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Brasil pode virar narcoestado, diz à CPI promotor que investiga o PCC

Na CPI do Crime Organizado, Lincoln Gakiya afirma que facção já atua como máfia, domina territórios e se infiltra na economia. Para ele, falta ação coordenada do Estado.

25/11/2025
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O promotor de Justiça paulista Lincoln Gakiya, uma das principais autoridades do país no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), fez um alerta contundente à CPI do Crime Organizado nesta terça-feira (25): se nada for feito, o Brasil corre o risco de se tornar um narcoestado.

"O Brasil caminha a passos largos para se tornar um narcoestado — se nada for feito", disse o promotor, ressaltando que o avanço das facções sobre a economia formal e a política já ameaça a capacidade de o Estado se sustentar sem a atuação do crime organizado.

Lincoln Gakiya durante depoimento à CPI do Crime Organizado.Edilson Rodrigues/Agência Senado

Gakiya afirmou que, se não houver coordenação efetiva entre as instituições, ação integrada e fortalecimento da investigação financeira, o país poderá repetir o cenário vivido pela Colômbia na era de Pablo Escobar.

"Quando é que temos um narcoestado? Quando essas organizações começam a participar da economia formal, da vida política, dominam territórios e o Estado passa a depender delas para funcionar."

Organização mafiosa

Em sua exposição, Gakiya detalhou a estrutura do PCC, que classifica como uma organização mafiosa devido ao alto grau de profissionalização financeira, infiltração no setor privado e presença internacional.

Segundo ele, a facção atua hoje em todos os estados brasileiros, no Distrito Federal e em 28 países. É, nas palavras do promotor, a organização criminosa que mais cresce no mundo.

O PCC mantém relações comerciais com máfias europeias — como 'Ndrangheta e Camorra —, grupos do Leste Europeu, organizações africanas e facções sul-americanas.

PCC é "infinitamente maior" que o Trem de Aragua, diz Gakiya

Ao comparar o PCC com outras facções do continente, o promotor destacou que o Tren de Aragua (TDA) — facção venezuelana que se expandiu após a crise humanitária no país vizinho — é relevante na fronteira norte, mas não chega perto do poderio do grupo paulista.

"O Tren de Aragua é uma organização criminosa hoje infinitamente menor do que o PCC."

Segundo ele, o TDA opera rotas clandestinas em Roraima e mantém associação operacional com o PCC, mas sem qualquer equivalência em estrutura, finanças ou capacidade de expansão.

Gakiya também comentou a classificação norte-americana da Venezuela como "narco-Estado", dizendo que a definição usada pelo governo Donald Trump é mais política do que técnica. "Acho que a classificação do Trump é mais política e ideológica do que jurídica e doutrinária."

Ele afirmou que a Venezuela não produz cocaína, que os principais produtores são Colômbia, Peru e Bolívia e que o território venezuelano funciona como rota logística, não como centro de produção. "A Venezuela é um ponto de passagem importante, mas não é uma grande produtora de droga."

O promotor atribuiu boa parte da expansão do crime organizado à ausência prolongada do Estado, especialmente no sistema prisional e nas periferias. Segundo Gakiya:

  • o PCC nasceu em 1993 e se tornou hegemônico em São Paulo;
  • infiltra-se hoje em empresas de ônibus, contratos públicos, fintechs e apostas on-line;
  • fatura entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões por ano.

Gakiya afirmou que o Brasil mantém um ambiente ideal para a expansão das facções por falhas de integração institucional, disputas corporativas e vácuos legais explorados por contadores, advogados e consultores contratados pelo crime.

Convidado pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE), Gakiya falou à CPI por mais de uma hora. A comissão investiga a infiltração de facções em setores econômicos e órgãos públicos.

O promotor, que investiga o PCC há mais de 20 anos, reforçou que o país ainda tem tempo para reagir — mas precisa agir imediatamente.

"Nós temos instituições capazes de fazer frente a isso. Mas a falta de coordenação e as disputas políticas têm atrapalhado. Se nada for feito, nós nos tornaremos, sim, um narcoestado."

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