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Congresso em Foco
23/6/2005 10:12
Marcos Magalhães |
Foi assim há poucos dias, quando os negociadores argentinos ameaçaram fazer cara de cachorros zangados quando se sentassem à mesa com os colegas brasileiros, na reunião de cúpula do Mercosul, em Ouro Preto. Em defesa da combalida indústria argentina, eles propunham a adoção de salvaguardas temporárias, que permitissem às empresas de seu país se preparar melhor para a competição. A idéia ficou esquecida, ao que parece, em alguma esquina de Ouro Preto. Os governos do Uruguai e do Paraguai uniram-se ao Brasil e ajudaram a apagar qualquer menção a salvaguardas do comunicado final do encontro. A ameaça foi congelada, mas nem mesmo enquanto ela durou parece ter causado muita comoção. Poucos deputados e senadores se preocuparam em ir à tribuna denunciar a atitude argentina. Boa parte dessa passividade pode ser debitada à persistente simpatia política no Brasil com o projeto do Mercosul. Parlamentares ligados ao governo podem não gostar das ameaças do país vizinho, mas ainda assim demonstram um amplo grau de tolerância com o governo de Buenos Aires. A Argentina, recordam, ainda enfrenta problemas sérios na economia e precisa encontrar caminhos para se reerguer. Apesar das poucas vozes em contrário, essa é a posição política que prevalece no momento a respeito do Mercosul. Para que ela se mantenha no futuro, porém, será necessário um pouco mais do que meia dúzia de fotos nos jornais dos presidentes Nestor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva abraçados e sorridentes. Será preciso um pouco mais de ação por parte dos dois governos. Quando Kirchner falou de salvaguardas, a leitura feita por empresários brasileiros foi a de um retrocesso no processo de integração. Os antigos opositores do Mercosul voltaram a propor, como resposta, um passo atrás: o esquecimento do projeto de mercado comum e a adoção, pura e simples, de uma área de livre comércio. De um lado e de outro, o problema talvez seja a falta de percepção de futuro. Se a aproximação com os demais países da América do Sul inspira simpatia no meio político brasileiro, apesar de todas as ameaças de retrocesso, a aposta no progresso e no crescimento tem uma relação ainda melhor com o imaginário de deputados e senadores. Por isso, provavelmente seria bem recebida no Legislativo uma nova e mais ambiciosa aposta no futuro do Mercosul. No momento em que entram definitivamente na agenda nacional as parcerias público-privadas, que poderão ajudar a colocar em prática antigos projetos de infra-estrutura, Brasil e Argentina poderiam liderar a montagem de um projeto de parcerias continentais. Uma iniciativa que garantisse maior competitividade à economia regional diante de uma disputa cada vez mais dura pelos mercados mundiais. Enquanto aguardava a visita a Buenos Aires do presidente da China, Hu Jintao, o governo argentino incluiu entre os projetos que poderiam receber investimentos chineses a construção de uma linha de trens de alta velocidade entre Buenos Aires e Córdoba. Se os vagões entrarão ou não nos trilhos, os próximos anos vão dizer. A mesma ousadia, porém, poderia motivar novos projetos regionais. Se a idéia é construir trens de alta velocidade, por que não se pensar, então, em um projeto que una Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro? E por que não imaginar uma política comum para a indústria e a inovação tecnológica, com maior integração competitiva das empresas de ponta dos países da região? Ou a adoção de um selo de excelência para os produtos agropecuários do grupo? Ainda que leve tempo, a construção de um Mercosul voltado para o futuro parece a melhor solução contra os nostálgicos do protecionismo. |
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