Há algo nos movimentos sociais que sempre me mobiliza: o instante em que uma preocupação deixa de ser vivida em silêncio e passa a reunir pessoas dispostas a transformar a realidade. Uma dificuldade no trabalho, uma ameaça a direitos, uma injustiça que parecia incontornável. Quando essas experiências encontram uma voz coletiva, novas possibilidades começam a surgir.
Foi com esse olhar que li o artigo "A nova corrente socialista nos EUA e a Convenção do Bread & Roses/DSA", de Pedro Fuentes e Pedro S., publicado em 2 de novembro na Revista Movimento. O relato sobre a organização de trabalhadores e estudantes nos Estados Unidos me levou a repensar na capacidade da sociedade de construir respostas em períodos de insegurança e de enfraquecimento da confiança nas instituições.
Nas semanas que antecederam o segundo turno de 25 de outubro de 2026, o Brasil viveu uma mobilização popular que merece ser lembrada pela força com que levou a defesa da democracia às ruas e às conversas do dia a dia. Estudantes e outros grupos da sociedade se organizaram, ocuparam espaços públicos e chamaram mais gente a participar das decisões sobre o futuro do país.
Foi com essa experiência brasileira em mente que voltei o olhar para os Estados Unidos. Num país cujas decisões repercutem em boa parte do mundo, merece atenção o movimento de trabalhadores e estudantes que vêm transformando as dificuldades do cotidiano em ação coletiva por melhores condições de vida, participação política e defesa de direitos.
O Bread & Roses, ou Pão e Rosas, é uma corrente interna dos Democratic Socialists of America (DSA). A partir do relato dos autores, chama atenção a maneira como essa organização de identidade socialista aproxima trabalhadores, estudantes e demandas sociais concretas.
O próprio nome oferece uma imagem poderosa. Pão e rosas remetem à sobrevivência e à possibilidade de uma vida que também comporte descanso, cultura, beleza e realização. Quem trabalha precisa de renda, mas também de tempo para os filhos, de saúde, de moradia e de condições para participar da comunidade.
Segundo Fuentes e Pedro S., aproximadamente metade dos 150 delegados presentes à convenção da corrente tinha atuação sindical de base. O encontro também reuniu jovens envolvidos em mobilizações universitárias em defesa da Palestina.
Esses dados revelam um trabalho que costuma receber menos visibilidade do que as disputas eleitorais: conversar com colegas, organizar reuniões, formular reivindicações e sustentar vínculos ao longo do tempo. É nesse cotidiano que uma insatisfação pode ganhar continuidade e se tornar uma força social.
No Brasil, uma mobilização recente de estudantes da Universidade Federal Fluminense ajuda a pensar esse processo. Segundo reportagem da Agência Brasil, um ato convocado por entidades estudantis do curso de Direito, após o primeiro turno das eleições, reuniu centenas de pessoas em Niterói e impulsionou iniciativas de mobilização em apoio a Lula que ecoaram no país.
O cartaz de convocação dizia: "O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento". Em meio à polarização eleitoral, gosto da frase porque ela descreve um gesto democrático que começa no cotidiano. Quando as pessoas conversam sobre o que as inquieta, descobrem que outras compartilham da mesma preocupação e podem, juntas, encontrar uma forma de agir.
Seria uma simplificação explicar um resultado eleitoral por uma única manifestação. Mas iniciativas como essa ajudam a compreender como estudantes podem ampliar conversas, ocupar espaços públicos e incentivar outras pessoas a participar.
As experiências brasileira e norte-americana têm contextos, dimensões e objetivos próprios. O ponto de aproximação está nessa disposição de sair do isolamento e construir uma resposta compartilhada. Uma conversa entre colegas pode produzir uma mobilização e levar ao debate público questões que permaneciam sem escuta. É essa capacidade de abrir caminhos que admiro nos movimentos sociais.
Como advogada, meu olhar se volta também para o que acontece quando essas reivindicações chegam às instituições. Movimentos sociais ajudam a tornar visíveis problemas que a linguagem jurídica, sozinha, nem sempre consegue alcançar em sua dimensão humana.
Nesse encontro, a litigância estratégica pode desempenhar um papel importante. Trata-se de utilizar uma ação judicial com o propósito de produzir efeitos que ultrapassem o caso individual, contribuindo para enfrentar uma prática discriminatória ou ampliar a proteção de direitos.
A experiência norte-americana oferece um exemplo histórico. A atuação da NAACP e de seus advogados integrou uma estratégia de enfrentamento à segregação racial que culminou, em 1954, no julgamento de Brown v. Board of Education. Naquela decisão, a Suprema Corte reconheceu a inconstitucionalidade da segregação racial nas escolas públicas. O processo foi construído com a participação de famílias, lideranças comunitárias e profissionais do Direito, ao longo de anos.
Essa experiência ajuda a compreender como a organização social pode encontrar diferentes caminhos para transformar instituições. A mobilização pública, a participação política e a atuação jurídica podem se fortalecer mutuamente. Uma decisão judicial pode reconhecer um direito. Sua concretização, porém, também exige acompanhamento, informação e pessoas dispostas a cobrar seu cumprimento.
A leitura do artigo de Fuentes e Pedro S. me interessa especialmente por mostrar esse esforço de construção. A presença de trabalhadores e jovens, a atuação nos sindicatos e a troca de experiências com organizações de outros países revelam uma disposição de dar continuidade às reivindicações.
Isso não dispensa um olhar crítico. Qualquer organização precisa ser avaliada por suas práticas, pela abertura à divergência, pela democracia interna e pelo respeito aos direitos que afirma defender. A vitalidade de um movimento também depende de sua capacidade de ouvir e rever caminhos.
Há algo significativo quando pessoas passam a reconhecer as dimensões coletivas dos problemas que vivenciam. O custo da moradia, a precariedade do trabalho e a dificuldade de acesso à saúde ganham outro lugar no debate quando aqueles que os enfrentam conseguem se organizar.
É nesse sentido que vejo um mundo novo em gestação. Um mundo cuja construção depende de pessoas que se encontram, aprendem umas com as outras e descobrem que podem participar das decisões que afetam suas vidas.
Talvez o cartaz dos estudantes da UFF tenha encontrado palavras especialmente felizes para esse momento. O abalo precisa encontrar escuta. O espanto precisa encontrar companhia. E ambos podem se transformar em movimento.
É assim que a esperança começa a ganhar consequências.
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