Javier Milei não venceu a eleição argentina apenas por defender uma agenda econômica radical. Antes de chegar à presidência, construiu um personagem político baseado no confronto, na ruptura e na rejeição ao sistema. Apresentou-se como alguém de fora da política, definiu uma elite como inimiga e transformou o conflito em sua principal ferramenta de mobilização. Renan Santos identificou nesse modelo um caminho para construir sua própria liderança.
O pré-candidato à presidência pelo Partido Missão já afirmou publicamente que se inspira em Milei. A aproximação mais interessante, porém, não está apenas nas propostas econômicas. Está na forma como organiza sua comunicação e disputa espaço dentro da direita brasileira. Minha pesquisa de mestrado sobre Trump, Bolsonaro e Milei identificou uma gramática discursivo-performativa recorrente entre lideranças da nova direita conservadora. Apesar das diferenças nacionais, esses atores compartilham uma lógica semelhante de construção da liderança. Personalizam a política, produzem antagonismos permanentes, definem inimigos comuns e utilizam o conflito como mecanismo de mobilização.
Renan busca adaptar essa gramática ao contexto brasileiro. Assim como Milei construiu sua ascensão atacando a "casta", Renan precisa produzir um sistema contra o qual possa se insurgir. Seu desafio, porém, é maior. O Brasil de 2026 já possui uma direita organizada, lideranças antissistema consolidadas e um campo conservador fortemente marcado pelo bolsonarismo. Para conquistar espaço, não basta enfrentar a esquerda. É preciso disputar a liderança da própria direita.
Por isso, seus ataques não se dirigem apenas aos adversários tradicionais. Renan confronta Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e outras lideranças conservadoras. O objetivo é reorganizar a fronteira política. Em vez de uma divisão apenas entre direita e esquerda, procura estabelecer outra, entre aqueles que representariam a continuidade do sistema e aqueles que reivindicam a ruptura.
A semelhança com Milei também aparece na forma de comunicar. Renan aposta em uma linguagem agressiva, personalista e orientada pelo confronto. A provocação deixa de ser um excesso e passa a integrar a estratégia de construção da liderança. Foi exatamente essa lógica que ajudou Milei a transformar a transgressão em autenticidade política. Isso não significa que Renan esteja copiando o presidente argentino.
Modelos políticos não são reproduzidos mecanicamente. Eles são adaptados às instituições, ao ambiente eleitoral e às características de cada país. E é justamente aí que aparece a principal diferença. O Brasil de 2026 não é a Argentina de 2023. Milei chegou ao poder em meio a uma crise econômica profunda, ao desgaste simultâneo das principais forças políticas e ao colapso da confiança nas instituições. No Brasil, Lula ainda lidera o campo da esquerda, enquanto o bolsonarismo mantém influência sobre uma parcela expressiva da direita.
Essa diferença ajuda a compreender a estratégia de Renan. Pelo que ele próprio tem sinalizado, sua candidatura parece mirar mais do que a disputa imediata pela presidência. Ela também funciona como um processo de construção de uma liderança nacional. Nacionalizar seu nome, fortalecer seu partido e ocupar espaço na reorganização da direita para um cenário posterior ao governo Lula.
Nesse sentido, Milei oferece menos um roteiro eleitoral para 2026 do que um modelo de construção política. O objetivo não parece ser reproduzir a trajetória argentina, mas adaptar uma forma de fazer política baseada na personalização da liderança, no antagonismo permanente e na mobilização pelas plataformas.
A tentativa de construir um "Milei brasileiro", portanto, não está na importação de um programa de governo. Está na adaptação de uma gramática política que já demonstrou capacidade de produzir novas lideranças em diferentes contextos. É justamente essa circulação de modelos, mais do que de ideias, que ajuda a compreender parte das transformações recentes da nova direita conservadora.
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