Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Congresso em Foco
Autoria e responsabilidade de Marcelo Mirisola
6/6/2008 | Atualizado 9/6/2008 às 0:00
Marcelo Mirisola*
Então, meu caro Dostoiévski, eu lhe falava de como havia conhecido o Pavão Cabeçudo. Aconteceu em 2001, no Fran’s Café da rua Fradique Coutinho.
Foi assim:
A pretexto de falar sobre literatura, vários candidatos a celebridade desfilavam suas vaidades no Fran’s Café. O Pavão flanava por ali, e anotava os primeiros nomes em sua agenda. Os vermes reuniam-se em grupos que se abriam à infecção, isto é, imiscuíam interesses, trocavam líquidos suspeitos, ocupavam espaços em troca de outros espaços. Cumpriam o protocolo. Todo sábado tinha um convidado de honra. Um figurão escolhido à clef.
Fui convidado a participar do grupo. À época eu era a bola da vez. Uma celebridadezinha dos cadernos culturais e pasquins especializados. As bichinhas culturais me adoravam. Claro, eles não haviam lido os meus livros, e nem vão ler os seus. Como é? Escreveu um livro chamado O jogador? Isso é irrelevante, me escuta.
O que posso dizer a respeito desses convescotes é algo ululante, e um pouco constrangedor (só um pouco) para mim: que, afinal das contas, chafurdava alegremente naquele lixo.
Em primeiro lugar, posso dizer que as vaidades de todos sem exceção eram devidamente afagadas. Não havia quem não escondesse a ambição e não disfarçasse a falta de talento.
A possibilidade de um virgem naquele bordel definitivamente inexistia. Estou falando de homens de negócios, cafetões ilustrados, despachantes. Quer fazer uma analogia? Então imagina uma reunião da alta cúpula no Palácio das Laranjeiras, na época
Pois bem, dei muita corda para verme se enforcar naqueles “encontros”, e acabei eu mesmo sufocado no meio das lombrigas que sevei a cafezinhos e pães de queijo. Talvez eu não tivesse sabido blefar.
Ambiente sórdido de fofocas e interesses escancarados. O objetivo principal do Pavão Cabeçudo era, ele mesmo, ser editado, e influenciar críticos, jornalistas e medalhões (todos carentes de afago), a proclamar seu talento para os quatro cantos do mundo.
Agora, meu caro, imagina as cabeças mais poderosas, coroadas e influentes da grande imprensa e da academia. O famigerado e temido Eixo Rio-São Paulo. Todos gravitando na órbita do Pavão Cabeçudo. O tipo de gente que larga os livros apenas em três casos: ou para investir na bolsa de valores, ou para “interagir” em masmorras sadomasoquistas, ou para ir ao psicanalista.
Imagina a solidão desses coitados que nunca jogaram uma sinuca na vida. Imagina um bordel de tímidos. O tesão represado dessa gente que num dia escreve editoriais devastadores pedindo a cabeça do presidente e, no outro, com a mesma indiferença e elegância, limpa o cocô dos seus poodles nas ruas de Higienópolis. Todos eles passaram por lá, meu caro. Eu vi! USP, Unicamp, Unesp, Uerj com extensão na Folha e no Estadão, Universidade de Paris e Berkeley. Sem contar os banqueiros e os industriais líricos.
O Fran’s da rua Fradique Coutinho foi o primeiro endereço da festa de Paraty, sabia? E o Pavão Cabeçudo desfrutou da intimidade de todos, e anotou os respectivos segredos e as confissões de um por um em sua agenda genial.
{ "datacode": "NOTICIAS_LEIA_MAIS", "exhibitionresource": "NOTICIA_LEITURA", "showDelay": false, "articlekey": 602, "viewed": [ "602" ], "context": "{\"articlekey\":602,\"originalarticlekey\":\"602\"}" }