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Congresso em Foco
21/6/2006 | Atualizado 22/6/2006 às 0:00
Marcos Magalhães*
Pode ser coincidência, mas os números do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se estabilizaram lá em cima e os números da inflação estacionaram lá embaixo. Se as eleições fossem hoje, o presidente teria uma boa chance de obter um novo mandato já no primeiro turno. E se a tendência de evolução dos preços de hoje valesse para todo o ano, o país estaria próximo da civilizada inflação de 4% - menor do que a prevista na meta oficial para este ano.
Pode soar irônico, mas os números favoráveis foram utilizados pelo presidente do Banco Central do governo do PT, Henrique Meirelles, para rebater críticas às taxas de juros feitas pelo principal candidato de oposição ao Palácio do Planalto - Geraldo Alckmin, do PSDB. Para Alckmin, falta coragem ao governo para adotar uma política monetária mais ousada. A redução dos juros, respondeu Meirelles em audiência na Câmara, depende mais de fundamentos técnicos do que de valentia.
Os primeiros debates sobre a política econômica do país a partir de 2007 parecem marcados, até agora, por sinais trocados. É bem verdade que as diretrizes iniciais de um programa de governo do PT - anunciadas pelo presidente do partido, Ricardo Berzoini - passam longe de temas politicamente ingratos, como a reforma da Previdência e o controle dos gastos públicos. Mas alguns dos mais potentes petardos lançados até agora contra a ortodoxia econômica partiram do PSDB, partido do qual o PT herdou boa parte dos fundamentos da política atualmente em vigor.
Para Alckmin, não é prioritária, por exemplo, a autonomia operacional do Banco Central. Ele pode até gostar da idéia, mas garante que sua prioridade é a retomada do crescimento. Autonomia do BC, na opinião do candidato, é coisa para quem precisa mostrar bom comportamento ao mercado - o que não seria o caso do PSDB. Ele também pede uma redução mais rápida da taxa de juros. E acaba ouvindo de Meirelles que isto só será possível se combinar com as metas de inflação.
Os passos ensaiados em direção a uma postura mais "desenvolvimentista" já foram a marca de políticos do PT, quando faziam oposição ao então ministro da Fazenda Pedro Malan. Agora são adotados com entusiasmo por um Alckmin aparentemente disposto a afastar a sua imagem dos economistas recrutados principalmente na PUC carioca pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A retórica do PT permanece mais ou menos a mesma. Mas a prática do governo petista soa bem diferente. Lula tem emitido sinais de que não pretende abrir mão da política de combate à inflação. E demonstra uma abertura maior do que a do PT para tratar de temas pouco atraentes para o eleitorado, como a reforma previdenciária.
Se os fatos confirmarem as previsões, Lula terá mais quatro anos no Palácio do Planalto. E, se o pragmatismo superar o discurso, como tem acontecido nos últimos três anos, a política econômica oficial vai permanecer mais ou menos a mesma, de lenta e gradual aproximação com a retomada do crescimento. Com alguma nova pitada de esquerda aqui e ali, para encantar paladares petistas mais tradicionais.
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