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Sinais trocados

Congresso em Foco

23/2/2006 | Atualizado 24/2/2006 às 0:00

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Marcos Magalhães*

As águas da praia da Lagoa Doce, no Piauí, ajudaram a lavar a alma do presidente Lula. Na mesma semana em que abriu as mãos aos céus, diante das ondas do Atlântico, para pedir uma campanha civilizada às eleições de outubro, o presidente recebeu pelo menos três boas notícias: a forte subida nas pesquisas eleitorais, a crescente disputa no ninho tucano e os discretos sinais de simpatia a sua candidatura por parte de investidores internacionais.

Os números do Datafolha não poderiam ser mais estimulantes. Segundo a pesquisa, Lula venceria o prefeito de São Paulo, José Serra, por 39% a 31% no primeiro turno, se as eleições fossem hoje. Há menos de um mês, os dois estavam tecnicamente empatados. E ganharia do virtual candidato do PSDB também no segundo turno, por 48% a 43%.

Melhor ainda, Lula cresceu entre os eleitores de maior renda e escolaridade. Afastou assim, pelo menos por enquanto, a tese de que seria o candidato apenas da parcela mais pobre e menos instruída da população. Por enquanto, pois não se sabe que efeito terá o início da propaganda eleitoral – com todo o revival das denúncias de corrupção – sobre as mentes dos eleitores mais esquecidos.

O barco do presidente tem o vento a favor da enorme exposição à opinião pública. Homem público, diz ele, faz campanha 365 dias por ano. Suas viagens a Alagoas, Pernambuco ou Piauí recebem total cobertura da imprensa. Sem dizer que é candidato, aproveita as luzes para ser cada vez mais lembrado. Com isso, vai construindo uma nova imagem, longe daquela do presidente acuado pelas denúncias.

Bem menos tenso do que nos últimos meses, Lula se diverte especialmente com a briga de foice que acontece no PSDB pela indicação do candidato do partido às eleições presidenciais. O fogo amigo no mais importante partido de oposição tem ajudado a queimar as duas alternativas dos tucanos: Serra e o governador Geraldo Alckmin.

Alckmin ainda tem lá suas chances de se tornar candidato. Mas Serra ainda desponta como favorito na disputa, por ser aparentemente mais competitivo segundo as pesquisas eleitorais feitas até o momento. Se parte de um patamar mais confortável, porém, Serra também enfrenta suas resistências – desta vez não em partidos aliados, como em 2002, mas junto aos investidores que, em tese, estariam do lado do PSDB.

Lula já não assusta mais a turma do mercado, embora ainda se cobre dele a retomada de reformas importantes, como a tributária e a da Previdência. Mas será que o mesmo se pode dizer de Serra? Depois das recentes declarações do prefeito de São Paulo sobre os juros e o câmbio, ele passou a ser visto como o heterodoxo da vez.

Investidores internacionais reunidos há poucos dias em Nova York, como registrou o jornal Valor Econômico, consideraram “preocupantes” as últimas declarações de Serra, que indicariam a intenção de exercer maior intervenção, por exemplo, na definição do valor do dólar. Ao contrário do que se poderia esperar, a simpatia política do “mercado” poderá pender para Lula, menos pelas suas virtudes do que pela ameaça do desconhecido. E os sinais trocados dessa nova equação política poderão representar um soprinho a mais a favor da jangada petista.

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