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Emergência climática

O super El Niño e a crise social do calor extremo

Ondas de calor atingem toda a população, mas seus efeitos recaem com mais força sobre trabalhadores, estudantes e moradores das periferias urbanas.

Reinaldo Dias

Reinaldo Dias

10/6/2026 10:00

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As projeções climáticas mais recentes sobre a formação de um novo El Niño em 2026 indicam que o país poderá enfrentar, nos próximos meses, um cenário de calor extremo ainda mais severo do que aquele já observado nos últimos anos. A preocupação não decorre apenas da provável ocorrência do fenômeno, mas de sua possível intensidade, apontada por alguns analistas como compatível com aquilo que, na linguagem jornalística e pública, passou a ser chamado de "super El Niño". Embora essa expressão não seja adotada formalmente pelos organismos meteorológicos internacionais, ela traduz uma apreensão concreta: a combinação entre El Niño, oceanos aquecidos e aquecimento global pode ampliar ondas de calor, secas, chuvas extremas e pressões sobre sistemas urbanos já frágeis.

Depois de 2024 ter sido confirmado como o ano mais quente já registrado e de 2025 ter permanecido entre os anos mais quentes da série histórica, a chegada de um El Niño excepcionalmente forte tende a aprofundar riscos que o Brasil ainda insiste em tratar como episódios passageiros. Nesse contexto, o calor extremo deixa de ser apenas um desconforto sazonal e passa a se apresentar como uma crise social mais ampla, atingindo com maior intensidade trabalhadores, estudantes, usuários do transporte coletivo e populações que vivem em áreas urbanas sem infraestrutura adequada.

A questão central, portanto, não está apenas na temperatura que será registrada pelos termômetros. Está na forma desigual como esse calor será suportado pela população. Há quem possa se proteger em ambientes climatizados, reorganizar horários, trabalhar remotamente ou reduzir deslocamentos. Mas há milhões de pessoas que acordam cedo, entram em ônibus lotados e sem ar-condicionado, percorrem longas distâncias sob temperaturas elevadas, trabalham em ruas, canteiros de obras, serviços de limpeza, comércio ambulante, entrega, logística, agricultura, escolas precárias e unidades públicas mal ventiladas. Para essas pessoas, um El Niño excepcionalmente forte não será uma abstração climática. Será uma experiência física, diária e exaustiva, marcada por fadiga, adoecimento, queda de rendimento, insegurança no trabalho e perda de qualidade de vida.

Quando se observa a dimensão global do problema, percebe-se que o calor extremo já deixou de ser um tema restrito à meteorologia ou à saúde ambiental, passando a ocupar lugar central nas discussões sobre trabalho, produtividade e proteção social. A Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de 70,9% da força de trabalho mundial, aproximadamente 2,4 bilhões de pessoas, já esteja exposta ao risco de calor excessivo.

No Brasil, mais de 20 milhões de trabalhadores atuam ao ar livre, especialmente na agropecuária, na limpeza urbana, na reciclagem, no transporte e em atividades informais. São trabalhadores que enfrentam maior risco de desidratação, exaustão térmica, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, câncer de pele e infecções transmitidas por vetores, como a dengue. A ONU estima que o calor mata quase meio milhão de pessoas por ano, número muito superior ao das mortes associadas a ciclones tropicais. A OIT alerta ainda que, acima de 34°C, a produtividade do trabalho pode cair pela metade, com perdas econômicas globais estimadas em US$ 2,4 trilhões até 2030.

Diante desses números, torna-se cada vez mais difícil manter a crise climática circunscrita ao campo ambiental, como se seus efeitos se limitassem ao derretimento de geleiras, à elevação do nível do mar, à perda de biodiversidade ou à intensificação de eventos extremos. Tudo isso permanece verdadeiro, mas o calor extremo evidencia outra dimensão do problema: a crise climática também é uma questão trabalhista, educacional, sanitária e urbana. Ela reorganiza as condições concretas de vida de milhões de pessoas, afetando o corpo de quem trabalha, a concentração de quem estuda, a saúde de quem se desloca e a dignidade de quem não tem alternativa senão continuar produzindo, ensinando, aprendendo e se movimentando em ambientes inadequados.

