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Sul: região desafia Lula e expõe divisões na direita

Com dois governadores de olho no Planalto e reeleição em jogo, a região combina favoritismo da direita e impasses locais.

4/3/2026
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Os Estados do Sul entram no ciclo eleitoral de 2026 com disputas abertas e cenários ainda em formação. A direita larga na frente, mas enfrenta divisões internas e desafios na definição de sucessores, enquanto a esquerda permanece fragmentada. Em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, o presidente Lula (PT) teve desempenho abaixo da média nacional no segundo turno de 2022 — dado que ajuda a explicar por que a corrida pelos governos estaduais na região é hoje liderada majoritariamente pela centro-direita e pela direita.

Quatro anos depois, o Sul continua a representar um terreno desafiador para Lula. Ao mesmo tempo, divisões entre aliados, indefinições sobre sucessões e alianças ainda em negociação mantêm o quadro em aberto nos três Estados.

Com dois governadores — Ratinho Junior (PSD-PR) e Eduardo Leite (PSD-RS) — em movimento para disputar a Presidência da República e Jorginho Mello (PL) buscando a reeleição em Santa Catarina, a região se consolida como um dos tabuleiros mais estratégicos da eleição nacional, onde acordos tardios e decisões de última hora podem alterar o equilíbrio da disputa.

Eleito em 2022 pelo PSDB, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, migrou para o PSD, de olho na disputa presidencial.Arte Congresso em Foco

Paraná: Moro lidera, mas veto do PP expõe impasse e abre discussão sobre troca de partido

A corrida pelo Palácio Iguaçu começou marcada por indefinições no grupo governista e por um impasse que envolve o senador Sérgio Moro (União Brasil). Pré-candidato declarado desde o fim das eleições municipais de 2024, Moro lidera isoladamente as pesquisas, segundo levantamentos recentes.

Apesar da dianteira, o ex-juiz federal enfrenta um obstáculo decisivo: o veto do comando regional do Progressistas (PP) à sua candidatura. O diretório estadual do partido decidiu, por unanimidade, não homologar o nome de Moro para o governo. A resistência ganhou peso porque PP e União Brasil integram, no plano nacional, a federação União Progressista, que exige decisões conjuntas sobre candidaturas majoritárias. Do contrário, Moro teria de procurar outra legenda para concorrer ao Palácio Iguaçu.

O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), entrou em campo e costura um acordo pelo qual o seu partido indicaria o vice na chapa. Principal liderança do partido no Estado, o deputado Ricardo Barros (PR), inicialmente irredutível no projeto de candidatura própria, tem conversado com o senador sobre uma eventual costura. Barros é casado com a ex-governadora Cida Borghetti e pai da deputada estadual Maria Victoria (PP).

Em declarações recentes, Moro afirmou que sua candidatura é "irreversível" e que trabalha para construir uma solução dentro da federação. Ele também busca o apoio do PL.

O PP ainda avalia outros três caminhos: apoiar o nome que será indicado por Ratinho Junior; lançar candidatura própria, com a ex-governadora Cida Borghetti ou o ex-prefeito de Londrina Marcelo Belinati; ou ainda oferecer filiação a Rafael Greca, secretário estadual de Desenvolvimento Sustentável e ex-prefeito de Curitiba.

No PSD, a indefinição também é significativa. Ratinho Junior, que se apresenta como pré-candidato à Presidência da República, centralizou a decisão sobre o sucessor. Nos bastidores, sinalizou preferência pelo secretário das Cidades, Guto Silva, mas evita assumir publicamente a escolha. Outros dois nomes do partido, Greca e o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi, avaliam deixar o PSD até abril caso sejam preteridos.

Curi tem convite do Republicanos para disputar o governo. A sigla também tem simpatia por Rafael Greca.

Aliados do governador temem que a indefinição prolongada favoreça Moro, que, mesmo cercado de incertezas partidárias, percorre o Estado como candidato. O PL de Jair Bolsonaro tem indicado preferência por apoiar um candidato escolhido por Ratinho Jr., desde que o governador não concorra com Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. O Novo trabalha com a pré-candidatura do vice-prefeito de Curitiba, Paulo Eduardo Martins.

