Na disputa eleitoral deste ano, os candidatos podem encontrar uma dificuldade inesperada para apresentar suas propostas a novos eleitores nas redes sociais. Plataformas como Meta e X deixaram de recomendar perfis oficiais de campanha e seus conteúdos a usuários que ainda não os seguem. A medida busca evitar favorecimento entre candidaturas, mas pode produzir o efeito contrário e ampliar desigualdades na disputa.
A justificativa é compreensível. Empresas privadas controlam os algoritmos que determinam o que milhões de brasileiros veem. Permitir que esses sistemas recomendem livremente candidatos poderia produzir tratamento desigual entre as candidaturas. A regra procura limitar a influência das plataformas sobre a competição eleitoral.
O problema é que essa restrição pode ampliar desigualdades. A primeira envolve o tamanho da audiência. Uma candidatura que entra na eleição com milhões de seguidores não enfrenta as mesmas condições de outra que ainda precisa se apresentar ao eleitor. Sem a recomendação dos perfis oficiais a novos públicos, quem já possui uma grande base de seguidores larga na frente.
Quem passou anos construindo comunidades digitais começa a campanha com uma vantagem acumulada. No Brasil, isso pode favorecer setores da direita que investiram na formação de grandes audiências e redes de apoiadores.
A segunda desigualdade envolve os recursos financeiros das campanhas. Na Meta, perfis oficiais e seus conteúdos deixaram de ser recomendados a usuários que ainda não os seguem, mas o impulsionamento eleitoral continua permitido. O algoritmo deixa de recomendar espontaneamente determinado conteúdo oficial para esse eleitor, mas a campanha pode pagar para alcançá-lo.
Ao tentar reduzir a influência dos algoritmos sobre a disputa, a regra pode aumentar o peso do dinheiro na circulação das mensagens. Campanhas com mais recursos poderão compensar parte da perda de alcance orgânico com anúncios pagos. Candidaturas com menor capacidade financeira terão menos condições de recorrer a essa alternativa.
Outra desigualdade decorre da capacidade de mobilização fora das contas oficiais. Influenciadores, militantes, grupos de WhatsApp, páginas de apoiadores, lideranças territoriais e eleitores dispostos a compartilhar conteúdos passam a ter maior influência sobre a circulação das mensagens. Eleitores e apoiadores podem divulgar propaganda eleitoral, respeitadas as restrições previstas na legislação.
Sem a recomendação dos perfis oficiais a novos públicos, cresce a dependência dessas redes de circulação. Audiência, dinheiro e organização política passam a pesar ainda mais em uma disputa na qual esses recursos já estão distribuídos de forma desigual. A regra procura impedir que as plataformas favoreçam determinadas candidaturas. Aplicar a mesma restrição a todos os candidatos, porém, não significa colocá-los nas mesmas condições de competição. Em 2026, a disputa dependerá da capacidade de convencer e das condições para fazer a mensagem chegar ao eleitor que ainda não foi alcançado.
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