Entre os espaços cotidianos em que essa injustiça térmica se manifesta com maior nitidez, o transporte coletivo ocupa posição central, pois concentra longos deslocamentos, superlotação, dependência social e, em muitos casos, ausência de climatização adequada. Em muitas cidades brasileiras, os ônibus se transformam em espaços fechados de exposição ao calor. Durante ondas de calor, a temperatura interna dos veículos pode ultrapassar 40°C, especialmente quando há superlotação, pouca ventilação e ausência de ar-condicionado.

Para trabalhadores que passam uma ou duas horas em deslocamentos diários, o dia de trabalho começa antes mesmo da chegada ao emprego, sob fadiga, suor, irritação, queda de pressão, dor de cabeça e desidratação. Motoristas e cobradores enfrentam jornada ainda mais crítica, expostos durante horas à radiação solar e ao calor acumulado no interior dos veículos. Em Salvador, o Sindicato dos Rodoviários registrou 312 ocorrências formais de adoecimento relacionadas ao calor em 2024, aumento de 47% em relação ao ano anterior.

Ao analisar o transporte público sob a ótica da crise climática, torna-se evidente que a precariedade térmica dos deslocamentos urbanos não pode ser reduzida a uma questão de conforto ou preferência individual. Ônibus sem climatização, pontos sem sombra, terminais mal ventilados e trajetos longos entre periferia e centro compõem uma infraestrutura urbana que transfere o custo climático aos mais pobres.

A população que mais depende do transporte coletivo é justamente a que menos dispõe de alternativas. O trabalhador que chega exaurido ao emprego não sofre apenas individualmente. Sua saúde é afetada, sua produtividade diminui, sua segurança no trabalho pode ser comprometida e sua qualidade de vida se deteriora. O calor, nesse caso, atua como uma penalidade invisível imposta aos que já vivem sob maior vulnerabilidade.

Proteger a população do calor é proteger direitos.

Proteger a população do calor é proteger direitos.Magnific

A mesma lógica de exposição desigual aparece nas escolas públicas, onde o calor extremo compromete não apenas o conforto dos ambientes, mas as próprias condições de realização do direito à educação. Apenas 34% das salas de aula em escolas públicas brasileiras possuem climatização, enquanto nas escolas particulares esse percentual chega a 47%. A diferença é suficiente para mostrar que o calor também aprofunda desigualdades educacionais.

Em salas superlotadas, mal ventiladas, com ventiladores antigos ou infraestrutura elétrica insuficiente, estudantes têm dificuldade de concentração, sofrem mal-estar e perdem rendimento. Professores enfrentam exaustão, dores de cabeça, queda de pressão e desgaste emocional. O direito à educação não se realiza plenamente quando a sala de aula se transforma em ambiente fisicamente hostil.

Esse problema deixou de ser hipotético e já aparece em situações concretas, como ocorreu no Rio Grande do Sul, em fevereiro de 2025, quando a previsão de temperaturas próximas de 40°C levou o sindicato dos professores estaduais a solicitar a suspensão das aulas. A rede estadual enfrentava condições estruturais precárias, com cerca de 75% das escolas sem ar-condicionado, o que afetava aproximadamente 700 mil alunos. A resposta pública, muitas vezes limitada a orientações gerais de hidratação e cuidado, revela a insuficiência de medidas paliativas diante de uma transformação climática estrutural. Não basta recomendar que estudantes bebam água quando a escola não oferece condições adequadas de ventilação, sombreamento, climatização e segurança térmica.

No mundo do trabalho, a intensificação do calor extremo também vem produzindo efeitos cada vez mais visíveis sobre a saúde, a segurança e a capacidade de permanência dos trabalhadores em suas atividades. Em 2024, o Ministério Público do Trabalho registrou aumento de 35% nas denúncias envolvendo más condições térmicas no ambiente laboral, com destaque para construção civil, limpeza urbana, comércio ambulante e logística.

