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Os frutos da crise

Congresso em Foco

23/6/2005 17:11

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Paulo Kramer *


1) Para chegar ao final do seu mandato com estabilidade, Lula cai nos braços do PMDB. A perspectiva de poder operou o "milagre" de aproximar as facções de José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer e até de Orestes Quércia. Esse apoio será, mais uma vez, comprado com ministérios, cargos nos segundos e terceiros escalões da administração direta, indireta, autárquica e das empresas estatais.

2) Entenda-se: o prazo de validade do apoio peemedebista termina com o presente mandato de Lula. A desmoralização do governo petista reduz drasticamente a probabilidade de o presidente da República lançar-se à reeleição no ano que vem. O ministro Antônio Palocci poderá ser escolhido candidato "simbólico" do PT ao pleito presidencial, mas sua verdadeira (e dificílima) missão consistirá, em 2006 e depois, na reestruturação organizacional e doutrinária do partido em moldes social-democratas modernos – o que, por sua vez, implicará a saída, voluntária ou compulsória, dos integrantes das facções mais à esquerda. Se, ao contrário, essa esquerda triunfar no embate interno, o PT se isolará mais e mais do "centrão" moderado da opinião pública, confinando-se às franjas radicais do espectro político. A propósito, o PSol, da senadora alagoana Heloísa Helena, em coligação com o PSTU, o PCO e as bases do PCdoB, preparam-se para preencher o vazio deixado pelo PT na organização do descontentamento da classe média radicalizada (a começar pelo movimento estudantil), sob a forma de ruidosas manifestações de rua contra o governo. Lula, até agora, teve pelo menos esta sorte: a falta de um PT de oposição poupou-o de enfrentar esquadrões de caras pintadas.

3) E quem seria o "candidato próprio" à presidência da República, com quem os peemedebistas sonham há tanto tempo? Este analista apostaria, inicialmente, em dois nomes: o presidente do STF, ministro Nelson Jobim, e o governador Aécio Neves, que, para tanto, abandonaria o PSDB.

4) Aécio já percebeu o jogo duro da cúpula tucana (FHC, Serra, Tarso Jereissati) para emparedar Geraldo Alckmin, um pré-candidato que poderia tornar-se viável desde que fosse apresentado ao país. Por isso mesmo, aquela cúpula reluta em exibi-lo... O governador de Minas Gerais, que tem ainda menos chances nesse jogo do que o seu colega paulista, poderá desembarcar no PMDB para concorrer ao Palácio do Planalto. Jobim, por sua vez, conta com o apoio de caciques peemedebistas como o governador gaúcho Germano Rigotto, tem reconhecido apetite pelo poder e experiência política, além de encarnar à perfeição a antítese a uma das deficiências de Lula que hoje mais constrangem a opinião pública: a falta, digamos, de sofisticação intelectual do atual chefe de Estado.

5) O que acontecerá aos partidos de centro-direita – se é que os rótulos ideológicos significam alguma coisa – que, até agora, formaram a base de apoio parlamentar (Base? Apoio? Parlamentar?) do governo Lula? PTB, PL e PP se acham desmoralizados e enfraquecidos em razão das denúncias de corrupção, e o governo deve deles se afastar na mesma velocidade com que se joga na rede de segurança do PMDB. A crise no PL, cujo presidente, deputado Valdemar Costa Neto (SP), foi abertamente acusado de participar do esquema do mensalão pelo seu colega Roberto Jefferson (PTB-RJ), cria uma oportunidade, mas também um problema, para o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, que, em mineira surdina, sonha disputar a sucessão de Lula. Para expulsar os vendilhões do templo do PL, Alencar teria de fazer o que menos gosta: gastar dinheiro na compra do apoio de seus correligionários.

6) O que acontecerá com José Dirceu? O ex-chefe da Casa Civil retorna à Câmara dos Deputados com seu outrora temível poder do fogo bastante reduzido, correndo até mesmo o risco de ser levado ao Conselho de Ética da Casa e ter o próprio mandato cassado, se não for capaz de se defender convincentemente das acusações assacadas por Roberto Jefferson. Dirceu é impotente para reorganizar a base parlamentar do governo Lula, de um lado, porque os partidos aliados se ressentem de sua prepotência quando era o Rasputin do Planalto; de outro, porque ponderável parcela do seu PT o condena como o grande responsável pela crise e pela corrosão da imagem do partido (uma conseqüência é que no mínimo um terço da bancada do PT está disposto a fazer oposição ao governo agora tutelado pelo PMDB).

7) E o futuro de Lula? O cenário que parece mais provável é o de um presidente enfraquecido pela crise ético-político, arrastando-se até o final do mandato, dependente do incômodo apoio do PMDB e, em certa medida, também da "piedade" do PSDB e do PFL. O primeiro prefere derrotar Lula, por nocaute técnico, ao final da luta. Já os pefelistas, que têm no prefeito carioca César Maia seu pré-candidato à eleição de 2006, talvez não se incomodem com um desfecho mais traumático (renúncia ou impeachment), que, pelos seus cálculos, deixaria o PT fora de combate por muito tempo.

8) Isso nos traz, finalmente, à CPI dos Correios. A dinâmica concorrencial que domina as grandes empresas de comunicação dificultará qualquer tentativa de se abafar as investigações. Todas as denúncias, comprovadas ou não, que choverem sobre a comissão terão enorme e instantânea repercussão. E tamanhos são o descontrole e a volatilidade dos ânimos no Congresso hoje que não é possível prever se uma ou mais ações movidas contra o presidente da República por crime de responsabilidade (prevaricação) serão contidas ou neutralizadas.

9) A crise estimulará reformas político-institucionais urgentes e indispensáveis (financiamento público e transparente de campanhas eleitorais, fidelidade partidária etc.)? Este analista gostaria de responder que sim, mas receia que a própria comoção produzida pelos acontecimentos abra caminho a mais um ciclo personalista e salvacionista, situação em que o espaço para a discussão e o encaminhamento das reformas institucionais seria invadido por apelos carismáticos dos aspirantes a anti-Lula. Nesse caso, em vez do tão almejado governo de leis, continuaríamos à mercê caprichosa do governo de homens.


(*) Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e analista da Kramer & Ornelas – Consultoria.

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