para o passado. Depois que o filme termina, é fácil apontar o assassino na primeira cena.
"Sou seu irmão"
Em 1º de fevereiro de 2025, quando Alcolumbre voltou à presidência do Senado, Vorcaro o cumprimentou pela eleição. O senador agradeceu o carinho e a "amizade fraterna" e disse ser seu irmão "pra vida toda". Vorcaro respondeu na mesma moeda.
Demonstra amizade? Evidentemente. Demonstra crime? Não.
Quem conhece o estilo carismático da política sabe que tratamentos efusivos fazem parte do cotidiano. Alcolumbre não os reserva ao banqueiro.
O perigoso "e daí?"
Há uma pergunta adequada para boa parte da discussão: e daí?
Não para desprezar a informação. A amizade entre o presidente do Senado e alguém que se tornaria personagem central do caso Master é notícia. A pergunta jornalística vem depois: eles eram amigos. E daí decorreu o quê?
É justamente nesse ponto que deve entrar a apuração. Sem ele, corre-se o risco de transformar uma relação pessoal em insinuação de favorecimento.
O raciocínio é tentador: Vorcaro está envolvido em graves suspeitas. Alcolumbre era seu amigo. Logo...
É nesse "logo" que deve morar o jornalismo, não a insinuação.
E a CPI?
Alcolumbre resistiu à instalação da CPI do Master. A Veja relaciona essa postura à amizade com Vorcaro e fala em manobras regimentais para impedir a comissão.
É uma hipótese legítima de apuração. Mas hipótese não vira fato pela força do adjetivo.
Nesta semana, Cristiano Zanin, do STF, negou liminar para obrigar Alcolumbre a instalar a CPI. Considerou insuficientes, naquele momento, os elementos para demonstrar omissão ilegal e deixou aberta a possibilidade de reexaminar a questão.
Uma ressalva necessária
Há, é fato, um ponto incômodo para Alcolumbre.
Segundo a Veja, quando surgiram anteriormente informações envolvendo Vorcaro, o senador negou conhecer o banqueiro. As mensagens são incompatíveis com a ideia de desconhecimento.
É uma contradição objetiva e jornalisticamente relevante. Mas evitar falar de uma amizade que se tornou politicamente inconveniente é diferente de provar captura do exercício do cargo.
Cada coisa em sua gaveta.
Publique-se tudo. Mas prove-se cada coisa.
As mensagens devem ser conhecidas e escrutinadas. Mas publicar documentos é uma coisa. Dizer o que eles efetivamente provam é outra.
Até aqui, demonstram de maneira contundente que Vorcaro e Alcolumbre eram amigos.
Para ir além disso, são necessários atos, datas, benefícios e consequências que estabeleçam o nexo. Sem eles, o que está comprovado é amizade.
E amizade não é crime.
Temas
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