Trabalhadores informais e terceirizados estão entre os mais vulneráveis, pois frequentemente não têm acesso regular a água potável, pausas, áreas de descanso, equipamentos adequados ou proteção previdenciária. O calor extremo, nesse contexto, não é apenas risco natural. É também resultado de relações de trabalho precarizadas, fiscalização insuficiente e ausência de políticas públicas capazes de reconhecer o estresse térmico como risco ocupacional.

A gravidade desse cenário impõe ao Brasil a necessidade de tratar o calor extremo como questão de Estado, e não como ocorrência episódica a ser enfrentada apenas por recomendações emergenciais em dias de temperatura elevada. Isso exige regulamentar limites de exposição térmica, estabelecer pausas obrigatórias, garantir hidratação permanente, criar áreas sombreadas de descanso, adaptar jornadas em períodos críticos e fiscalizar ambientes de trabalho fechados e abertos. Exige também investir em transporte público climatizado, arborização urbana, corredores verdes, telhados frios, pavimentação menos absorvente, escolas adaptadas e unidades de saúde preparadas para atender os efeitos do calor. Essas medidas não são luxo, nem agenda secundária. São infraestrutura básica para uma realidade climática que já chegou.

Nesse contexto, o provável El Niño de 2026 deve funcionar como alerta político, pois sua eventual intensidade poderá agravar temperaturas, alterar regimes de chuva, pressionar lavouras, sistemas de saúde, redes elétricas, escolas, transportes e ambientes de trabalho. Mas o problema não começa com o El Niño. Ele apenas intensifica uma vulnerabilidade já construída por décadas de urbanização desigual, negligência ambiental, precarização trabalhista e planejamento público insuficiente. O calor extremo não atinge apenas corpos isolados. Ele revela a fragilidade de um modelo de cidade que naturalizou ônibus abafados, escolas insalubres, jornadas extenuantes e periferias sem infraestrutura verde.

A emergência climática não pode continuar sendo discutida apenas em conferências internacionais, relatórios técnicos ou diagnósticos científicos que raramente se convertem, com a urgência necessária, em políticas públicas capazes de proteger a população. Ela precisa se tornar realidade concreta no planejamento urbano, na regulação do trabalho, na organização do transporte coletivo, na adaptação das escolas, na estrutura dos serviços de saúde e na proteção cotidiana das pessoas mais expostas ao calor.

O problema já está no ônibus lotado, na sala de aula sem ventilação, no posto de saúde sem climatização, no canteiro de obras, na rua asfaltada sem árvores, na casa pequena da periferia, no corpo cansado do trabalhador informal e no rendimento escolar comprometido de milhões de crianças e jovens. O calor tornou-se uma questão política porque sua distribuição acompanha as linhas da desigualdade. Proteger a população do calor extremo é, portanto, proteger direitos. É defender saúde, trabalho digno, educação, mobilidade e cidade habitável.

Em 2026, se as projeções se confirmarem, o Brasil não enfrentará apenas mais um período de calor intenso, mas os efeitos de um El Niño excepcionalmente forte atuando sobre cidades já aquecidas, sistemas públicos frágeis e populações socialmente desprotegidas. O impacto desse fenômeno não será medido apenas por recordes de temperatura, mas pelo aumento da exaustão no trabalho, pela queda do rendimento escolar, pela sobrecarga dos serviços de saúde, pelo sofrimento nos deslocamentos urbanos e pela ampliação das desigualdades entre quem pode se proteger e quem será obrigado a suportar o calor como parte da rotina.

O super El Niño, nesse sentido, não cria sozinho a crise social do calor extremo, mas revela sua gravidade e acelera seus efeitos. A resposta a esse cenário não pode ser improvisada, tardia ou limitada a alertas meteorológicos. Ela precisa reconhecer que proteger a população do calor extremo é proteger direitos fundamentais. Em um país marcado por desigualdades profundas, enfrentar o calor tornou-se também uma forma de enfrentar a injustiça social.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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