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Política
13/7/2026 14:00
Tratar os evangélicos como um bloco político homogêneo é um dos maiores erros de cálculo político que eu vejo repetirem a cada eleição. É um erro analítico, eleitoral, estratégico e, dentro dele, existe outro ainda maior: imaginar que as mulheres evangélicas votam exatamente como os homens evangélicos.
Sou uma mulher evangélica, de denominação Batista, e defendo transformações sociais, políticas e econômicas voltadas à promoção da igualdade, dos direitos humanos e do avanço científico. Minha atuação profissional é dedicada ao enfrentamento da violência contra meninas e mulheres. E, talvez por isso eu saiba, na prática, o quanto as caricaturas sobre os evangélicos — em especial sobre as mulheres evangélicas — pouco correspondem à realidade.
Na véspera do segundo turno de 2022, o Datafolha indicava que 69% dos votos válidos dos evangélicos iriam para Jair Bolsonaro, mas embora a maioria dos evangélicos tenha votado, de fato, nele, entre as mulheres evangélicas Lula obteve maioria naquele pleito. Isso revela que gênero importa tanto quanto religião. E que não existe um voto de cabresto quando se trata de mulheres.
O primeiro passo para abandonar esse erro é deixar de acreditar na categoria "voto evangélico". As diferenças entre igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais são relevantes e ditam mais o perfil desse segmento do que, quem está de fora, imagina. Levantamento do Datafolha mostra que as mulheres representam cerca de 58% do segmento evangélico, percentual que chega perto de 70% em igrejas neopentecostais. Essas mulheres são majoritariamente pardas e negras, pertencem às classes populares e vivem realidades muito diferentes entre si.
Também é um equívoco imaginar que elas votam "com a Bíblia na mão". A Bíblia faz parte da vida delas, mas não substitui o cotidiano. Trabalho, segurança, acesso à creche, escola, saúde — especialmente a saúde da mulher — aparecem como preocupações permanentes. O medo mais recorrente é adoecer e não conseguir cumprir a responsabilidade de cuidar da família, função que ainda recai majoritariamente sobre elas. Nesse contexto, a igreja deixa de ser apenas um espaço religioso para se tornar uma rede concreta de proteção, solidariedade e pertencimento.
E aqui está uma distinção importante: para muitas dessas mulheres, família não é apenas pai, mãe e filhos, é também a família espiritual construída na igreja. Muitas chegaram à fé por influência de parentes, mas permaneceram porque encontraram acolhimento. Não por acaso, a falta de senso de comunidade aparece como uma das principais razões para mudar de congregação.
Esse sentimento ajuda a entender outro aspecto: elas não gostam da politização dos púlpitos. Pesquisas mostram que elas são críticas à atuação de lideranças religiosas que transformam a igreja em extensão da disputa partidária. A percepção recorrente é que isso produz divisão justamente no espaço onde elas procuram unidade. Também rejeitam a ideia de que votam obedecendo orientações pastorais, pois consideram que possuem discernimento suficiente para decidir por conta própria.
Outro mito recorrente é imaginar que elas rejeitam qualquer pauta relacionada aos direitos das mulheres. A realidade é que muitas apoiam remuneração igual, combate à violência de gênero e políticas de saúde feminina, mas rejeitam a identidade política do feminismo quando percebem que ele entra em conflito com o valor central da família.
Talvez por isso o afeto pese tanto na política. Essas eleitoras não procuram apenas competência, elas procuram cuidado e confiança, alguém que pareça compreender sua realidade. Em 2022, pesquisas mostraram que três fatores afastaram parte delas de Bolsonaro: a defesa das armas, a condução da pandemia e, principalmente, o estilo considerado agressivo e grosseiro. Provando que o tom da comunicação importa tanto quanto o conteúdo.
É nesse contexto que ganha relevância a tentativa de alguns atores políticos de construir uma imagem de masculinidade mais acolhedora. Gestos, linguagem corporal e demonstrações públicas de afeto passam a comunicar proximidade e proteção. Da mesma forma, figuras femininas com trajetórias percebidas como comuns, como a de Michelle Bolsonaro, ligadas à periferia, à família e à igreja, tendem a estabelecer identificação com mais facilidade do que lideranças que transmitem distância social. Michelle, inclusive, é o arquétipo perfeito da pessoa comum: nasceu na periferia do Distrito Federal, veio de uma família desajustada, engravidou e teve que enfrentar sozinha a criação da primeira filha, não nasceu na igreja, se tornou evangélica depois de mais velha, e nunca fez carreira na política.
Por fim, vale observar onde essas mulheres formam suas opiniões. A propaganda eleitoral tradicional perdeu espaço e a principal arena política está nos grupos de família do WhatsApp e nas redes sociais, onde acompanham familiares, lideranças religiosas e artistas gospel. Em 2022, foi justamente por esses canais que prosperaram narrativas falsas, como a de que uma eventual vitória de Lula resultaria no fechamento de igrejas.
Quem continuar tratando a mulher evangélica como um voto automático seguirá errando o diagnóstico. Ela não é definida apenas pela religião, nem pela cor, nem pelo gênero, nem pela ideologia. Ela decide a partir da vida concreta e cotidiana. E talvez seja exatamente por isso que ela continue sendo o eleitorado mais mal compreendido da política brasileira.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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