No campo da esquerda, o cenário é mais claro. O PT decidiu apoiar a pré-candidatura do deputado estadual Requião Filho (PDT), repetindo a estratégia adotada em Curitiba em 2024, quando abriu mão de candidatura própria. A aliança também marca uma reaproximação com a família Requião, após o ex-governador Roberto Requião deixar o PT no início de 2024. O ex-governador deve concorrer ao Senado, em dobradinha com Gleisi Hoffmann (PT).

Possíveis candidatos a governador no Estado.Arte | Congresso em Foco

Rio Grande do Sul: disputa apertada e tensão na base de Eduardo Leite

O cenário no Estado é um dos mais abertos do Sul do país. Pesquisa do Real Time Big Data divulgada em 4 de dezembro de 2025 aponta empate técnico triplo entre Luciano Zucco (PL), Edegar Pretto (PT) e Juliana Brizola (PDT).

Zucco tem apoio declarado do Republicanos e ganhou força após o Progressistas (PP) decidir desembarcar do governo Eduardo Leite (PSD) e sinalizar aproximação com sua pré-candidatura. Com forte presença municipal — mais de uma centena de prefeituras no Estado — o PP avalia ter capilaridade suficiente para impulsionar um nome competitivo e poderá indicar o vice na eventual chapa.

A sinalização favorável a Zucco foi aprovada pelo partido em janeiro, mas a reunião foi esvaziada por uma ala dissidente ligada a Eduardo Leite. Esse grupo defende aliança com o vice-governador Gabriel Souza (MDB), apontado como candidato do governador à sucessão. O PP ainda não formalizou a decisão final. Gabriel conta com apoio do PSD e com respaldo de lideranças do União Brasil.

Na esquerda, a fragmentação persiste entre Edegar Pretto, presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e a ex-deputada estadual Juliana Brizola, apesar das conversas em busca de unidade. Juliana é neta do ex-governador Leonel Brizola, um dos principais nomes da esquerda brasileira. Edegar, por sua vez, é filho do ex-deputado Adão Pretto (PT-RS), um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), falecido em 2009.

Possíveis candidatos a governador no Estado.Arte | Congresso em Foco

Santa Catarina: favoritismo de Jorginho e risco de divisão conservadora

Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL) parte como favorito à reeleição e lidera as pesquisas de intenção de voto. O Estado foi aquele em que Lula registrou seu pior desempenho em 2022 e permanece como um dos principais redutos conservadores do país.

Jorginho tem no PL sua base mais sólida, mantém diálogo com MDB e PP e conserva forte ligação com o ex-presidente Jair Bolsonaro. O principal risco à sua candidatura vem do próprio campo da direita: o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), tenta se consolidar como alternativa e pode dividir o eleitorado conservador.

Após meses de indefinição, o PL decidiu lançar uma chapa majoritária "puro-sangue", ao confirmar as pré-candidaturas de Carlos Bolsonaro e da deputada federal Caroline de Toni ao Senado. A decisão representou o rompimento de um acordo articulado entre as direções nacionais do PL e do PP, que previa o apoio de Jorginho à reeleição do senador Esperidião Amin (PP).

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a afirmar que Caroline não seria candidata ao Senado pela legenda. Diante da incerteza, a deputada iniciou conversas sobre eventual filiação a outras siglas. A situação foi destravada após intervenção de Jair Bolsonaro, que selou a candidatura de Caroline, decisão posteriormente aceita por Valdemar, mas que repercutiu negativamente no PP.

O Progressistas dá sinais de que pode romper com Jorginho e migrar para o projeto de João Rodrigues. O prefeito de Chapecó também busca o apoio do MDB. A legenda, que cogitava indicar o deputado federal Carlos Chiodini como vice na chapa de Jorginho, foi surpreendida com a decisão do governador de reservar a vaga ao prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo).

Na oposição, Décio Lima (PT), atual presidente do Sebrae, e Afrânio Boppré (Psol), vereador em Florianópolis, enfrentam dificuldades para romper a hegemonia da direita no Estado. Nas eleições municipais de 2024, o PT elegeu apenas sete prefeitos entre os 295 municípios catarinenses, sinalizando o tamanho do desafio para o chamado campo progressista.

Possíveis candidatos a governador no Estado.Arte | Congresso em Foco
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