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Lula, intelectuais & helicópteros (O lugar fora das idéias)

Congresso em Foco

Autoria e responsabilidade de Márcia Denser

20/6/2008 | Atualizado 23/6/2008 às 0:00

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Márcia Denser*

 

Como não foi divulgado tampouco amplamente noticiado, dia 16 de junho passado (segunda-feira) o presidente Lula andou se encontrando com vários intelectuais em Sampa. Como é praxe, a grande imprensa permaneceu em silêncio sepulcral. Nem se a referida reunião tivesse caráter ultra-secreto. Não fosse o blog do Emir Sader na Carta Maior, Lula e os Intelectuais, o fato passaria batido. Parece não ser mera coincidência – Jung diria “sincronicidade” – o fato de há três colunas eu estar discutindo a questão dos intelectuais.

 

Preferindo não apelar para um histórico das relações encontradas e desencontradas de Lula com os intelectuais, Sader conta que a reunião aconteceu depois duma breve viagem à Araraquara onde o presidente, acompanhado com alguns deles, homenageou Gilda de Mello e Souza, esposa de Antonio Cândido, falecida recentemente. Estiveram presentes, por parte do governo, Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, Fernando Haddad, Luís Dulci e Paulo Vanucchi, além de Antonio Candido, Leonardo Boff, Moacyr Scliar, Luiz Gonzaga Belluzzo, Walnice Nogueira Galvão, Luís Fernando Veríssimo, Dalmo Dallari, Adauto Novaes, Paul Singer, Fernando Morais, Maria Vitória Benevides, Gabriel Cohn, entre outros. Rolou muita coisa. Quem quiser conferir, vá ao blog do Emir.

 

Corte.

 

No dia 20 de junho (sexta-feira) a primeira página do UOL lasca uma daquelas matérias asquerosas Helicópteros transformam SP em ‘cidade dos Jetsons’, diz ‘Guardian’: “O jornal explica que, devido ao alto número de moradores e carros circulando na cidade, com engarrafamentos de até 200 quilômetros, os ricos executivos, banqueiros e empresas jornalísticas estão optando pelo helicóptero como meio de transporte. O caso de amor de São Paulo com os helicópteros começou em 1994, depois da introdução de um plano econômico do governo que atrelou a nova moeda brasileira ao dólar. O resultado foi a repentina entrada de helicópteros feitos nos Estados Unidos. Em meados de 90, a gigante americana Bell chegou a fazer cursos de treinamento para pilotos em português, por causa da demanda no Brasil. Só em São Paulo há 420 helicópteros, o que faz da cidade a capital mundial do helicóptero, à frente de Tóquio e Nova York. A “moda” está transformando São Paulo em uma cidade dividida, como o Rio, onde os moradores pobres da favela convivem com milionários dos prédios à beira da praia.

 

E conclui, de forma absolutamente asquerosa (a menos, é claro, se o leitor for masoquista explícito ou secreto ou iniciante ou os três): “Em cima, o mundo da era espacial onde equipes de noticiários voadoras viajam pelo céu para o próximo furo de reportagem, ricos executivos transitam sem esforço entre condomínios de luxo e reuniões de negócios, embaixo, o caos congestionado onde a vasta maioria dos moradores se espreme numa orgia de engarrafamentos e acidentes.”

 

Corte.

 

Agora a pergunta que não calar: por que uma reunião do presidente com os intelectuais do país é algo ignorado pela mídia, enquanto um factóide estúpido e excludente (que exclui, para começar, o leitor que se desidentifica de cara dessa merda) sobre os helicópteros paulistanos publicado no The Guardian recebe chamada de primeira página? Onde, porra, esses caras querem chegar?

           

A resposta é simples.

 

Porque, ao lado dos banqueiros e ricos executivos, as equipes aéreas de notícias e empresas jornalísticas, enfim, a mídia prefere continuar viajando sem esforço nem contato conosco, rastejantes mortais terrestres (incluindo o presidente & intelectuais) em meio à orgia de engarrafamentos e acidentes.

 

Porque é a Terra, a topografia, o “lugar fora das idéias” que nossa mídia, tão sideral & proxeneta, prefere não freqüentar.

           

 

[1] Alguns professores de crítica literária diriam que as aliterações deste título o tornam um verso, e eu responderia que estão corretos – o ódio me torna criativa. Sabem, quando sou boa, sou ótima, mas quando sou má, fico melhor ainda, etc. 

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